Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Verdes são os campos da cor do mamão

Nós lá fora

Mariana Palavra

Seis horas de viagem, entre curva e contracurva, cobertas por um céu cinzento que, de tanto ameaçar, lá foi cumprindo com algumas chuvas, próprias da época. O cenário, de tão verde, nem chega a enjoar (muito).

Notas de viagem
6.12.2017
Missão: subida ao planalto do Norte de Angola.
Descritivo: viagem terrestre de Luanda a Uíge, cidade que dá nome à província angolana, localizada entre os 800 e os 1300 metros de altitude, paredes-meias com a República Democrática do Congo.

À saída de Luanda, as chuvas intensas da noite anterior estão ainda bem marcadas, com estradas ainda alagadas e vias lamacentas.

Quase duas horas depois, mais trânsito menos trânsito, atravessamos o centro de uma cidade bem-posta. Os estabelecimentos comerciais parecem ter bebido todos na mesma fonte de inspiração: Barbearia Caxito, Supermercado Caxito, Restaurante Caxito. Padaria Manil [rara excepção, deve ser engano]. Imagino o óbvio: estejamos a atravessar Caxito, capital da Província de Bengo.

Por esta altura, já anseio pelo verde insistentemente apregoado por quem já fez esta estrada rumo a Uíge, província com mais de 1,4 milhões habitantes.

Os primeiros a aparecer são os embondeiros. Muitos, mas na maioria ainda meio despidos.

Bairro Vida e Sacrifício [placa de localidade]

Embondeiros, agora mais compostos, e cactos de tronco alto e fino. E papaieiras, que é o mesmo que dizer mamoeiros, a árvore do mamão, uma das apostas agrícolas do Bengo.

As aldeias de casas de barro ou tijolo, em tons laranja que se misturam com a cor da terra, são cada vez mais escassas. Só algumas se aproximam da estrada, mas muito aqui e ali.

Por enquanto, a estrada está aos retalhos. O desvio dos buracos torna-se entretenimento e distracção para afastar da mente as várias horas de rodagem que ainda estão pela frente.

A paisagem ameaça mudar. Ao longe, já se vêm montes cobertos com tufos esverdeados.

Macacos, mortos sabe-se lá como, à venda na beira da estrada.

Úcua [placa de localidade]

A vegetação começa a não dar tréguas nos dois lados, rente à estrada. Por vezes, porém, algumas clareiras, com árvores recém-abatidas para alimentar a indústria da madeira.

Os tufos dão lugar a prados que (re)vestem os montes que por ali vão espreitando.

Mais à frente, quando as árvores e arbustos falham, por algum lapso, as margens da estrada, consegue-se avistar um mar de montanhas verdes, sem fim à vista.

Piri deseja-lhe as boas-vindas [placa]

Estamos a 152 km de Uíge.

Igreja, grande povoação com casas, escolas, posto de saúde. [“grande” é relativo]

Prosseguimos. Vegetação quase que se toca de um lado ao outro da estrada, (cada vez mais) sinuosa.

Vista Alegre [placa de localidade] tem postes de iluminação a energia solar.

Muitas, demasiadas, curvas e verde depois, chegamos tarde a Uíge, capital da província com o mesmo nome.

Com o nascer de um novo dia, dá para voltar às notas. No centro da cidade, ou no meio dos musseques, há muita vegetação à mistura. Ruas limpas. Estudantes correm para o começo das aulas com as suas batas brancas, como é natural e nacional.

Nos terraços, antenas pára-raios fazem imaginar o pior. [já referi que estamos na época das chuvas?]

No mercado há sobra de abacate, batata-doce e banana-pão, muteta (pasta de sementes de abóbora), banana, jinguba e mandioca. Não vinha na lista dos produtos agrícolas mais comuns, mas houve quem comprasse cogumelos. Povoados de larvas, como se descobriu mais tarde.

Um cigarro. À noite, junto ao hotel, um jovem pede um cigarro. Prometo que no dia seguinte, à mesma hora, no mesmo local, terei algum para oferecer.

Voltamos à estrada. 152,5 km separam Uíge da Damba.

Matuta [placa de localidade]

Mucaba [placa de localidade]

Em muitas das comunas do município de Damba, não há rede de energia eléctrica. Em alguns locais há grupos de geradores para abastecer a povoação. Noutros locais, nem isso.

Sem televisão, nem rádio. O telefone também não cobre tudo nem todos.

A informação sobre a província, o país e o mundo chegam a estas aldeias através do boca-a-boca e de um sistema informal de cartas. Cruciais são também as autoridades tradicionais, os sobas, que convocam com regularidade jangos (encontros) comunitários para transmitir informações, discutir e trocar ideias. As igrejas, os grupos recreativos, os professores e os agentes de saúde têm também uma importante palavra a dizer na comunicação. Palavras, essas, que são muitas vezes ditas em quicongo, a língua nacional mais comum nesta zona.

Kalolo, deve estar a rondar os 30 anos. Um funcionário da administração municipal, mas também presidente da associação provincial de teatro. Já andou pelos palcos, mas agora o seu principal papel é a luta pelos direitos dos actores locais, para que pelo menos sejam reconhecidos através de uma identificação profissional.

Nos últimos meses, a malária (e esses mosquitos que não largam o capim) tem sido fatal para muita gente. Mais recentemente, as fortes chuvas estão também a causar estragos com deslizamentos de terras e inundações.

Maria, 24 anos, a terminar o 11° ano na área das ciências jurídicas, confirma o óbvio: quer ser advogada. “O meu sonho é nunca sair daqui.” Da Damba? “Sim, isto é muito lindo”. Pois é.

Enquanto não termina o secundário, candidatou-se para ser activista social. Trocado por miúdos, activista é um agente da comunidade que vai ajudar famílias vulneráveis, reencaminhando-as para os serviços de apoio adequados.

Três dias depois, voltamos a descer do planalto verde. No caminho, passamos de novo pelos macacos, para o almoço (dizem que funje de macaco é um pitéu). Ninguém diria que em 2004/2005 a província de Uíge tenha sido palco da pior febre hemorrágica da época, transmitida pelo consumo de… macaco.

345 Km e 162 curvas verdes depois, estou de volta a Luanda. Tchê! Nunca mais me lembrei do cigarro! Mais uma razão, não tão verde, para regressar.

Mariana Palavra

Mariana Palavra

LUANDA, ANGOLA - Mariana Palavra nasceu em 1978 junto ao mar, em Ovar. Cedo sonhou ser estrangeira. Migrou primeiro para Coimbra para estudar jornalismo. Depois de uma passagem tímida por algumas redacções em Portugal, aterrou em Macau em 2002 para trabalhar na televisão local. Do Oriente para as Caraíbas em 2009. Um ano na rádio da ONU no Haiti (e um terramoto) depois, trocou o jornalismo pelo trabalho humanitário Desde então já passou pelo Nepal (e por mais um terremoto), pelo Myanmar e vive agora em Angola.