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Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE - Ao fim de quase um ano e meio de crónicas dedicadas a falar-vos do Chile e do modo de vida chilensis, creio que é justo dedicar a última crónica deste ano para vos falar de como os chilenos nos vêm a nós portugueses

Jornalisticamente falando, há bastante interesse por Portugal por parte dos meios de comunicação social chilenos. Não tanto por causa do turismo, mas do ponto de vista dos indicadores económicos. O Chile é um país recém-chegado ao clube da OCDE. Portugal em termos de tamanho, PIB e indicadores de desenvolvimento constitui um bom ponto de comparação com o Chile quando se pretende discutir políticas económicas.

Apesar deste aparente interesse por Portugal, ainda é possível encontrar algum chileno mais despistado que nos pergunta que língua é que se fala mesmo em Portugal. Português?! Como no Brasil?! Mas não estão ao lado de Espanha, não falam espanhol?! Deve morrer um pinguim algures na Patagónia, cada vez que alguém me faz esta pergunta...

Para os chilenos mais atentos e que tiveram a oportunidade de visitar Portugal, ou para aqueles que têm família política portuguesa, ou que simplesmente trabalham ou convivem com os portugueses residentes no Chile, estas são algumas das suas conclusões sobre as particularidades da vida portuguesa:

- Os portugueses são um pouco como os uruguaios. Este é um elogio sentido! Leva implícita a comparação com os nossos respetivos vizinhos geográficos, bem maiores e mais intensos (leia-se: brutos!). Os uruguaios são conhecidos por serem particularmente boa onda e amáveis lá no seu país pequenino ao pé do mar.

-Os portugueses gostam muito de pão. Outro elogio, entre grandes comedores de pão. Fun fact: O Chile é um dos maiores consumidores de pão a nível mundial. O pão dos chilenos é mais do tipo individualista, para fazer sandes, marraquetas, hallullas, colizas, pan amasado, todo ele cheio de sal e que só de olhar já engorda o rabo. O pão tuga é mais comunitário, é pão para cortar às fatias. Faz melhores torradas, mas engorda o rabo na mesma.

- Os portugueses bebem muito café. Para os chilenos criados a café solúvel, passar umas férias em Portugal com a família da mulher/marido tuga é para deixar qualquer um com taquicardias. Os portugueses tomam café pelo ato social em si, não pela necessidade objetiva da cafeína, ou para se aquecerem ou por qualquer outra razão.

- Os portugueses guardam a sopa na embalagem dos gelados. Estávamos nós a jantar em casa de uma amiga portuguesa casada com um chileno, quando para sobremesa apareceu um gelado numa embalagem arredondada diferente das tradicionais embalagens retangulares. Todos os tugas à mesa ficaram uns minutos a elogiar a embalagem do gelado até que o marido chileno nos interrompeu com esta tirada: “aposto que estão a pensar que essa caixa dá para guardar a sopa...”. Na mouche! Os tugas até podem ter o armário da cozinha cheio de tupperwares, mas pelam-se por guardar sempre mais uma caixinha de gelados para por a sopa.

- Os portugueses levam vinho para um piquenique. Os tugas não precisam de uma razão aparente para ir tomar um cafezinho, mas precisam de um propósito definido para subirem uma montanha (um cerro, como lhes chamam por aqui). Os chilenos gostam da vida ao ar livre, para eles subir um cerro é um excelente programa de fim de semana. Sobem a montanha, vêm as vistas uma vez chegados lá a cima e depois dizem que respiraram ar puro e voltam a descer. Ora, um tuga se vai passear para o campo já está a pensar numa patuscada. Se é para ir ver as vistas, é preciso levar um piquenique, levar algo para tomar...e foi assim como um grupo de amigos tugas, mortos de calor, a suar e a bufar com o peso das garrafas de vinho, se deu conta a meio da subida do cerro que ninguém se tinha lembrado de levar água...

- Os portugueses são obcecados com a limpeza. Ai as limpezas!! Até os chilenos já sabem que as casas dos tugas nunca estão o suficientemente limpas para os próprios. Em todos os países em que vivi, se há coisa que nos entusiasme tanto como organizar o jogo da bola dos Domingos, é falar mal das nossas empregadas domésticas. Parecem sessões de terapia de grupo. As empregadas dos tugas nunca limpam o suficientemente bem, não usam a esfregona correta, ou o produto correto, enfim, não tem a técnica correta para polir e abrilhantar como nos ensinaram em Portugal e para que a nossa casa possa ser inspecionada pela sogra portuguesa que habita em todos nós.

- Os portugueses são muito organizados, porque se juntam sempre aos Domingos para jogar futebol. Que fofos!! No meio de tanta virtude por onde escolher, foram logo destacar aquela que tanto nos faz falta enquanto país. O que dizer sobre isto??? É Natal, não vou ser eu que lhes vou tirar a ilusão sobre a “organização tuga”... pode ser que se os outros nos virem como organizados, nós próprios enquanto comunidade comecemos a ser de facto mais organizados. Se Portugal fosse gerido com o mesmo empenho com que limpamos as nossas casas, teríamos um país melhor. Fica o desejo para 2018.

Dias sem ir a Portugal: 9 meses aproximadamente...

Nas notícias por aqui: A bolsa de valores dispara em alta dias antes da segunda volta das eleições presidenciais entre Piñera e Guillier.

Sabia que por cá…as refeições da quadra natalícia são acompanhadas por uma bebida chamada cola de mono (cauda de macaco) que é um licor feito com leite, café, aguardente, canela e açúcar.

Um número surpreendente: Segundo as últimas informações estatísticas disponíveis, no Chile consomem-se cerca de 90Kg de pão por pessoa anualmente. O Chile é o segundo maior consumidor de pão a nível mundial, seguido da Alemanha onde se consomem 106Kg de pão por pessoa anualmente.

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.