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Eu, imigrante, me confesso

Nós lá fora

Paula Alves da Silva

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WASHINGTON, EUA - Longe vai esse tempo em que a ilha de Ellis, em Nova Iorque, funcionava como porta de entrada aos imigrantes que atravessavam o longo oceano ofuscados pela terra das oportunidades

“Invasores”. “Terroristas”. “Criminosos”. O pesado carimbo que cai sobre os corpos dos imigrantes pela mão do presidente Donald Trump coloca sobre a luz a face mais sórdida da América. Mas os números não mentem.

Longe vai esse tempo em que a ilha de Ellis, em Nova Iorque, funcionava como porta de entrada aos imigrantes que atravessavam o longo oceano ofuscados pela terra das oportunidades. Estávamos em 1820 quando a primeira onda de estrangeiros (registados) se instalou nos Estados Unidos. Mais de 100 milhões de norte-americanos descenderam desses imigrantes (sobretudo europeus). Hoje, mais de metade da população tem antepassados que chegaram à América entre as décadas de 1820 e 1920. Não está expresso num passaporte, mas é-lhes parte do sangue, parte do ADN.

Eu, imigrante neste país, me confesso, um dos 43 milhões, parte dessa força transformadora que produz mudanças políticas e sociais profundas, e, ainda, razão do erguer de sentimentos de ódio quando se o julgava morto. Mas quantos não foram capazes de fazer caminho onde não havia caminho, contra a descriminação, pelos direitos? Disse a activista dos direitos civis, Mary McLeod Bethune, em 1939: “Nós lutamos pela América com todas as suas imperfeições não por aquilo que ela é, mas pelo que sabemos que ela pode ser”. É, certamente, uma luta não terminada, mas é também um sonho partilhado sem fronteiras. Por americanos e por estrangeiros.

Mas os números mostram uma outra América. Uma América que se diz multiétnica e aberta. Senão vejamos. Los Angeles é hoje a maior metrópole de imigrantes do planeta. Dos 10 milhões de pessoas que vivem no seu condado, 72% pertence a minorias étnicas. Apesar das duras provas, da luta constante pela igualdade, os imigrantes tornaram-se motor económico dos Estados Unidos. Segundo o Centro para Empreendedorismo Americano, sem imigrantes os EUA perderiam quase metade das suas 500 maiores empresas. Das companhias listadas na edição 2017 do ranking da revista Fortune, 43% foram estabelecidas por imigrantes ou seus descendentes, incluindo a Google e a IBM.

Sim, nos últimos anos a xenofobia regressou à tona. Saiu envaidecida pelas ruas americanas. Mas ontem, esta América mostrou ao mundo que é possível afoga-la. Na noite das eleições intercalares elegeram-se as primeiras congressistas negras, elegeram-se as primeiras nativo-americanas, elegeram-se as primeiras muçulmanas, elegeram-se as primeiras congressistas latinas na história do estado do Texas.

Desculpem, por isso, por achar que é possível. Por achar que este país é menos racista do que se julga, menos xenófobo do que se lê, menos discriminatório do que se ouve. Sim, afirmemos, este é um país feito para imigrantes. É feito para imigrantes porque é feito deles.

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Paula Alves da Silva

Paula Alves da Silva

Paula Alves da Silva é jornalista licenciada pela Universidade do Porto e Universidade de Santiago de Compostela, uma orgulhosa portuguesa do Norte, uma amante de sol e mar e uma apaixonada por viagens. Actualmente a viver na capital Americana sendo jornalista do Banco Mundial, continua a colaborar com jornais portugueses. Na bagagem traz trabalhos de Espanha, Itália, Islândia, Alemanha, Inglaterra e EUA e histórias de viagens de quase 30 países. Agora mais do que nunca, acredita que pessoas informadas não são apenas capazes de mudar o seu mundo. São, sobretudo capazes de mudar o mundo. Viste o meu site (https://www.eating-the-world.com/)