Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Primos-irmãos e outras cenas de família

Nós lá fora

Mariana Palavra

LUANDA, ANGOLA - Relato de um sábado banal de Cacuaco, homem de família, ou de várias, com mais irmãos que as mães que passam em revista os principais temas da actualidade à volta de um bom pitéu e de uma Cuca bem gelada

Cacuaco, nos seus 40 e muitos, tem nome de um dos municípios da província Luanda, mas nem sabe como lhe calhou tal alcunha. Logo ele que nem vive para aqueles lados, mas sim na centralidade do Kilamba, urbanização de construção chinesa que fez moda em todas as províncias. O Kilamba bate todas as outras centralidades do país, com mais de 200,000 habitantes, a 30 km de Luanda e a uma ou duas horas de trânsito, conforme a hora da manhã.

Este sábado é dia de receber a família. Cacuaco combina lá para a uma ou duas da tarde, mas já todos sabem que isso é conversa à toa. Quem diz duas, diz cinco ou seis. De qualquer forma, o funge de peito alto, a galinha de cabidela, o peixe grelhado e o feijão com óleo de palma, ainda não estão preparados. As bebidas, essas, já desde manhã que arrefecem na arca e no cooler. Como o apartamento não chega para todos os irmãos, as mesas são colocadas no átrio daquele 11° andar, mesmo em frente aos dois elevadores, a roçar as portas dos vizinhos do A e do B.

Cada vez que a porta do elevador abre, aparece mais um irmão. E senta-se logo à mesa. “Este é o meu irmão número três. Aquele ali é o número sete”, apresenta orgulhoso Cacuaco. Mas afinal quantos são? “Uns 213”. E começa todo um debate entre a diferença entre irmãos, primos-irmãos e primos, e primos já homens feitos que ainda não conhecem alguns dos irmãos dos irmãos, perdão, primos. E a contagem das diferentes procriações de pais e tios. 213 até nem é muito. Se pensarmos que só o tio Zé teve 54 filhos. “Mas com quantas mulheres?”, pergunta a sogra de Cacuaco. Quatro mulheres. “Então, são poucos [filhos]”, remata. Daí para a frente a conversa só desacelera quando o garfo ou a Cuca Preta vão à boca.

Com os primos chegam também as respectivas. Ainda não se sentaram à mesa, já Cacuaco está a informar que se aquele irmão mais velho que acabou de chegar morrer cabe-lhe a ele, mais novo, ficar com a sua esposa. A tradição do “lundular” [em quimbundo, herdar bens, filhos, e esposa do irmão mais velho] serve de mote à mesa que começa a rever que irmãos ficam com que mulheres em caso de morte dos respectivos maridos, segundo uma (i)lógica de idades e de pertença.

“Não, já não temos isso aqui”, explica um primo aos visitantes de fora que estão de olhos semicerrados num misto de surpresa e indignação. “Mas em algumas províncias, sobretudo nas zonas rurais, ainda há muito. Tenho um primo que teve que ficar com a cunhada depois do irmão mais velho morrer. E ele que se cria livrar dela”, conta com pena da sina do primo. Quanto à parte delas, as viúvas, nem sinal de consideração.

Os primos ocupam grande parte da mesa do átrio. As esposas, irmãs, cunhadas, primas, estão ocupadas a servir-lhes o pitéu. Por vezes sentam-se, por outras vão para a cozinha conversar. Às vezes, ouvem Cacuaco e os primos a chamarem por mais uma Cuca fresquinha. E passam o serão a servi-los. No outro corredor do átrio, do lado das portas C e D, nas costas do elevador, já se assam uma asas de frango só para aconchegar.

Cacuaco, que até pôs a sua melhor camisola do Sporting, está indignado com a indumentária do primeiro ministro português aquando da chegada a Angola em visita oficial. “Não se admite”. Mas a mesa dos primos discorda. Acham que foi uma cilada do lado de cá. No final de 10 minutos, já estão todos a morrer de amores pelo Ti Celito (também conhecido por Marcelo Rebelo de Sousa) e a relembrar como lhe ficou bem a pouca roupa que usou quando foi a banhos na ilha de Luanda durante a visita do ano passado. “Mas ele é diferente”, diz Cacuaco, enquanto lembra como o presidente português recebeu uma chuva de assobios, que aqui é o mesmo que dizer aplausos, e como os pulas (portugueses) lá de Portugal não percebem nada de ovações.

Quase juraria que no rés-do-chão se ouve a conversa do 11°. A fazer lembrar os relatos de futebol quando a bola se aproxima da grande área, os primos recordam os quartos de final da Liga dos Campeões Africanos entre o 1° de Agosto de Luanda e o TP Mazembe da República Democrática do Congo, uma espécie de Barcelona de África, diz o único congolês da mesa e um dos poucos do átrio que não tem primos num raio de 5 mil Km. A eliminatória entre os dois clubes campeões nacionais terminou com a passagem da equipa de Luanda. Algo tão inesperado e, teme-se, irrepetível, que os primos deste país vão continuar a comentar e a celebrar para o resto da vida, como se não houvesse amanhã.

Parece haver unanimidade, e quase que juro uma descida de decibéis, quando a conversa passa para as prisões do momento em Angola. Há um misto de surpresa, esperança mas também desconfiança. “Será que desta é que é?”, Cacuaco lembra o início dos anos 90, quando o acordo de paz de Bicesse criou um igual alívio mas foi pelo cano abaixo, com a recaída no conflito civil.

Não sei em que altura, tal o entrelaçado de temas de conversa, mas a mulher do Mourinho também foi para aqui chamada, com considerações se é verdadeira angolana ou se o país foi apenas terra que a viu nascer.

E nisto de cenas familiares, Cacuaco, por ser mais velho, tem direito a convidar pelo menos 10 pessoas para o casamento do irmão mais novo. Ou será o primo? Seja como for, fui convidada para ir à boda daqui a uma semana de um dos 213 e já agora aproveito também para conhecer o noivo e a noiva…

Mariana Palavra

Mariana Palavra

LUANDA, ANGOLA - Mariana Palavra nasceu em 1978 junto ao mar, em Ovar. Cedo sonhou ser estrangeira. Migrou primeiro para Coimbra para estudar jornalismo. Depois de uma passagem tímida por algumas redacções em Portugal, aterrou em Macau em 2002 para trabalhar na televisão local. Do Oriente para as Caraíbas em 2009. Um ano na rádio da ONU no Haiti (e um terramoto) depois, trocou o jornalismo pelo trabalho humanitário Desde então já passou pelo Nepal (e por mais um terremoto), pelo Myanmar e vive agora em Angola.