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Rumo ao mar de Panónia

Nós lá fora

João Pita Costa

LJUBLJANA, ESLOVÉNIA - Nos mais de 10 anos em que estou a morar na Eslovénia, conheci muitas pessoas importantes de Prekmurje – a região eslovena que faz fronteira com a Hungria – e não tinha ainda visitado estas terras distantes na encruzilhada entre a Áustria, a Hungria e a Croácia. Então, nesta próxima viagem lançamo-nos à estrada em direção ao mar da Panónia

Castelo e jardim público mesmo no meio da capital da região, Murska Sobota, que alberga agora o museu da região e o centro de juventude. Mais um bom exemplo do aproveitamento do Património local a favor da Cultura e da Juventude
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Castelo e jardim público mesmo no meio da capital da região, Murska Sobota, que alberga agora o museu da região e o centro de juventude. Mais um bom exemplo do aproveitamento do Património local a favor da Cultura e da Juventude

Proteção especial para ver as abelhas na produção de mel local, no jardim do turismo de habitação onde ficamos. A produção caseira de mel é bastante comum por todo o país, e a consequente proteção das abelhas na Eslovénia é uma proridade levada bastante a sério.
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Proteção especial para ver as abelhas na produção de mel local, no jardim do turismo de habitação onde ficamos. A produção caseira de mel é bastante comum por todo o país, e a consequente proteção das abelhas na Eslovénia é uma proridade levada bastante a sério.

A culinária de Prekmurja tem a abóbora como um dos seus elementos fundamentais, presente numa grande diversidade de pratos, que se pode distinguir pela sua cor laranja bem pronunciada
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A culinária de Prekmurja tem a abóbora como um dos seus elementos fundamentais, presente numa grande diversidade de pratos, que se pode distinguir pela sua cor laranja bem pronunciada

A comunidade cigana local tem um papel importante na cultura da região, um pouco como acontece por toda a Hungria (a fronteira mais próxima), onde até ao nível da música de orquestra sinfónica de Budapeste a cultura cigana se evidencia
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A comunidade cigana local tem um papel importante na cultura da região, um pouco como acontece por toda a Hungria (a fronteira mais próxima), onde até ao nível da música de orquestra sinfónica de Budapeste a cultura cigana se evidencia

A presence do urso é transversal à Eslovénia que tem esta espécie em abundância e onde a sua carne até se serve em alguns restaurantes. Não era este o caso embora a pele do bicho decorasse a parede. Servia-se antes viado que é outro animal comum
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A presence do urso é transversal à Eslovénia que tem esta espécie em abundância e onde a sua carne até se serve em alguns restaurantes. Não era este o caso embora a pele do bicho decorasse a parede. Servia-se antes viado que é outro animal comum

Gibanica, uma sobremesa inventada por um padre esloveno em 1828 com várias camadas, derivado do tradicional strudel, e com um nome internacional muito curioso: over-Mura-mooving-cake (cuja tradução se parece com bolo-que-se-move-sobre-o-rio-Mura)
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Gibanica, uma sobremesa inventada por um padre esloveno em 1828 com várias camadas, derivado do tradicional strudel, e com um nome internacional muito curioso: over-Mura-mooving-cake (cuja tradução se parece com bolo-que-se-move-sobre-o-rio-Mura)

Foto de família em frente à mascote de um parque temático local (uma topeira gigante) focado nos vulcões e na viagem ao centro da Terra de Julio Verne. Os visitantes podem experimentar esta descida 3D através de um vulcão, sentados num veículo que parece tirado de uma das minas das redondezas
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Foto de família em frente à mascote de um parque temático local (uma topeira gigante) focado nos vulcões e na viagem ao centro da Terra de Julio Verne. Os visitantes podem experimentar esta descida 3D através de um vulcão, sentados num veículo que parece tirado de uma das minas das redondezas

O autor do artigo a tocar trompete, instrumento que adoptou ainda antes da sua primeira viagem às balcãs, que é tão importante na música tradicional de fanfarra. Este tipo de música – trubači – popularizada por Goran Bregovič nos filmes de Emir Kusturika, pode ser encontrada em várias bandas portuguesas como Kumpania Algazarra
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O autor do artigo a tocar trompete, instrumento que adoptou ainda antes da sua primeira viagem às balcãs, que é tão importante na música tradicional de fanfarra. Este tipo de música – trubači – popularizada por Goran Bregovič nos filmes de Emir Kusturika, pode ser encontrada em várias bandas portuguesas como Kumpania Algazarra

Se aceitarmos a ideia comum de que a forma geográfica da Eslovénia no mapa se parece com uma galinha, a região de Prekmurje é a cabeça. Fica a duas horas de automóvel, o que não é assim tanto tempo para quem, como eu, demorou muitas vezes esse tempo para atravessar a ponte 25 de Abril para Lisboa e encontrar estacionamento, mas é muito para um esloveno que está habitado a entrar noutro país após uma hora ao volante.

Quando deixamos a paisagem montanhosa de Maribor em direção a Murska Sobota, a capital regional de Prekmurje, apercebemo-nos da vasta planície que temos pela frente que nos faz lembrar o mar. Esta zona da Europa central é às vezes é chamada de mar de Panónia porque pertence a uma área onde realmente existia um mar (há cerca de 10 milhões de anos) que incluía a parte norte da Croácia, Sérvia, Roménia, e a maior parte da Hungria. A paisagem plana até onde a vista poder alcançar, o céu aberto ao seu redor, onde até a passagem do tempo parece diferente.

O famoso moinho de rio da região bastante bem preservado, que ainda mói a farinha com a ajuda do rio Mura. É um ponto de paragem clássico do turismo local, onde se pode ver o funcionamento dos seus mecanismos e comprar o produto final: a farinha de uma diversidade de cereais

A outrora República de Prekmurje era um estado não reconhecido, uma área tradicionalmente conhecida em húngaro como Vendvidék, que durou de 29 de maio a 6 de junho de 1919). Talvez esses 7 dias de estado independente tenham sido suficientes para deixar nas pessoas que originam desta região o sentimento de desalinhamento. Ou talvez seja o facto de que o esloveno falado nesta parte do país ser um desafio para a maioria das pessoas que não nasceram e cresceram por aqui. Ou talvez o facto de que viver entre essas culturas tão diferentes (eslovena, croata, húngara e austríaca) faz com que uma pessoa seja estranha a todas elas. Isso continua a ser entendido, mas certamente não é uma pergunta fácil de responder.

A culinária tradicional por cá inclui a tão eslovena sopa de cogumelos lado a lado ao langus húngaro. É inevitável a comparação com a cozinha húngara vizinha, especialmente quando o prato principal - o bograč - se assemelha tanto aos golaš bem conhecido como húngaro. Sou um defensor da ideia de que o golaš (uma variação de guisado de carne que se cozinha por várias horas) não é húngaro, mas sim desta região da Europa. No entanto, é uma adaptação, tanto quanto bograč não é golaš, e vamos parar aqui para não ofender ninguém.

A paisagem plana da região de Prekmurja, muito pouco comum na Eslovénia, que aqui se expressa de foma serena e vasta. Diz-se que foi outrora parte do que por cá chamam de mar de Panónia, que outrora foi mar ligado ao Mediterrâneo

Então, apressamo-os para chegar ao famoso Miln na Mure (um famoso e antigo moinho de rio) antes que feche, para adquirir a farinha que lá é feita de maneira tão tradicional ao longo de gerações, e ver os processos e as máquinas que o fazem correr desde outros tempos. Agora estamos prontos para tomar um café na calma cidade de Murska Sobota, que parece ter sido tirada de um dos filmes de Lars Von Trier. Em posição central, o parque da cidade com um pequeno lago e o museu da cidade que é mais como um castelo monumental

Passamos a noite no turismo rural de Čebelj Gradič (qualquer coisa como “o castelo das abelhas”). Este alojamento é uma antiga quinta com a tradição da produção de mel. Quando chegamos temos uma recepção calorosa pelo proprietário deste negócio familiar de pelo menos 3 gerações, e outros convidados estavam já a nossa espera para visitar a casa das abelhas. A abelha é um animal muito importante na Eslovénia, sofrendo recentemente várias ameaças (especialmente devido ao uso de pesticidas na agricultura), pelas quais todos somos responsáveis. Esforços como esse permitem a consciencialização para o ambiente, para a rotinas das abelhas, etc.

Aqui podemos comprar vários tipos de mel, ou o tão desejado óleo de abóbora. Este ouro verde, o óleo de semente de abóbora, é proeminente em Prekmurje, tem Denominação de Origem Protegida da UE. Outro símbolo gastronómico da região é a conhecida gibanica, também conhecida com o curioso nome internacional “over-Mura-mooving-cake” (cuja tradução se parece com bolo-que-se-move-sobre-o-rio-Mura). Esta parece-me realmente uma ótima ideia de marketing para chamar a atenção para este bolo. Quando cheguei à Eslovénia e ouvi falar dele, andei muito tempo à procura desta mística iguaria culinária, apenas para descobrir que afinal é apenas um bolo de camadas sem nada por aí além. Mas um bolo com muita tradição e internacionalmente protegido, quase como um pedaço da identidade desta quase-república. Contém sementes de papoila, nozes, maçãs, passas, etc, mostrando a variedade da agricultura nesta região.

E agora um conselho para todas as famílias com crianças: Vulkanija. Pergunto-me quantos eslovenos já sabiam que há um vulcão adormecido na região. Começamos a descer as colinas imaginando ir na direção da sua cratera mas... estávamos errados. O velho vulcão é plano. O parque de diversões construído em torno dele é recente e muito bem feito, muito pedagógico e interativo e com diversas atividades apoiadas por projeções de vídeo e guias locais. Faz lembrar a viagem ao centro da terra, do romance de Júlio Verne, terminando numa viagem de comboio que parece ser trazido de uma antiga mina local. Não posso dizer mais nada para não estragar nenhuma surpresa.

E, pouco antes de partir, finalmente, vemos cegonhas que tantas pessoas nos disseram serem fáceis de encontrar por cá. Em cima de um daqueles antigos postes de luz, majestosamente em pé no seu ninho, lá estão elas quase como se estivessemos a passar por Alcácer do Sal. Olhando para os vastos campos além da vista, é inevitável cair na nostalgia, sentindo novamente o gosto da viagem que uma vez me trouxe à Eslovénia há tantos anos. Estou feliz porque o fez, é fantástico estar cá.

João Pita Costa

João Pita Costa

LJUBLJANA, ESLOVÉNIA - Doutorado em Matemática e editor da revista bilingue luso-eslovena Sardinha (www.sardinha.tv). Vive na capital eslovena desde 2007 e há vários anos que organiza eventos para promoção da língua e cultura Portuguesa. Chegou a Ljubljana há 10 anos para estudar e explorar os surpreendentes pontos de encontro entre as duas culturas. Trabalha em tecnologia, mas já esteve à frente da galeria de arte Tukadmunga, de um popular duo de música eletrónica, e ao mesmo tempo é marido e pai de um luso-esloveno que representa uma nova identidade na nossa Diáspora.