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Macau, portugueses e as visitas

Nós lá fora

Filipa Araújo

MACAU - Esta terra é a disponibilidade do outro ao outro. Talvez seja isto que quer dizer o espírito de comunidade.

Este fim-de-semana recebi um casal amigo de Portugal (e Espanha) que anda a viajar pela Ásia. Há uns meses, quando falámos sobre o roteiro que estavam a preparar, convidei-os para vir conhecer Macau. Que tantas vezes passa despercebida entre o sol da Tailândia, a cultura japonesa, o misticismo do Laos, Camboja e o deslumbre de Singapura. Não nego que sinto Macau muitas vezes escondida na sombra de Hong Kong. Por questões práticas, percebo, no entanto, injustas.

De portas bem abertas recebi-os. É-me fácil. Gosto de receber pessoas, gosto de dar a conhecer Macau, a minha casa e os meus amigos, principalmente esta última parte, as pessoas. Não tenho qualquer dúvida que as pessoas fazem os lugares. Macau é espelho disso. Um pequeno espaço no mundo que consegue ser tantas coisas ao mesmo tempo, acolher tantas culturas, misturando-as sem nunca se tocarem.

Sou das sortudas que se farta de receber visitas e, por isso, já tenho guias decorados, embora tente sempre descobrir algo novo para fazer ou conhecer, sempre que os meus serviços de guia são requisitados. Seria mais prático pegar em dois mapas, assinalar os pontos principais e entregar os visitantes à aventura. Mas Macau merece muito mais do que isso. E os meus amigos também.

À primeira vista, Macau consegue ser um grande buraco de luzes. Impressiona e deixa-nos a pensar… “Não há nada para além de casinos” ou “Isto são só casinos”. Tudo errado. Macau é muito mais. Mais. Macau não são os casinos. Nunca o foi. E espero que nunca o seja. De tal forma, que os meus amigos perderam menos de uma hora com a questão dos casinos. E estiveram aqui 3 dias.

Perdemo-nos pelas ruas da Areia Preta, onde nos sentimos engolidos pelos prédios cheios de grades, pela secagem do peixe pendurado à berma da estrada, pelos altares a cada esquina, inundando as vias com cheiro a incenso.

Respirou-se na nossa montanha, subiu-se ao alto e vislumbrou-se Macau. O seu movimento, as luzes, e é nesses momentos que nos apaixonamos – ou “reapaixonamos” – por esta terra. Comeu-se tailandês, japonês, macaense, chinês. Falou-se português, cantonês, mandarim e inglês. Ainda se arranhou no espanhol.

Bem do alto do Farol da Guia reconheceram-se as especificidades arquitectónicas de Macau. Uma confusão de prédios amontoados entre as ruínas de São Paulo, o Grande Lisboa como guardião e o iluminado Terminal Marítimo que nunca descansa. Nessa confusão sentimo-nos confortados.

Ficámos presos no trânsito e percorremos a pista do Grande Prémio. Conhecemos pilotos, advogados, vendedores de rua, veterinários e jornalistas. Bebeu-se Super Bock e Tsingtao. Debruçámo-nos sobre a poluição e fomos brindados por um céu azul e sol quente num domingo perfeito. Visitaram-se ruas vazias e outras impenetráveis de tanta gente que acolhiam. Viram-se noivas, damas de honor, casamentos, cerimónias aos Deuses e fizeram-se viagens de táxis alucinantes. Descansámos no silêncio de uma terra que nunca pára, nunca descansa, nunca dorme.

Macau é isto tudo e muito mais. São os lugares díspares, as pessoas diferentes, os sabores que contrastam entre si, são os portugueses que recebem os meus amigos como se fossem amigos deles. Macau é a disponibilidade do outro ao outro. Talvez seja isto que quer dizer o espírito de comunidade.

No fim, não precisei de perguntar ou de ouvir os meus amigos dizerem que gostaram de Macau. É impossível ficar indiferente a Macau. É impossível esquecer as pessoas que se conhecem aqui.

“Os portugueses aqui são diferentes, são mais felizes, mais alegres”.

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.