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Os dias em Portugal...

Nós lá fora

Filipa Araújo

MACAU - Todo o emigrante devia ter o direito de ir a Portugal, pelo menos, 15 dias por ano sem que lhe fossem descontados dias de férias

Os dias em Portugal não deviam ser considerados férias. A pedir muito, todo o emigrante devia ter o direito de ir a Portugal, pelo menos, 15 dias por ano sem que lhe fossem descontados dias de férias. É que, quem pensa que ir a Portugal é o mesmo que estar na praia a relaxar está, claramente, equivocado.

Pratos limpos. O turbilhão de sentimentos que uma visita a Portugal implica é suficiente para nos deixar exaustos. Exauridos de tantas emoções dentro de nós. Como os antigos diziam “órados” da cabeça tal é a dimensão e velocidade das informações, das sensações, dos sabores, do querer-aproveitar-tudo-quanto-possível-porque-já-só-voltamos-para-o-ano-que-vem-mas-não-sabemos-o-que-aproveitar-porque-parece-que-nada-mudou-mas-afinal-talvez-tu-tenhas-mudado-e-já-não-pertences-ali-mas-queres-pertencer-e-no-fim-não-sabes-bem-de-onde-és. Ufa.

Esta exaustão piora quando decidimos apostar forte, all in, nas visitas durante as épocas festivas. Então no Natal, para além de não vermos os nossos dias de férias descontados, deveríamos ganhar dias de férias extra por compensação ou simples misericórdia.

A mãe que está o tempo todo a contemplar-nos, lá se vai certificando, ao jeito dela, se estamos com o mesmo peso, com apetite, ou falta dele. Observa-nos para nos captar sentimentos, expressões ou qualquer outro sinal. O pai acompanha de forma mais discreta. Às vezes os papéis invertem-se. É o pai que pergunta como estamos e aguarda com olhar sério e carregado até lhe dizermos que estamos óptimos e que é maravilhoso viver do outro lado do mundo.

Os amigos querem tocar, abraçar e ouvir tudo de novo. Mesmo as histórias já ouvidas. Repetem perguntas, ouvem as mesmas respostas, contam as novidades e agendam actividades non-stop para os próximos 15 dias. “Que achas de fazermos isto?”, “Olha malta, podíamos ir até Lisboa, passar o fim-de-semana”, “Não, já sei, vamos todos à neve. Vai nevar este fim-de-semana”. Sem dar conta, que 15 dias – ou às vezes até menos (muito menos) – servem para dois jantares e um terceiro a custo, com muito sacrifício das agendas de todos nós.

A tia quer muito ver-nos porque na última visita não a vimos. Ela está, com toda a razão, sentida connosco. Nunca vai perceber que o tempo é curto. As visitas são muitas e o desejo não chega para concretizar o encontro. Até o vizinho perguntou por nós e pediu para irmos dar um “olá”. Só nos ocorre na mente: “mas quem é o vizinho?”.

A amiga mudou-se e quer mostrar a casa. Nós queremos vê-la. A ela e à casa. Mas não conseguimos. Há almoços todos os dias, jantares, cafés e lanches. Há também burocracias, consultas médicas e afins. E há aquilo que defini como “tempo nosso”. Aquelas pausas de tudo e todos. Ao lado de alguém que amamos de coração cheio. A pessoa mais importante. No silêncio. Longe do trânsito de Macau, longe dos dias de poluição, longe das tentativas frustradas de comunicação, longe do outro mundo. Pausas raras, mas as mais poderosas para nos encontrarmos a nós mesmos. Para sentirmos que estamos em casa e não num turbilhão de actividades, encontros e eventos.

Mas não há tempo para tudo nem para todos. Não há tempo para todos aqueles com quem queríamos estar. E não é por falta de vontade. Não, aqui não é. É porque o tempo passa a correr, é porque queremos relaxar um bocadinho, deitar conversa fora. Quando damos por nós, esses bocadinhos transformaram-se em horas. Ganhámos, claro, uma tarde de lembranças e carinho, mas perdemos o mesmo do outro lado. Numa outra casa, num outro café, com outras pessoas. Queremos abraçar, sim. Também queremos conversar até nos faltar o ar. Queremos ser abraçados. Apaziguar preocupações, conhecer as novas casas de todos, os novos bebés e os planos para o futuro. Queremos que aqueles 6, 10 ou 15 dias se transformem em dois meses. E mesmo assim, ficaria tanto por dizer, e ainda mais por fazer.

A exaustão piora quando as coisas não estão bem. Neste mundo real, acontecem coisas más. E nós, queremos ali, em horas, em escassos dias, resolver o que se vem a arrastar há meses. Queremos curar o irmão em sofrimento, decidir pela irmã. Queremos emendar o que está errado, apagar as zangas, alertar a amiga. No fundo, queremos ser heróis. Nunca o seremos. E voltamos assim, quase sem soluções. Portadores de um coração apertado e exausto.

Brincadeiras e ironias à parte. As viagens a Portugal são física e emocionalmente cansativas, mas são também elas que nos lembram quem somos, porque o somos e quem são as nossas pessoas. É nelas que sabemos quem, independentemente da distância, está connosco, para sempre. E, principalmente, com quem queremos estar. Mesmo não podendo estar. São elas que nos mostram que Macau também é casa, e nos confunde com a pergunta “afinal, somos de onde?”.

E, por fim, é no avião, depois de nos sentarmos, apertarmos o cinto e mandarmos a última mensagem, que respiramos fundo e nos sentimos gratos. Pelo amor, pelos amigos, pelo frio, a chuva, o sol, o Natal, por tudo e por todos. Exaustos de tão felizes. De tão gratos.

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.