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Karmasutra - Монголоос Хайртай.

Nós lá fora

Bruno Neto

ULAANBAATAR, MONGÓLIA - Aqui tudo é karma, o bom, o menos bom... E em cada dia que passa, vou entendendo que muita da minha vida, muitos dos meus valores, das minhas re-ligações são sangue que passa pelas mesmas veias do budismo

Estepes com extensões infindáveis - província de Khentii

Estepes com extensões infindáveis - província de Khentii

Na Mongólia apenas as gerações mais novas começam a falar mais e melhor o inglês. A minha língua de trabalho é o inglês e por isso não tenho a vida muito fácil. Sempre com a ajuda de tradução, vou tentando fazer passar as minhas mensagens, as minhas missivas, mas não é fácil. Claro que a culpa é minha. Quem sou eu para pedir para que um país profundamente sitiado entre a Rússia e a China, fale a língua dos outros que vivem do outro lado do planeta, quando aqui os negócios, os intercâmbios culturais, a história sempre se fez com os vizinhos?! Ainda que a Mongólia tenha uma escrita tradicional lindíssima, que é escrita verticalmente, por questões económicas e de mercado (voilá) o alfabeto oficial tornou-se o cirílico. Imaginem o que é ir a um supermercado e tudo está em cirílico, desde o nome do produto, toda a informação do que contém o produto, como utilizar, como acondicionar, etc., etc. no fim de todos os etcs, muitas das vezes chego a casa e depois de abrir a embalagem, acabo por ver que comprei o que não queria comprar. É um desafio a todos os níveis, mas não deixa de ser engraçado, porque como nada se manda fora, acabo assim por ter uma cozinha mais criativa. Nos mercados mais tradicionais a experiência é fabulosa, bailamos entre a linguagem corporal, as calculadoras para mostrar os preços ou no último recurso lá vou eu ao tradutor do Google

Um dos agricultores que beneficiam do trabalho da Caritas República Checa na Mongólia

Um dos agricultores que beneficiam do trabalho da Caritas República Checa na Mongólia

O meu trabalho na Mongólia é sem dúvida o maior desafio profissional. Ainda que normalmente eu seja contratado como um fixer, alguém que se contrata para resolver problemas, colocar tudo em ordem, dar e colocar lógica nas operações e colocar equipas a funcionar, motivadas. Por isso é sempre um grande desafio e tenho sempre que dar voltas e voltas a todas as teorias, a todas as práticas, partir a cabeça em contas e depois, juntamente com as equipas, traçar estratégias para a mudança. Foi assim em muitos sítios, em vários continentes, mas a Mongólia é de facto um local especial. A personalidade do Gengis Khan parece continuar viva em todos os Mongóis, é incrível a forte personalidade, a determinação e a auto-determinação de cada uma das pessoas com quem tenho lidado – equipas e parceiros. E no fim, não há verdades absolutas ou fáceis, tudo tem de ser esmiuçado e bem negociado para que todas as partes entendam e aceitem o acordado.

No fim de cada dia, o cansaço é compensado pelo calor humano partilhado num pequeno bar ou restaurante. O povo Mongol adora comer e adora beber. A bebida mais bebida é o Vodka, mas há também muitas cervejas nacionais, há também muitos sumos e chás naturais de bagas, sobretudo a Hippophae ou o Mirtilho, estas bagas são riquíssimas em vitamina C e isso ajuda na sobrevivência às temperaturas que nesta altura rondam entre os - 20 e os - 35. A maior parte dos restaurantes tem preços muito acessíveis e ainda que a comida seja à base de borrego, ovelha, cavalo, vaca e cabra, a base da cozinha Mongol não tem muitos condimentos e com alguma facilidade nos adaptamos aos sabores e aos odores.

Guardador de Rebanhos - Província de Khentii

Guardador de Rebanhos - Província de Khentii

Neste momento a neve cai com intensidade. Lentamente e com o pisar, a neve transforma-se em gelo compacto que nos faz jogar com toda a física aplicada à gravidade de não sabermos quem somos nem onde estamos, quando estamos naqueles milésimos de segundos antes de saber qual parte iremos magoar mais, ou se pela sorte dos astros ou por termos ouvido de raspão algum cântico xamânico, conseguimos aterrar com os pés assentes na terra e o resto do corpo ainda que mal-adaptado ao susto, esteja inteiro e hirto. Os carros travam lentamente e ainda que travados, nada os pára e quem os ampara são pessoas ou outros carros que sempre entendem que algo estava para vir. Aqui tudo é karma, o bom, o menos bom... E em cada dia que passa, vou entendendo que muita da minha vida, muitos dos meus valores, das minhas re-ligações são sangue que passa pelas mesmas veias do budismo. Educação cristã, desenvolvimento pessoal muito ligado ao Sufismo e agora que começo a entender melhor a base do Budismo, entendo que esta mistura faz de mim um refutável ateu profundamente religioso.

Bruno Neto

Bruno Neto

MONGÓLIA - Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um coleccionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em quatro continentes, tendo estado envolvido em projectos em mais de 30 países. Ainda que viva uma vida nómada e continue a trabalhar por todo o mundo, estabeleceu para os próximos tempos base na Mongólia. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade.