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O charme de ter vida à frente

Nós lá fora

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA - A dada altura aparece na linha um bacalhau do tamanho de um cão, com uns doze quilos. O pescador sorri abertamente, corta-lhe as goelas e cai-lhe aos pés um jorro de encarnado absoluto – até na morte a vida é mais bonita

Um dos charmes de acordar é ter vida à frente. Luvas, barrete, sweat e calções e vou correr com o meu cão. A rua está gelada e não é possível ter passo de corrida mas sim passos, variados, quase dançados, a negociar os pontos em que passo de corrida a patinagem. As travagens são como que se feitas num barco, têm de ser programadas ou acabo no chão. Quando acabo no chão o meu cão preocupa-se e lambe-me a cara. Os calções são porque sou português, e um português é temeroso perante as adversidades meteorológicas. É a minha forma de dizer que a idiosincrasia está no frio – e não em mim. Estão -7.

É meio-dia. Estou sentado, de viola ao colo, a olhar para uma norueguesa alegre e diminuta. Estamos a ensaiar fado para um concerto no primeiro de Março. O fado é porque ela é norueguesa, e as norueguesas são temerosas perante as dificuldades. Escolheu Amália. A organizadora do evento pediu-me uma foto “em tons de vermelho e amarelo, porque são as cores da bandeira portuguesa”. São as cores da bandeira espanhola. A minha cantora tem uma voz cerca de três vezes e meia maior que ela, e começo a vislumbrar Amália. A viola punge - é uma viola de jazz, mais confortável noutras culturas menos sentidas. Os dedos aceleram a 60 fps, mas não sei se Jorge Fontes aprovaria o resultado. A minha cantora está a vibrar visivelmente, mas não sei se José Régio aprovaria o sotaque. Decido que o melhor é pedir à minha mulher que reescreva o poema foneticamente e ela que o estude para o próximo ensaio. Não conheci Amália, imagino que nesta fase estaria um bocadinho doente.

São três e meia. Estou num barco tradicional de pesca ao bacalhau, a caminho do ponto onde a boca do fjord engole o oceano. Vamos levantar uma “long-line” e salto para dentro de água com uma máquina fotográfica para documentar – o mais graficamente possível – a pesca ao bacalhau. Está um vento agreste com rajadas de rudeza, vesti o fato-seco de mergulho sobre as (ainda) roupas do ensaio. Estou só eu e o pescador, mas está também muito céu e muito mar. A maré e o vento, em conluio, enviam-me expeditamente na direção de Nova Iorque; dou à barbatana com fúria e sem parar. À medida que a linha é recolhida vão aparecendo os anzóis cheios. Alguns bacalhaus só têm a espinha, alguns ossos da cabeça, ripinhas de pele. Grito para dentro do barco a perguntar ao pescador o que é aquilo e ele diz-me que “são tubarões pequenos”. Hmm. Como tenho partes anatómicas pequenas às quais estou muito apegado, encolho-me fetalmente dentro de água. As fotos estão a sair fantásticas, o momento está lá e o tempo não podia estar melhor para demonstração do Grande Norte. A dada altura aparece na linha um bacalhau do tamanho de um cão, com uns doze quilos. O pescador sorri abertamente, corta-lhe as goelas e cai-lhe aos pés um jorro de encarnado absoluto – até na morte a vida é mais bonita. Os peixes que pescarmos hoje não são para cozinhar, vão para o laboratório de uma bióloga com mestrado em substâncias do plástico na carne do bacalhau. Estou eu na água a ponderar sobre isto, passa-me um saco de plástico quase transparente - uma pseudo-medusa de forma alongada - por perto dos pés. Perdoai-lhes Senhor, que não sabem o que andam a fazer ao mar com a merda dos plásticos. Com a merda dos plásticos.

Quando voltamos ao porto, somos ajudados por um norueguês sorridente, a quem falta uma mão.

Já é noite outra vez; que diria José Régio a Amália?

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal : 17

Nas notícias por aqui: A Noruega vai obrigar todos os campos de futebol (que aqui são quase todos de relva artificial, por razões óbvias) a ter sistemas de recolha e controlo das bolinhas de plástico aborrachado que são utilizadas para dar à relva características semelhantes à da relva natural – para evitar que acabem no mar, na barriga dos peixinhos. (Fonte)

Um facto curioso: A Noruega vive os jogos Olímpicos de Inverno da mesma maneira que nós vivemos os de Verão, e o ski da mesma maneira que nós vivemos o futebol. Com apenas 5 milhões de habitantes, já conseguiu mais medalhas que todos os outros (17) e só a Alemanha (quase 83 milhões de habitantes) tem mais ouro. (Fonte)

Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.