Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

“Hiroshima, pela paz no mundo”

27 de janeiro de 2018. O termómetro marca -2º C e está um frio de rachar. Depois de 6 horas de estrada, umas quantas por entre uma tempestade de neve, chegamos a Hiroshima, a cidade da Paz. Tóquio, Quioto, Osaka, Kobe, Nara, são todas cidades encantadoras que já tive o privilégio de visitar mais do que uma vez e que merecem destaque mas Hiroshima… Hiroshima é especial. É a primeira cidade japonesa que me faz sentir o dever de a glorificar. Foi a primeira cidade do mundo a sofrer um ataque nuclear, a 6 de agosto de 1945.

De Nagoya a Hiroshima são cerca de 500 km. As auto-estradas são boas, seguras e estão repletas de avisos de trânsito, condições climáticas ou obras. A área florestal é imensa, cheia de caminhos de emergência facilmente avistáveis, e as árvores parecem crescer já a saber que a ordem e o rigor do território que habitam não deixam margem para galhos tortos.
Os túneis que atravessam montanhas são inúmeros e longos, e são muitas montanhas.

Como em todas as entradas das cidades japonesas que conheço, há uma avenida principal só com postos de gasolina, restaurantes, konbinis e outros serviços. Essa avenida, igual a tantas outras, leva-nos facilmente onde queremos, ao Parque Memorial da Paz.

Já anoiteceu e caminhamos junto ao rio Motoyasu em direção ao jardim. Numa das estradas principais passam por nós elétricos, elétricos antigos e outros de tecnologia de ponta, elétricos à portuguesa! Paramos no Museu Memorial da Paz de Hiroshima (então fechado) que exibe um relógio com a hora atual, com uma marca da hora a que caiu a bomba em Hiroshima (8h15), e com um contador dos dias que já passaram desde que caiu a primeira bomba atómica do mundo (26 472 dias) e dos dias que passaram desde o último teste nuclear (146 dias). Gelei.

Mais à frente, bem no centro do parque, encontra-se o Cenotáfio. Inaugurado a 6 de agosto de 1952 tem inscrito o nome de todas as vítimas da bomba e representa um abrigo, em forma de arco, para as suas almas. Está alinhado com a Lagoa da Paz e com a Chama da Paz, que foi acesa no dia 1 de agosto de 1964 e apenas será apagada quando todas as armas nucleares desaparecerem do planeta. A base da chama simboliza duas mãos unidas pelos pulsos, viradas para o céu.

Na mesma enfiada, no fundo do jardim, vemos um dos poucos edifícios cuja fachada não derreteu, o Hiroshima Dome (antigo Pavilhão Industrial da cidade), situado a 150 m do hipocentro (onde a bomba rebentou a 600 m do solo), passou a ser conhecido por Genbaku Dome e foi considerado Património Mundial da UNESCO em 1996.

Nessa noite, debaixo de um céu salpicado por estrelas e nuvens, percorremos todo o Parque Memorial numa introspecção e tranquilidade tal que quase nos esquecemos que o sangue deixou de circular nas pontas dos dedos das mãos e dos pés.

Continuámos a caminhar à procura de um sítio para jantar e conhecemos uma cidade bonita, voltada para o rio, com esplanadas, muitos restaurantes e botecos modernos cheios de pinta. Acabámos por encontrar um que nos encheu as medidas e saímos de lá com todas as pessoas das mesas à volta a quererem tocar nas bochechas da nossa filha, desdobrados em sorrisos, acenos e palavras inglesas. Lojas abertas até tarde, muita gente jovem e um sábado à noite a marcar lugar na história da nossa existência.


No dia seguinte de manhã fomos visitar o Museu Memorial da Paz, cuja entrada custa 200 ienes por pessoa (aproximadamente €1,50).

O museu existe para mostrar ao mundo os horrores e a natureza desumana das armas nucleares, para difundir a mensagem “No more Hiroshimas”.

Lá, pudemos conhecer a cidade antes do ataque – uma cidade militar que em 1871 se tornou uma das mais importantes bases do Exército Japonês e uma cidade pioneira na educação com inúmeras escolas privadas e universidades – até ao dia em que tudo mudou.
A 6 de agosto de 1945, às 8h15 de uma segunda-feira, os Estados Unidos lançaram sobre Hiroshima a primeira bomba atómica denominada Little Boy, contra alvos civis. Morreram cerca de 140 mil pessoas e outras tantas sobreviveram com danos físicos e psicológicos irreparáveis.

Alguns sobreviventes tiveram a coragem de relatar o pesadelo que viveram para ficar documentado. Entre outros testemunhos recordo o de uma senhora, na altura com 22 anos, a contar que depois da explosão viu tudo pintado apenas a 3 cores: vermelho, castanho e preto… bem longe de qualquer poesia artística.


Ainda no museu, num mostrador de vidro, podem ver-se vários tsurus muito pequeninos feitos com papéis do Hospital da Cruz Vermelha por uma menina chamada Sadako. Foi-lhe diagnosticada leucemia 10 anos após ter sido exposta à radiação nuclear. Sadako acreditava que se conseguisse fazer 1000 tsurus (origamis em forma de grous) o seu desejo de ficar curada ser-lhe-ia concedido. Morreu em 1956. Tinha 12 anos.

Como forma de homenagem, os amigos da menina iniciaram um movimento de angariação de fundos para a construção do Monumento das Crianças pela Paz, também no Parque Memorial da Paz. Inaugurada em 1958, podemos encontrar no Parque o monumento com a estátua de bronze de uma menina a segurar um tsuru gigante, também conhecido pela Torre de Mil Grous, que representa o sonho de paz para o futuro. À volta, em cabines de vidro, vemos armazenados milhares de tsurus e cartas que continuam a chegar de todo o mundo.

Continuando o passeio pela cidade, agora à luz do dia e debaixo de uma chuva miudinha, passamos pelo edifício da cúpula e paramos para o fotografar. Somos abordados por um ciclista japonês dos seus 70 anos que nos pergunta, de forma curiosa mas discreta, de onde somos e o que fazemos ali. Acabamos por ser surpreendidos por um inglês quase perfeito e um conhecimento de Portugal e da influência dos portugueses na cultura japonesa que nos embeveceu. Para além das palavras “pão” (pan) e “obrigado” (arigatou), ficámos a saber que “capa” e “ombro” são também utilizadas na língua japonesa. Estivemos à conversa durante uns 20 minutos e em nenhum deles se fez alusão ao desastre nuclear.
Elogiámos a leveza e jovialidade da cidade e o quanto nos sentíamos bem ali e despedimo-nos com uma fotografia juntos, uma vénia e um até sempre.

À semelhança de tantas outras cidades históricas, Hiroshima é uma cidade turística com viajantes de todas as nacionalidades, e é também uma cidade que vive do turismo. Como tal, o impacto dos acontecimentos históricos que levam as pessoas a visitá-la passa facilmente do efeito pele-de-galinha para a curiosidade mórbida. Por uns singelos 2000 ienes podemos visitar o edifício que tem uma vista panorâmica do Parque, do Genbaku Dome e até do local onde explodiu a bomba. Tudo mostrado com um sorriso ligeiro, um workshop de origami e toma lá uma enxurrada de souvenirs para dizeres que aqui estiveste.
Nós? Não, não fomos ver a vista, só as compotas de limão e as ostras de Hiroshima.

Já diz o nosso ditado, “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, mas a vida é isto mesmo, vai do excepcional ao banal.

Ainda em terra, continuámos a caminhar até ao Castelo de Hiroshima, conhecido como o Castelo das Carpas. Diferente de todos os que conheço, a sua construção é quase toda em madeira. Também ele ficou destruído mas foi reconstruído na sua totalidade em 1989. Dentro das muralhas sobressai o templo Hiroshima Gokoku Jinja, local de rituais religiosos, orações e bençãos. Assistimos à benção de um carro novo de uma família de 5 (pai, mãe e 3 filhos), a média japonesa.

Comemos um delicioso okonomiyaki ao estilo de Hiroshima (com topping de ostras), caminhámos um pouco mais com pequenas almofadas aquecedoras de bolsos (uma das melhores invenções japonesas que conheço), e despedimo-nos desta cidade com uns quilos a mais de conhecimento, de puro ouro!


Vivo num país onde reina a paz. Os japoneses são bondosos e em quase todos os lugares nos sentimos seguros, sem medo, sem nos sentirmos ameaçados mas ali, naquele jardim criado pelo Homem, no meio de uma cidade revitalizada, moderna e cheia de vida, senti que até aos mais ressabiados e dementes podem nascer asas. Senti que naquele lugar não só se homenageiam as vítimas como perdura uma incomensurável lição de vida. Não há tensão, agonia nem revolta. Senti que as armas mais poderosas do mundo são as palavras e o desejo contínuo de aprendermos com os erros, de nos superarmos, de nunca perdermos a esperança de que é possível renascer das cinzas. Depois de ali passarmos podemos e devemos ser todos Embaixadores da Paz.

Mais informações:

http://visithiroshima.net
http://www.city.hiroshima.lg.jp/portugues/

http://hpmmuseum.jp/?lang=eng

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal... 270

Sabia que por cá… as autoridades de Hiroshima pediram à Niantic, parceira da Nintendo e da Pokémon Company na criação do jogo, que fossem retirados do Parque da Paz todos os "pokestops" e criaturas do jogo Pokémon Go, considerados inadequados para o lugar. Cerca de 30 localizações do parque apareciam destacadas no jogo.

Um número surpreendente: Existem mais de 300 sabores diferentes de KitKat no Japão, edições sazonais limitadas. Dos sabores mais recentes destaca-se o de pudim que pode ir ao forno a tostar. https://nestle.jp/brand/kit/

Catarina Oliveira da Costa

Catarina Oliveira da Costa

NAGOYA, JAPÃO Tem 34 anos e vive em Nagoya, no Japão, desde 2014. É designer gráfica e ilustradora freelancer. Começou a trabalhar numa agência de comunicação como designer e mais tarde entrou no mundo editorial, onde trabalhou como designer em várias publicações infantis e femininas. A Cosmopolitan e a Activa são as duas últimas equipas do coração. Casada, é mãe de uma menina com um ano. É apaixonada por desporto, moda, decoração e culinária.