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O Outono Nordestino – sendo que a Noruega fica a nordeste da nossa terra

Nós lá fora

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA - O fjord está calado e a pensar na vida, mas o vento nas folhas imita o marulhar da maré, ouve-se o silvo estúpido dos pneus na estrada encharcada que nos separa do mar e, a sublinhar o domingo, rompe uma tirada de sinos a chamar para uma missa que continuo a recusar

Nos primeiros dias de Outubro:

Contradizendo a latitude, é Outubro e lá fora está mesmo domingo com uma brisa de temperatura idiosincraticamente amena que agita a cortina branca na janela entreaberta, um primeiro plano de artefacto de vida sobre um fundo de montanhas e mar. A médio plano vê-se uma árvore outonal, as folhas a tender festivamente para o vermelho. Nos fjords, o solo é pobre, raro, e os Invernos frios e violentos – Outono é aceitar que as árvores se dedicam amorosamente a reciclar a clorofila para sobreviver ao interregno sazonal imposto pela meteorologia; também elas, as árvores, preocupadas com o silêncio abafado da neve que vem aí. A antocianina torna as folhas sanguíneas; o vermelho remete para a vida quando na realidade prenuncia a sua queda e morte. Agrada-me a incongruência. O vento cobre este quadro com um tecido sonoro complexo – o fjord está calado e a pensar na vida, mas o vento nas folhas imita o marulhar da maré, ouve-se o silvo estúpido dos pneus na estrada encharcada que nos separa do mar e, a sublinhar o domingo, rompe uma tirada de sinos a chamar para uma missa que continuo a recusar, embora a aceite como marca indelével neste dia dito santo, e em todos os outros dias ditos santos e sanguíneos espalhados pela minha memória e pelo mundo. Sobre a mesa estão dois fósforos por acender, cruzados um sobre o outro como se cruzam as pernas durante uma conversa inesperadamente interessante. O vidro grosso de um copo de água semi-cheio deforma a mancha de luz que o sol outonal atira sala adentro. Não sei onde está o meu cão, os meus filhos estão ambos a dormir em casa de amigos, sobre a cadeira mais confortável da sala estão dois quadros de um pintor de quem gosto mais da obra que do autor. Não sei nada, não sei de nada. É como se não tivesse nunca lido parábolas. Procuro no google o verdadeiro significado de fenómeno. É irrefutavelmente domingo.

Nos últimos dias de Outubro:

Em Outubro os noruegueses descartam a camadinha de calor humano que construíram laboriosamente ao longo do Verão e ficam um bocadinho mais macambúzios, prolongando os silêncios até ser frequente já não se saber do que estava a falar
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Em Outubro os noruegueses descartam a camadinha de calor humano que construíram laboriosamente ao longo do Verão e ficam um bocadinho mais macambúzios, prolongando os silêncios até ser frequente já não se saber do que estava a falar

Vasco Pinhol

Ao contrário de nós – portugueses desterrados, que temos connosco memórias perenes de Outonos a oscilar entre dias de Verão fresco e dias de Primavera com outro cheiro – os noruegueses sabem o que os espera
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Ao contrário de nós – portugueses desterrados, que temos connosco memórias perenes de Outonos a oscilar entre dias de Verão fresco e dias de Primavera com outro cheiro – os noruegueses sabem o que os espera

Vasco Pinhol

Conhecem bem o desconforto matinal de sentar o rabo num carro quando estão -5º Celsius. Sabem que a partir de agora é preciso ter cuidado com o que se deixa na rua, porque tudo vai tender para o congelamento
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Conhecem bem o desconforto matinal de sentar o rabo num carro quando estão -5º Celsius. Sabem que a partir de agora é preciso ter cuidado com o que se deixa na rua, porque tudo vai tender para o congelamento

Sabem que vêm aí os dias tão curtos que não se percebe bem onde começaram ou onde acabaram. Sabem que vão passar uma temporada de canelas rebentadas por andar às escuras a tropeçar na mobília
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Sabem que vêm aí os dias tão curtos que não se percebe bem onde começaram ou onde acabaram. Sabem que vão passar uma temporada de canelas rebentadas por andar às escuras a tropeçar na mobília

Vasco Pinhol

As árvores pintam a cobertura de alternativas ao verde e, à primeira tempestade, ficam carecas. A chuva passa a encharcar, enregelando a melhor das boas-vontades. A neve começa a aparecer nos picos e todos os dias desce um bocadinho na nossa direcção. Ficamos sem saber se devemos acender a lareira ou ir buscar os skis à garagem
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As árvores pintam a cobertura de alternativas ao verde e, à primeira tempestade, ficam carecas. A chuva passa a encharcar, enregelando a melhor das boas-vontades. A neve começa a aparecer nos picos e todos os dias desce um bocadinho na nossa direcção. Ficamos sem saber se devemos acender a lareira ou ir buscar os skis à garagem

Os passarinhos têm montes de reuniões urgentes em que discutem o que fazer. As últimas moscas vivem aterrorizadas. Os cães patinam de manhã atrás dos gatos. Cá estamos outra vez
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Os passarinhos têm montes de reuniões urgentes em que discutem o que fazer. As últimas moscas vivem aterrorizadas. Os cães patinam de manhã atrás dos gatos. Cá estamos outra vez

Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.