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Blockchain: o Futuro está aqui, agora

Nós lá fora

José Reis Santos

BUDAPESTE, HUNGRIA - Blockchain é uma solução tecnológica que procura criar «confiança» onde ela não existe

Hoje escrevo como CEO e fundador da DKJ International, empresa que montei há um par de meses, e que trata de fornecer soluções, consultadoria e advisory nas áreas das cryptomoedas e blockchain. É como sabem uma nova área, com vastas implicações, que existe desde que Satoshi Nakamoto assinou em 2008 o white paper que introduziu os conceitos de Bitcoins (a primeira crytomoeda), e a inovadora tecnologia na sua base, blockchain. Na base deste paper estava a criação de um sistema financeiro alternativo ao dominado pela grande finança e banca internacional que, recordemos, esteve na origem da crise de 2008 mundial, crise paga por contribuintes em todo o mundo e de impacto social fortíssimo (recentemente o Expresso contabilizou que, desde 2008 os contribuintes portugueses pagaram em média 15 euros por mês para resgatarem 5 instituições bancárias nacionais). Na base da crise de 2008, entre outras causas, encontra-se o excessivo poder concentrado na mão de um conjunto de instituições too big to fail, fracamente reguladas e desprovidas de quaisquer controlos democrático-políticos. Instituições que, depois de resgatadas com dinheiros públicos, rapidamente regressaram à practica de usar e abusar de um sistema enviesado para o topo (o tal 1%).

Foi contra este estado de coisasque surgiu a Bitcoin, como um novo sistema de pagamentos que devido à sua natureza descentralizada, capacidade criptográfica e computacional (derivada dessa mesma descentralização) dispensava a existência de mediadores institucionais na relação financeira entre partes, resolvendo assim o problema da confiança com uma solução que garante que entre quem envie e receba produtos financeiros (por exemplo) dispense a mediação de uma terceira parte (um banco ou instituição financeira), pois através da inserção dessa operação no blockchain, e depois da mesma ver verificada de forma descentralizada, a mesma fica selada, imutável, e verificável por quem a queira verificar. É este o carácter revolucionário e disruptivo desta nova proposta tecnológica, pois, ao contrario do que muitos previam, este sistema é até hoje seguro em relação a quaisquer ataques informáticos, sendo toda a informação colocada no blockchain inalterável e transparente. Assim, apesar do todo o ruído em torno das crytomoedas (e já lá vamos), a verdade é que poucos não reconhecem as premissas e vantagens da sua base tecnológica (blockchain), bem como as suas aplicações disruptivas em practicamente todos os sectores económicos (também já lá vamos). Blockchain é hoje uma das mais promissoras tecnologias do futuro / presente, e peça central no actual momento disruptivo que vivemos, de digitalização económica 4.0, IoT (internet of things), smart cities design, etc. E prova disso é o facto da esmagadora maioria das principais multinacionais, e do sector governamental, estar a desenvolver, aplicar ou estudar soluções com base em tecnologia blockchain.

Entretanto, e antes de falarmos um pouco mais sobre blockchain, importa referir que o caminho percorrido pelas cryptomoedas tem sido lento mas sólido. Assim, se num primeiro momento o seu uso foi muito associado à silk roade à dark web, o ano passado assistiu à sua aceitação generalizada, com um pico de interesse e valor durante o Natal de 2017, quando o preço das bitcoins atingiu os 20.000 dólares, e valor total do mercado crytpo ultrapassou os 800 mil milhões de USD. Durante o último ano, em especial até este verão, o interesse neste sector pode também ser verificado pelo número de ICO’s que angariaram milhares de milhões de euros no mercado, simbolizando esta via uma alternativa às formas de financiamentos tradicionais, fora do circuito das Venture Capitals, banca, etc (tema para outro artigo), e pela entrada no sector de grandes playersdo sector financeiro e pelas principais empresas multinacionais. Recentemente, o tema das crytomoedas voltou a estar na baila, devido à abrupta descida do seu valor de mercado (em cerca de 40%); o que, apesar de deixar em aberto o seu valor como Moeda(pela sua elevada flutuação, não existência de banco central e correspondente regulação – apesar de exemplos em seu contrario, como Malta), mantém assente a sua apreciação comoBem de valor (comodity), assim como os benefícios evidentes em torno do uso de soluções blockchain. É neste ponto que queremos nos focar, neste nosso primeiro artigo sobre a temática.

Blockchain, como já referimos, é uma solução tecnológica que procura criar «confiança» onde ela não existe, ou seja, quando partes desconhecidas pretendem desenvolver uma relação sem necessitarem da dependência de intermediação. Neste sentido, Blockchain permite tornar um conjunto de transações mais transparentes, democráticas, descentralizadas, eficientes e seguras, sendo – devido a sua encriptação e natureza descentralizada - facilmente auditável, e resistente a falsificações. Com estas características, não surpreende que tenha sido o sector da Banca um dos primeiros a apreciar positivamente o seu impacto, especialmente no que respeita a sua utilização como sistemas de pagamentos internacionais, como alternativa a quem não tenha acesso a bancos (mais de 2 mil milhões de pessoas), ou que depósitos em crypto permitam um acesso garantido a valora quem esteja sujeito a elevadas taxas de flutuação cambial (como recentemente se viu na Argentina, ou na Turquia) ou sujeitos a moedas fracas ou não indexadas. Por estas razões, alguns referem que a blockchain fará ao sector bancário o que a internet fez com os media, sendo que a esmagadora maioria do sector já explora soluções desta natureza.

Outro dos sectores preparado para sofrer dos efeitos disruptivos de blockchain é o da gestão de logística /cadeia de distribuição, pois as transações entre partes podem ser documentadas num registo permanente e descentralizado, monitorizando de forma segura e transparente o transporte de produtos, desde a sua origem ao destino final, passando por toda a cadeia de distribuição, fornecendo total rastreabilidade no percurso e novas capacidades de gestão georreferenciadas. Tais características permitem, por exemplo, garantir a genuinidade de determinado produto, combater a sua (potencial) contrafacção, e identificar e controlar a origem dos produtos inseridos na blockchain, assim fornecendo confiança ao consumidor, e permitindo a imediata identificação – em toda a cadeia de distribuição – de potenciais falhas de qualidade. Simultaneamente, a possibilidade de se utilizarem smart contracts pode permitir que um conjunto de operações sejam automatizadas, com evidentes mais-valias para diferentes operadores económicos.

Uma vez que uma das principais características de Blockchain é a sua capacidade de gerar e gerir confiança, a sua influência pode também ser sentida no sector dos Seguros ou do imobiliário, através da utilização de smart contracts para optimizar um conjunto de processos burocrático-administrativos, desde a verificação da identidade de compradores e/ou vendedores, a calculo de prémios, pagamento de impostos e/ou comissões, resolução de conflitos entre partes contractuantes, etc, ou seja, optimização da maquinaria burocrática. Na mesma maneira, a utilização de smart contracts pode permitir que, por exemplo no sector das NGO’s, seja utilizado blockchain para rastrear o uso dos fundos e lhes seguir o seu rastro e aplicação; ou que em actos eleitorais seja colocado em blockchain o registo eleitoral, e posterior inscrição do apuramento eleitoral num registo imutável, e público. No mesmo sentido, smart contracts podem também serem utilizados para automatizar pagamentos de royalties e direitos de autor, simplificando uma relação tantas vezes conflituosa entre quem produz e gere produtos culturais.

Finalmente, identificamos ainda o sector governamental como um dos mais expostos aos efeitos positivos desta tecnologia, beneficiando da sua segurança e capacidade de inserir em smart contacts um conjunto de informação imutável que possa permitir aumentar a eficácia na administração publica, e consequentemente a transparência na relação entre o Estado e os seus cidadãos. Basta para este efeito pensar que a segurança social ou os apoios sociais podem ser pagos através de smart contracts, ou que os registos de propriedade se colocados em blockchain podem dispensar um conjunto de intermediários (notórios, advogados, etc) de forma a optimizar o sector, com evidentes poupanças administrativas, para não referir a não dependência de registos físicos e perecíveis. Ou ainda que os serviços públicos de Saúde ou os sistemas de gestão de energia possam ser integrados em blockchain, ou que se possam integrar plataformas de sistemas de informação / IoT (Internet das Coisas) de forma a criar redes descentralizadas de aparelhos de IoT que, utilizando blockchain, eliminam a necessidade de existir uma central de comunicação entre aparelhos, operando de forma descentralizadas, comunicando entre eles directamente para actualizar softwares, resolver bugs, verificar a gerir o uso de energia, etc.

Ou seja, exemplos da boa utilização de blockchain são imensos, e nem nos referimos ainda ao papel das ICO’s / STO’s como novas formas de financiamento de projectos, ou a outras áreas que estão a sofrer um forte impacto por parte desta tecnologia disruptiva. Em todo o caso, pretende este ser este apenas um primeiro artigo sobre o tema, a regressar em breve com outras apreciações. Por agora importa apenas realçar que o futuro que nos prometia esta tecnologia já chegou, e está a ser implementado em centenas de projectos um pouco por este mundo fora. Resta saber onde e como se posicionará o mercado português. Ttma que trataremos no nosso próximo texto.

José Reis Santos

José Reis Santos

BUDAPESTE, HUNGRIA - Comparativista. Talvez seja esta a melhor forma de me descrever. Quer como historiador, cientista político ou sociólogo amador. Neste sentido, tendo vivido e investigado em Madrid, Bruxelas, Nova Iorque, Inglaterra e agora Budapeste, tenho procurado articular pontes e ligações entre a sociedade civil, académica e política, de forma a retirar destes mundos (tantas vezes isolados) pontos de convergência e de comunalidade. Estar em Budapeste tem-me permitido acrescentar mais um ponto de observação, este proveniente da Europa Central, aos fornecidos por alguns dos lugares pelos quais tenho passado, partindo sempre desse berço de cosmopolitismo que é a minha Lisboa. Vivemos num mundo complexo, cheio de nuances e particularidades, falsa informação e algoritmos condicionadores, gente doida e perigosa, cheia de verdades e factos-alternativos, novos nacionalismos e disrupções sistémicas. Assim, quando mais procurarmos retirar do contacto com outras culturas e gentes, da sua literatura, história ou gastronomia, mais capacitados nos encontramos para entender um pouco (mais) o que nos rodeia.