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Anita em Moçambique

Nós lá fora

Mariana Palavra

BEIRA, MOÇAMBIQUE - Maria e Manuel perderam-se de amores sob o calor da cidade da Beira, Moçambique. Uma piadinha do destino, já que não era preciso terem viajado para tão longe. Ambos tinham nascido a uns 700 metros de distância, na mesma vila à beira do mar: Ovar.

Anita cresceu a ouvir a mesma ladainha saudosa do céu escaldante e húmido e do sol a explodir de cores no fim de cada dia. Das lagostas maiores do que o bacalhau salgado inteiro da loja do Sr. Camarão (de marisco, a mercearia do início do século XX na praça da República de Ovar, só tinha mesmo o nome); dos finais de tarde no cinema sempre a rodar filmes indianos de Bollywood que não impediam Maria de cair no sono; das brincadeiras dos miúdos no quintal com pé descalço. Anita não se cansava, e sempre quis saber mais. Gostava de se poder lembrar desses cheiros a terra molhada, do sabor a caril dos pitéus no Oceana, do piripíri que queimava a língua e ia ardendo goela abaixo. Mas saiu de lá bem pequenina, de idade e de tamanho (o raquitismo quase que lhe pegou), sem memórias para contar.

Maria aterrou na Beira para visitar a prima em 1969. Nessas férias, para além de Manuel, houve outros momentos inesquecíveis a registar. Gorongosa foi um deles. Anita lembra-se de a ouvir contar vezes sem conta do elefante que, furioso, abanou freneticamente as orelhas, em posição de ataque, mesmo rente ao carro em que Maria se encolhia. Dos hipopótamos mansinhos ao longo do passeio no rio, do terror que viveu durante a noite quando quis ir à casa de banho exterior e achou que ia ser comida por um leão (medos que só se refinaram com a idade).

Senhor Jorge é um dos funcionários do Parque Gorongosa. É da Beira e reza todos os dias para que a guerra nunca mais volte. “Foi muito triste mesmo. Não queremos mais guerra”. “Nunca mais”, exclamaram os dois em uníssono como se de coro afinado se tratasse.

Anos de guerra civil, minas e a caça furtiva podiam ter acabado de vez com a Gorongosa, que anos antes, na década de 60, tinha ganho o título de um dos melhores parques de animais selvagens do continente africano. No pós-guerra, um enorme esforço de reabilitação, citado como exemplo e modelo a seguir, reverteu o que parecia ser um fim. Hoje, o Parque Gorongosa de 4000 km2 é de novo uma das atracções de Moçambique, onde, com sorte e na altura certa do ano, podem ser vistas num só dia mais de 150 diferentes espécies de aves. Entre 50 a 70 leões, 440 hipopótamos ou 600 elefantes parecem números magros, mas são uma vitória depois da quase extinção. Entretanto, o primeiro leopardo ao vivo e a cores foi visto no parque há menos de duas semanas. Há 14 anos que ninguém lhe punha a vista em cima. A Gorongosa está de volta para ficar.

A ida para o fim da pista do aeroporto da Beira, para ver os aviões grandes a aterrarem, era uma das diversões de fim-de-semana de Maria e Manuel. “Vivi cá apenas seis anos, entre 71 e 77, mas foram anos muito bons. Depois tive que ir-me embora por causa dos filhos que estavam lá”, contou Maria de forma airosa e sem lamentos ao senhor António, motorista. Omitiu o facto dos filhos- Anita e os dois irmãos- terem sido levados para “lá” devido à incerteza quanto ao futuro num país finalmente independente e às dúvidas do Manuel conseguir manter-se na terra onde tinha vivido 30 anos da vida. Omitiu, com a tranquilidade de quem sempre acreditou (e ensinou) que a independência de um povo e o direito à autodeterminação é um bem muito maior do que o destino de uma (ou muitas) família(s).

Na Beira, na praça do município, ainda está lá quase tudo para recontar as histórias: o Café Riviera, para onde Maria conseguiu arrastar uma prima que não queria ser vista ali em público; o centro da praça, agora com uma fonte, onde antes o filho mais velho corria à solta sem parar; os correios de onde o Manuel enviou muitas cartas para Ovar, a casa do Tio Cascais, no último andar de uma das esquinas, personagem excêntrica que inspirava rumores de mentes pequenas.

O passeio pela Beira, por entre estradas e passeios esburacados, vai desenterrando outras boas memórias: a catedral onde a futura (melhor) madrinha foi baptizada, ainda elegante e bem caiada, em frente ao antigo Automóvel Clube de Portugal, onde por vezes as festas incomodavam os santos; os serviços municipais de electricidade onde o Manuel trabalhava, agora em tons de laranja e branco, com edifícios de cara lavada um pouco por toda a cidade. As ruas estão degradadas e muitos edifícios a precisar de reparos, mas a Beira continua linda, pensa a Anita que saiu de lá sem se lembrar.

A longa marginal percorre o já não tão largo areal e os metros e metros de água pelo joelho até chegar-se ao mar sem fundo. O farol de Macúti de 1904 pintado de vermelho e branco frescos empresta vista privilegiada sobre a cidade. Enquanto Maria sobe os 101 degraus, Osmani, vigilante, fala dos pais nascidos na Tanzânia, país que só conhece de postal, do farol automático, de um resort de chineses a uns quilómetros dali e dos defuntos hotéis Estoril e Dom Carlos, cujas carcaças estão abandonadas logo aí na entrada da praia. “Não há vista como esta”, afirma com orgulho do topo do farol o dono daquele pedaço de céu. “Tenham cuidado, anda por aí muita gente maldosa, só confiem nas pessoas boas”, diz Osmani às três irmãs, enquanto refere emocionado que nasceu no mesmo ano em que Maria pisou a Beira pela primeira vez.

“Mãe, lembra-se do Oceana?”, ia perguntando à Maria o senhor Massada, taxista nas horas vagas. “Esteve fechado durante alguns anos, mas os chineses fizeram obras e agora está a dar outra vez”. O local, multifuncional (bar-restaurante-disco), é um dos que poisa na areia e que já batia nos anos 70. “Mãe, lembra-se disto e daquilo?” “E o hospital? Sabe como se chamava naquela altura?”, insistia. “Ai, Massada, não passei lá muito tempo para saber o nome, o hospital da Beira era o hospital da Beira, eu só lá fui ter três filhos.” Certo, mãe.

A estação de caminhos-de-ferro de 1966, marca do modernismo, e o Grande Hotel, inspirado na art déco, ambos dignos do roteiro arquitectónico da Beira, tiveram destinos distintos. A primeira, foi ponto de ligação entre o interior de África, sem acesso ao mar, e o porto da Beira. Hoje, a estação perdeu esse papel (mas não a graça), mas ainda é ponto de partida e destino de vários comboios. O segundo, inaugurado em 1955 com o rótulo de maior e mais luxuoso hotel de África, esteve aberto menos de uma década. Serviu depois de base militar durante a guerra civil e a cave foi transformada em prisão. Actualmente, milhares de pessoas vivem (mal) no que resta do Grande Hotel.

A casa onde Maria e Manuel viveram (e onde Anita e os irmãos nasceram) ainda tem um enorme azulejo com um moliceiro pintado ao centro e uma bateira no canto direito. O painel, com elementos típicos da Ria de Aveiro, foi colocado pelo primo do Manuel que, depois de enviuvar em tenra idade, transformou a casa numa república de vareiros, aka, ovarenses.

No Clube Náutico, a surpresa de dar de caras e conhecer Mia Couto, a comemorar 35 anos de carreira na terra onde nasceu e cresceu. Precisamente um dos autores preferidos de Maria e das duas irmãs, todas Marias.

Os quase quatro Km de ponte de um só sentido marcam a entrada, literalmente sem retorno, na Ilha de Moçambique. É mais comprida a ponte do que a própria ilha, na qual, nos três Km de comprimento e 500 metros de largura, é impossível perder o palácio e as várias igrejas e capelas, agora quase todas de porta fechada. A Ilha, ocupada a norte pelo forte de São Sebastião, o mais antigo forte ainda firme e hirto na África Subsariana, é maioritariamente muçulmana, como não deixam duvidar os chamamentos para as orações que ecoam cinco vezes ao dia das várias mesquitas, entre elas a primeira construída no país, ainda em funcionamento. Há também um templo hindu renovado; caril de camarão, caranguejo com leite de coco ou matapa de siri siri (trocado por miúdos: algas, cebola, alho, leite de coco e caju); o mercado das segundas e quintas com cores vivas de especiarias, frutas e cataplanas; pescadores a reparar redes ou a sair para o mar e crianças a brincar por toda a parte. O pontão ao pôr-do-sol, as ilhas das Cobras, de Goa ou Sete Paus e um mar que ondula entre o azul-e-verde-tão-claros-que-cegam são de morrer e chorar por mais.

Toda esta miscelânea de amores reflecte o carácter especial da Ilha, não só a primeira capital de Moçambique até 1898, mas também um eixo de comércio do oceano Índico, com ligações tão longínquas como Goa e Macau. Para além da posição estratégica e económica, a Ilha foi outras mil e uma coisas, inclusive centro de missionários, com várias ordens religiosas católicas a estabelecerem-se no pedaço de terra e a misturarem-se com a população muçulmana e a comunidade hindu, num mix étnico e cultural que ainda hoje é marca. Mas a Ilha ficou também vergonhosamente marcada como um porto de tráfico de escravos.

Ainda não foi nesta viagem de mar azul que Anita convenceu Maria e as irmãs a aventurarem-se pelo snorkeling. “Tubos pela boca? Nem no hospital!”. Mas tentámos.

A Anita é a minha irmã. Mas estas palavras são também minhas, dos nossos dois irmãos e das duas irmãs Marias da Maria. O Manuel, o nosso pai, não viveu para voltar, mas a Maria (Estela), a nossa mãe, regressou a Moçambique 40 anos depois de ter partido. E gostou muito do que viu. Nós também.

Mariana Palavra

Mariana Palavra

LUANDA, ANGOLA - Mariana Palavra nasceu em 1978 junto ao mar, em Ovar. Cedo sonhou ser estrangeira. Migrou primeiro para Coimbra para estudar jornalismo. Depois de uma passagem tímida por algumas redacções em Portugal, aterrou em Macau em 2002 para trabalhar na televisão local. Do Oriente para as Caraíbas em 2009. Um ano na rádio da ONU no Haiti (e um terramoto) depois, trocou o jornalismo pelo trabalho humanitário Desde então já passou pelo Nepal (e por mais um terremoto), pelo Myanmar e vive agora em Angola.