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Saltinho à Colômbia

Nós lá fora

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE - A paisagem é luxuriante, de um verde intenso, muito diferente dos bosques e do deserto do Chile. Ao invés dos sinais de trânsito que alertam para gado ou veados tão comuns no sul do Chile, por aqui vemos sinais a avisar de iguanas e pequenos pumas

Mais um fim de semana prolongado mais uma voltinha! Já aqui comentei que num país onde por lei só dispomos de 15 dias úteis de férias por ano, os feriados que fazem fins de semana prolongados valem ouro.

Desta vez, por ocasião das Fiestas Patrias que se celebraram em Setembro decidimos dar um saltinho até à Colômbia. Saltinho é força de expressão, pois estamos a falar de mais de cinco horas de vôo, mais uma escala em Bogotá para chegarmos até Medellín. No contexto da América Latina, onde a dimensão dos países faz que com que alguns vôos domésticos sejam mais longos do que alguns vôos internacionais, quando Buenos Aires fica “mais perto” de Santiago do que Punta Arenas no Sul do Chile... perto e longe são conceitos muito relativos.

Há dois anos, por ocasião duma outra ponte, tínhamos dado “um saltinho” inaugural para visitar Bogotá e a ilha de San Andrés. Agora foi a vez de conhecer Medellín e o eje cafetero. Costumo brincar que havemos de percorrer a Colômbia de uma ponta à outra, um fim de semana prolongado de cada vez.

Temos lá bons amigos o que facilita a decisão, a definição dos roteiros e até mesmo dúvidas de segurança. Julgo não me enganar se disser que a maioria dos que estiverem a ler este artigo irão certamente associar Medellín ao narcotráfico, à figura de Pablo Escobar e à série televisiva Narcos, um lugar perigoso com senhores de bigode e camisa aos quadrados. Férias em Medellín?! Pois bem, Medellín reinventou-se. Os bigodes deram lugar aos man-buns e as camisas aos quadrados foram substituídas por estampados mais hipster. Nos bairros bons da cidade (nunca podemos esquecer-nos da linha divisória entre o chamado “bairro alto” e o “centro” em qualquer cidade da América Latina) passeamos por cafés gourmet e lojas de desenhadores locais. Vemos uma população muito jovem, muitos estrangeiros, digital nomads, muitos turistas também. Os paisas como se chama aos locais da província de Antioquia, de que Medellín é a capital, sentem-se verdadeiramente orgulhosos do renascimento da sua cidade. Ainda se podem ver as ruínas da época de Pablo Escobar, como o edifício Mónaco ou a chamada capela dos sicários, existem inclusivamente narco-tours pela cidade, mas os locais não gostam compreensivelmente de recordar essa época e tratamos de ser discretos ao visitar esses locais.

Fizemos uma incursão até ao centro, para visitar o Museo de Antioquia que tem uma boa coleção de obras do Botero, filho da terra, e talvez o artista plástico colombiano com maior projeção internacional. Chamem-me old school, mas eu acredito na importância de educar o olhar, e trato de expor os miúdos a uma ideia de educação clássica. Os museus que temos tido a oportunidade de visitar na América Latina têm o tamanho ideal para visitar com crianças pequenas.

Depois, temos o café. Não peçam um descafeinado por aqui que até parece falta de respeito. Eje cafetero é o nome que se dá à região produtora de café na Colômbia e que se pode visitar numa espécie de road trip entre Bogotá e Medellín. Como viajamos com crianças optamos por manter as distancias curtas. As estadas não são más, mas são estradas de montanha, em zig-zag e com um fluxo de camiões por vezes intenso que faz com que uma distancia “curta” em termos de Kms, se torne “longa” em termos de horas. A paisagem é luxuriante, de um verde intenso, muito diferente dos bosques e do deserto do Chile. Ao invés dos sinais de trânsito que alertam para gado ou veados tão comuns no sul do Chile, por aqui vemos sinais a avisar de iguanas e pequenos pumas. O nosso quartel de operações será Jardín.

Jardín é uma cidadezinha deliciosa no meio das montanhas verdes. A neblina ao final do dia dá-lhe um ar ligeiramente adormecido, não fosse pelo bulício que se vive nos cafés à volta da praça central. Por aqui ainda se vêm bigodes e camisas aos quadrados, senhores que vão ao café a cavalo para tomar a sua aguardente.

Viajar com crianças, aumenta a probabilidade de uma visita ao médico... uma febre em Buenos Aires, uma diarreia em San Andrés ou uma otite em Jardín. E assim foi como num Domingo de manhã, enquanto o resto do grupo partiu em 4x4 rumo a uma fazenda produtora de café, eu parti rumo ao consultório do médico de província que atende do bebé e o idoso, por ordem de chegada, é só sentar nas cadeirinhas à porta e esperar. Suponho que tive tratamento preferencial e hora marcada por terem ligado do hotel a pedir a consulta. Dali fui até à farmácia onde a senhora me perguntou muitas vezes se era mesmo para fazer o orçamento dos medicamentos e se eu os queria mesmo comprar. Trazia comigo o dinheiro para os ditos medicamentos? Achei a conversa meio surreal, a verdade é que a consulta e os medicamentos me tinham parecido muito baratos. Depois de comentar o incidente com os nossos amigos e de fazermos alguns cálculos, chegamos à conclusão de que o que eu tinha gasto naquela manhã equivalia a 10% do salário mínimo. Por vezes é fácil perder o pé à realidade, a nossa realidade de turistas citadinos e a realidade de um agricultor que viva naquelas montanhas.

No caminho de volta a Medellín fizemos um desvio até Santa Fé de Antioquia, antiga capital da província de Antioquia, uma cidade de traço marcadamente colonial. Aí pude comprar uns brincos de filigrana, técnica trazida pelos espanhóis durante o período colonial e cuja arte se misturou com a estética indígena das populações locais. Pude também ver a mesa onde Juan del Corral assinou a declaração de independência da província de Antioquia. Falámos das campanhas militares de Simón Bolívar que viria a falecer em Santa Marta na Colômbia, falámos de Santa Cruz de Mompox (pronuncia-se Mompós ou Mompóh), porto fluvial de grande importância de onde se enviava prata para Espanha e onde por essa razão se desenvolveu ainda mais o ofício de ourives e da filigrana. Mompox foi também uma das províncias do Reino da Nova Granada a declarar a independência. Simón Bolívar terá dito que a Caracas lhe devia a vida e a Mompox lhe devia a gloria. Emprestaram-me o livro “El General en su Laberinto” do García Márquez que, confesso, continua esquecido na mochila das fraldas mais de duas semanas depois das férias, mas o próximo destino na Colômbia, esse, já está na lista. Um fim de semana prolongada de cada vez...

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 2 meses e 10 dias aproximadamente...

Nas notícias por aqui: as celebrações do aniversário da vitória do “NO” no plebiscito que permitiu a transição para a democracia no Chile.

Sabia que por cá ainda é comum as famílias terem empregadas internas (de puertas adentro) e mesmo as construções mais recentes incluem um quarto de empregada ou de serviço na parte detrás da cozinha.

Um número surpreendente: Mais 24 milhões de USD é quanto custou ao Chile a defesa contra a demanda pelo acesso marítimo interposta pela Bolívia junto do Tribunal Internacional da Haya.

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.