Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Gosto tanto de grão-de-bico, mãe-grande!

Nós lá fora

Mariana Palavra

NAGOYA, JAPÃO - As histórias perdidas dos rapazes da minha rua que, na verdade, são uns rapazões que lavam carros, controlam estacionamentos, engraxam sapatos, fazem quase tudo para ganhar uns trocos e sobreviver na marginal de Luanda.

Quando estacionei pela primeira vez na marginal, fui literalmente rodeada pelos vizinhos da banda. Cerca de vinte rapazes atropelavam-se nas palavras e nos gestos para pedir uns trocos, enquanto ofereciam lavagem de carro ao melhor preço. Admito que na hora de escolher o futuro provedor semanal de lavagens de automóvel, influenciou o nível de olhos vidrados dos interlocutores, o comprimento das frases terminadas e a forma como se entrelaçavam. Passei a ser a madrinha do Celestino, rapaz de poucas e sóbrias palavras, que uma vez por semana, a troco de 1000 kwanzas (oficialmente quatro euros mas menos de dois euros no câmbio de rua), lavava o carro com água tirada às escondidas de torneiras do quarteirão.

O Celestino é de facto especial. Não se perdeu nas ruas e nos vícios e finalmente conseguiu trabalho com papel passado num dos prédios da marginal. Todos os dias, passa pelo estacionamento para cumprimentar os ex-companheiros e segue, sem atrasos, ajeitando o casaco e a mini gravata emprestados por algum primo, para o nobre emprego de manutenção do número 86. Para orgulho dos rapazes, e meu.

Hamilton. Foi o meu segundo escolhido. Educado, não deixa os outros aproximarem-se quando, ao final do dia, já estão todos perdidos no álcool marado e nas coisas que snifam e fumam, “Madrinha, eu nunca me meto nessas drogas. A sério. Só às sextas e aos sábados.” Certo.

O Cabeção (o nome faz jus ao corpo), está sempre na área. Às 7 e 15 da manhã, quando me sento ao volante para arrancar, aproxima-se para desempenhar com brio o seu papel de sinaleiro de marcha à ré (mesmo que a essa hora o estacionamento ainda está a um terço de gás). Às 7 e 30 da noite, quando regresso, corre ao meu encontro para perguntar como foi o dia do trabalho. Nunca se queixava nem pedia nada. Até ao dia em que lhe dei uma lata de grão-de-bico. Mal nos voltámos a ver, correu com toda a força ao meu encontro, como se estivesse a bater o recorde da marginal. “Mãe-grande! Gosto tanto de grão-de-bico!!!”, gritou, enquanto abria aquele sorriso de orelha a orelha. Também eu, pensei, mas dá-me cabo dos intestinos.

A partir desse momento, eu e o Cabeção estabelecemos um acordo sem palavras: quando trago lanche para os rapazes da rua ele não se precipita, ajuda a evitar desavenças e a garantir que ninguém é excluído. Depois, sai de cena e vem para junto do meu carro, onde lhe passo às escondidas a mercadoria: uma lata de grão-de-bico. Está viciado. E eu com inveja por me cair tão mal.

O Cabeção apareceu um dia com um olho inchado, a ocupar metade da cara. Perguntei-lhe e respondeu que tinha acordado assim. Fingi acreditar. Deve ter sido o mesmo sono que provocou um queixo partido e o lábio inferior cinco vezes maior ao Anjo Negro, um dos poucos rapazes que vive literalmente na marginal. Dorme todos os dias no chão, por baixo das arcadas da avenida.

Como o olho do Cabeção nunca mais ia ao sítio, pedi-lhe que me acompanhasse à farmácia. Ficou nervoso e arrastou os passos quando nos aproximámos do segurança armado à porta. Desenrolou as calças de fato de treino, ajeitou os dedos dos pés nas chinelas moda de mulher e tirou o boné ao entrar. Ficou atrás de mim, de cabeça para baixo, enquanto eu explicava o caso ao farmacêutico. Cabeção foi obrigado a levantar a cabeça para mostrar o estrago. O farmacêutico quis saber donde tinha nascido tamanho papo. Confessou: “brigámos na rua, eu entrei para separar e deu nisto.” E baixou a cabeça. Anti-inflamatório foi o veredicto, três vezes ao dia. Paguei, virei-me para trás e vi uma lágrima a cair da cara do Cabeção. “Não sei como posso pagar-lhe isto. Nunca ninguém fez nada por mim”, disse a fixar o chão. Para desviar o assunto, só me saiu isto: “Têm que parar de brigar e de tomar aquelas coisas. Vocês à noite ficam possuídos, homem!” E lá segui à frente para disfarçar o meu mau jeito.

Bem dito anti-inflamatório. O olho e a cara voltaram ao sítio. Mas dentro, sangue cada vez mais vermelho, rodeou-lhe a pupila. Voltámos à farmácia. Ele voltou a ajeitar a roupa para entrar, a baixar a cabeça, as lágrimas caíram de novo, desta vez sem medo nem vergonha, para meu desconforto. Saímos de lá com umas gotas que na verdade não serviam para nada, como disse o farmacêutico, mas pensei que pelo menos podiam ter um efeito psicológico.

Como o vermelhão não saía do olho do Cabeção, recorri a um amigo dotado das coisas dos olhos. Mandou-me fotografar o olho e enviar-lhe. Sob a observação e auxílio dos guardas dos prédios da marginal, às oito da noite, posicionámos o Cabeção debaixo dos candeeiros da rua, cabeça para cima (como sempre deveria estar) e lá seguiu a foto no email. A resposta do amigo foi positiva e animou toda a rua: mais duas semanas e isso passa sem maleitas para a visão do Cabeção.

Mais ou menos pela mesma altura, Zé Tó chama-me: “Brasileira, brasileira!”, forma como também sou conhecida no bairro (razões que desconheço). Numa conversa já enrolada pelos vícios, começa a explicar por gestos e por meias palavras de umas dores, e que nem consegue baixar-se, enquanto vai apontando para o meio do corpo. Não sei se é bem aquilo, mas arrisco: “Mas sente ardor?”. “Sim, Dra., ao mijar sinto ardor. E às vezes deita pus. Desculpe, Dra.” (e fez cara de vergonha pelos pormenores tão visuais). Fiz-me de forte e entendida e determinei: “Vamos à farmácia comprar anti-inflamatório!

No final, em jeito maternalista, aconselhei: “Vocês têm que ter cuidado e fazer sexo seguro.” “Oh madrinha, mas as duas moças eram simpáticas e tinham bom ar”, lamentou. Certo.

[entretanto, já voltei à farmácia para curar um joelho inchado e esfolado que estava a provocar febres ao Nelito, e decidi comprar um carregamento extra de anti-inflamatórios para ter em casa de reserva para os meus rapazes]

Fui de férias a pensar no olho do Cabeção e se o vermelhão iria sair. No dia em que saí de mala para o aeroporto, ele e o Anjo Negro correram (cada vez correm mais rápido), apontaram para os respectivos pés e exclamaram em coro: 41!

Regressei de férias e o Cabeção correu. Trouxe-lhe umas sapatilhas 41 e voltou feliz para o seu posto, depois de me perguntar como estava a família. O olho já estava bom.

Neste regresso e início de ano, a minha estadia na marginal nem durou 24 horas. Fui logo chamada para a província do Uíge, no norte de Angola, para ajudar na resposta ao surto de cólera que já matou 10 pessoas e fez mais de 400 vítimas.

Regressei a Luanda passadas duas semanas. Quando voltei a ver o Cabeção, ele veio com uma corrida torta e descalço. Pergunto-lhe pelos ténis e diz que afinal não serviam, estavam grandes. Aponta para o pé, quase tropeça. Pergunto-lhe quanto calça e ele responde-me 32, enquanto volta a tropeçar no corpo. Quero fechar a porta do carro, e enrola-se a pedir algo, enquanto faz força para que não a feche. Cabeção esteve nos vícios e já não sabe a quantas anda. E eu, amanhã, tenho que voltar ao Uíge. Mais um morto de cólera, depois de 15 dias de tréguas.

Mariana Palavra

Mariana Palavra

LUANDA, ANGOLA - Mariana Palavra nasceu em 1978 junto ao mar, em Ovar. Cedo sonhou ser estrangeira. Migrou primeiro para Coimbra para estudar jornalismo. Depois de uma passagem tímida por algumas redacções em Portugal, aterrou em Macau em 2002 para trabalhar na televisão local. Do Oriente para as Caraíbas em 2009. Um ano na rádio da ONU no Haiti (e um terramoto) depois, trocou o jornalismo pelo trabalho humanitário Desde então já passou pelo Nepal (e por mais um terremoto), pelo Myanmar e vive agora em Angola.