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A Ilha do Tesouro

Nós lá fora

Casimiro Cavaco Dias

BARBADOS, CARAÍBAS - Mesmo sem nunca as visitar, as Caraíbas são parte do nosso imaginário e de muitas fantasias. Ilhas de tesouros escondidos, aventuras de piratas, barris e garrafas de rum, música contagiante e danças apaixonadas. Tudo isso atrai viajantes de todo o mundo, enquanto outros, tendo estado lá, decidiram ligar, para sempre, as suas vidas a esse paraíso

A fantasia de um refúgio nas Caraíbas evoca imagens de praias idílicas cercadas por águas azuis, e marcadas por palmeiras altas que ondulam com o mar. Mais do que uma pitoresca paisagem tropical, a Ilha dos Barbados é rica numa cultura marcada pelo rum mundialmente famoso, igrejas históricas e excitantes corridas de cavalos. Há aqui muito mais do que se poderia imaginar. Há uma cultura e história rica a explorar.

Barbados é ainda espiritualmente fascinante. Tem mais de trezentas igrejas, sempre cheias, e mais de cem denominações religiosas muito ativas na promoção de comunidades de apoio social. A primeira igreja foi construída pelos primeiros colonos ingleses em 1628. Desde então, a igreja foi danificada por dois furacões e reconstruída várias vezes.

Mas a espiritualidade não se fica por aqui. Há tantas lojas de rum quanto igrejas em Barbados. Desde o início da sua produção em 1640, o rum se tornou um marco da cultura, história e economia da ilha. As lojas de rum são muito mais do que um bar, são ainda loja de produtos para o dia-a-dia, espaço para petiscos leves, são a principal fonte de noticias sobre o que se passa na ilha e também no Mundo. As barracas têm um ar fácil e descontraído. Ao entrarmos, há o som do chiar de peixe frito, servido com arroz, ervilhas e torta de macarrão, acompanhado de conversas entre todos nos, ao som da batida de música soca contagiante.

Quando o Colombo chegou nas Caraíbas em 1492, confundiu-as com a Ilha da Ásia. Desde entao, as Caraíbas se tornaram numa fonte inesgotável de outras confusões e fantasias. A Ilha dos Barbados foi descoberta e batizada, em 1536, pelo explorador português Pedro Campos. Nessa altura, os portugueses encontraram uma ilha cheia de figueiras com mais de dez metros de altura, e com raízes aéreas lançadas a partir dos galhos, que lembram barbas. Esta árvore, a figueira barbuda da um fruto doce cercado de pequenas flores. Marcada pela abundância destas figueiras, a ilha foi chamada de Barbados.

Com excepção de uma ocasional ilha de coral, como os Barbados, todas as outras ilhas das Caraíbas são picos emergentes de vulcões submarinos. Formam um corredor de ilhas a partir de Trindade e Tobago, junto da Venezuela, balancando para norte entre os Barbados e Santa Lucia, seguindo depois para Oeste e passando por Cuba, Jamaica e as Ilhas das Bahamas.

Barbados tem o clima mais agradável das ilhas das Caraíbas com cerca de dez horas de sol por dia. Mas o calor comeca cedo. À medida que o sol se levanta, comecam as reuniões de praia com pessoas a nadar, a caminhar e a primera conversa do dia. Ai, podemos estar a falar, da mesma forma, com o cozinheiro do lado ou o ministro do governo.

Os mercados também começam cedo. Entramos na correria, no barulho e na discussão, onde mesas cheias de tubérculos exóticos colhidos naquela manha. Há a banana vermelha com sabor a framboesa, as anonas de sabor ácido, a fruta-pão para assar e flores de hibisco.

Enquanto a maioria dos visitantes segue pela costa oeste dos Barbados, passando pelos vários hotéis de luxo, encontramos verdadeiras janelas para o mar, cheias de vida local - as lojas de rum, os mercados de peixe, os vendedores de rua e a música que se cantam nas igrejas, com vista para o mar, sempre cheias. Basta entrar e ser bem-vindo, seja uma multidão na igreja ou numa loja de rum. Trata-se de sentir o verdadeiro sabor do senso de comunidade nos Barbados.

Os dias passam rápido, num ritmo muito próprio das Caraíbas. O pôr do sol nas Caraíbas é um dos eventos mais melancólicos, um momento de tristeza súbita. No brilho do luar, o amplo mar das Caraíbas parece secreto, misterioso e surpreendentemente belo. Com a noite, chega o coachar de rãs que aumenta à medida que a escuridão se intensifica. O som repetitivo e continou ouve-se em toda a ilha, apenas interrompido pela musica alta das muitas festas na Ilha.

Viajar e viver nas Caraíbas tem sua própria trilha sonora. O reggae é apenas o começo. O Soca, menos conhecido, torna-se contagiante nos Barbados. Tornado popular por Rihanna, a soca e o tema de muitas festas da ilha. Mas há ainda o calipso, o ska, o cha-cha-cha e numerosas iterações do jazz latino. Ao som da Soca e do Reagge, Barbados mostra como os lugares marcam as pessoas, assim como as pessoas marcam os lugares.

Casimiro Cavaco Dias

Casimiro Cavaco Dias

BARBADOS, CARAÍBAS - Nasceu em Faro. Cedo, movido pela realização da saúde enquanto direito humano, viveu em Lisboa, Copenhaga, Washington DC, Luanda e nas Caraíbas. Especialista das Nações Unidas, apoia os Países em todo o Mundo a transformar sistemas e serviços de saúde mais inovadores, resilientes e sustentáveis. Entre a destruição dos furacões nas Caraíbas, os surtos de ébola e febre amarela na África, a crise dos refugiados na Europa ou a crise financeira dos Estados Unidos, a paixão e a criatividade das pessoas torna possível transformar e criar o futuro da saúde para todos. Autor do livro “O Valor da Inovação: Criar o futuro do Sistema de Saúde” e Prémio António Arnaut.