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O estranho caso do futebol húngaro

Nós lá fora

José Reis Santos

BUDAPESTE, HUNGRIA - Um jogo com 1500 pessoas, média já elevada para o campeonato húngaro da I liga, vemos em treinos dos 3 grandes em Portugal, ou em jogos dos seus juvenis

Em dias quentes de decisões ao mais alto nível do futebol europeu (no que respeita a clubes), e quando vemos Benfica, Sporting e Porto a se baterem com os melhores do continente (com mais ou menos sucesso), e as principais cidades europeias acolherem jogos vibrantes, com estádios cheios, e ruas repletas de cores das equipas em disputa, em Budapest é uma tristeza geral. Uma cidade tão frequentemente colorida, tão cheia de vida, e tão apaixonada por desporte, vê-se totalmente privada de participar, intervir e vibrar com o tipo de noite que, cada 15 dias, preenchem o imaginário de milhões.

Um estranho fenómeno este o que envolve o futebol húngaro, especialmente se tomarmos em consideração o seu historial futebolístico – duas vezes vice-campeões do mundo e triplos campeões olímpicos -, a excelência de jogadores e treinadores no passado, e a recente aposta forte da parte do governo na construção de estádios e na industria do futebol. Recorde-se que a Hungria é liderada por um dos primeiros-ministros europeus mais fanáticos pela bola, entusiasta do Videoton, e responsável pela criação da Puskás Akadémia, clube da I Divisão sediado na sua cidade-natal (Felcsút).

De facto, nos últimos anos o governo húngaro tem apoiado fortemente a edificação de estruturas ligadas ao mundo do futebol, em especial estádios, quer renovando velhos recintos como construindo novos. Destes, destacam-se a novíssima Groupama Arena, casa do Ferencváros, e onde recentemente jogou a selecção portuguesa (lotação 22,000), o novo estádio do MTK, inaugurado pelo Sporting, com capacidade para 5,300 espectadores, o tal estádio em Felcsút, a Pancho Arena (3.800 espectadores, e onde Portugal jogou a meia final do Europeu sub-19), ou a renovação do velho estádio do Újpest, o estádio Szusza Ferenc, que nos anos 40 tinha capacidade para 50,000 espectadores e hoje apenas 15,000 (aqui jogou Portugal a final que perdeu com a Alemanha em sub-19). Finalmente, refira-se que o actual campeão húngaro, o Honvéd, que joga no Bozsik József para 7.200 potenciais apoiantes. Números em bruto miseráveis, que juntos não enchem um estádio da Luz, e pior se os apreciarmos com olhos de um latino habituado a ver estádios como os da Luz, Alvalade, Antas (quer os modernos como os antigos). Um jogo com 1500 pessoas, média já elevada para o campeonato húngaro da I liga, vemos em treinos dos 3 grandes em Portugal, ou em jogos dos seus juvenis. Não sei onde anda o tal entusiasmo dos húngaros pelo futebol. Em algum lado deve andar, mas nas bancadas não.

Por estas e outras razões tenho tido poucas experiencias futebolísticas em Budapest. Habituado que estava passar semana sim semana não pelo Estádio da Luz, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que aqui fui à bola, e a maioria delas para ver a seleção nacional (a recente visita a Budapeste dos AA, e as meias finais e final dos sub19). Mas fui também ver um Hungria – Suécia, no velhinho estádio nacional húngaro (estádio Puskas), hoje em reconstrução total, no que há altura deveria ter sido a melhor prestação magiar da última década, pois conseguiram ganhar o jogo por 2-1. E se já tinha sido estranho estar num estádio só com um anel (nas laterias), e facilmente conseguir ver o céu ao olhar para cima, mais bizarro foi ser practicamente o único a puxar pela equipa da casa nos últimos minutos, já que os locais se entretinham – sentados e serenos - a comer pevides.

A outra experiencia foi um jogo de campeonato. Queria ver um derby local, e fui ao Ujpest – Honved, velhos rivais. isto foi este ano, e sem o saber, estava a ver o futuro campeão a jogar, mas já lá vou. Chegado ao estádio, com 2 amigos, em vão procurei por um cachecol da equipa local (todas as 3 hipóteses caras e de péssima qualidade), e sem me apetecer pevides, entrei no recinto de mãos a abanar. E assisti ao um bom espectáculo, sociológico, pois de futebol, aparte de um golo para cada lado, pouco ou nada se viu. Para o final do campeonato ainda tentei assistir ao jogo do titulo, ao Honvéd – Videoton, empatados no 1 lugar à entrada da última jornada. Zero. Tudo esgotado. Todos os 7.000 bilhetes. Acabei por ir vendo em casa, enquanto trabalhava, pois como me dizia um amigo, pouco diferença existia na velocidade do jogo entre a transmissão live e as repetições.

Para terminar esta apreciação, atente-se à prestações dos clubes húngaros nas ultimas edições das competições Europeias. Esta época, para a Champions League, o Honvéd foi eliminado pelo Hapoel Be’er Sheva, perdendo por 1-2 fora e 2-3 casa na 2 ronda de apuramento. Na época passada, o Ferencváros foi colocado fora da competição na segunda ronda de qualificação pelo Partizani de Tirana (nos penalties). Nem a Europa League parece ser mais acessível, estando a Hungria sem qualquer representante nesta competição. Esta época na ronda de play-offs o Ferencváros foi eliminado pelo Midtijlland da Dinamarca (2-4 em casa e 1-3 fora), o Vasas pelo Beitar de Jerusalém (4-3 fora, 0-3 em casa) e o Videoton, depois de empatar a 1ª mão em Belgrado com o Partizan (0-0) perderia em casa por 0-4. Na época passada, uma vez mais durante os play-offs, o Videoton foi eliminado pelo Midtijlland (0-1 em casa e 1-1 fora, após prolongamento), o Debrecen pelo Torpedo BelAZ Zhodino da Bielorrússia (1-2 casa, 0-1 fora) e finalmente o MTK Budapest pelo Gabala do Azerbaijão (1-2 casa, 1-2 fora). Com estes resultados, e sem uma única vitória em casa para amostra, não espanta que Hungria se encontre no 35º posto no ranking da UEFA de clubes, atrás do Liechtenstein, da Moldávia ou da Islândia, e em risco de ser ultrapassada pela Albânia e Macedónia em breve.

O que faltará então para que o futebol húngaro consiga ressuscitar? Apoio do Estado existe, auto-declarado fanatismo futebolístico também (como se verificou durante o último campeonato da Europa), e interesse pela prática desportiva. Não sei mesmo como resolver este estranho caso. Sei sim que dificilmente verei o meu Benfica aqui jogar para a Champions. E sei também, pelo que em conversa me dizem, que muitos são os húngaros que se organizam para ver jogos de futebol a Turin, Milão ou Barcelona. A eles, para terminar a conversa, resta-me só apresentar-lhes o Red Pass, ou o que quer que sejam os equivalentes para os lados de Alvalade e das Antas.

José Reis Santos

José Reis Santos

BUDAPESTE, HUNGRIA - Comparativista. Talvez seja esta a melhor forma de me descrever. Quer como historiador, cientista político ou sociólogo amador. Neste sentido, tendo vivido e investigado em Madrid, Bruxelas, Nova Iorque, Inglaterra e agora Budapeste, tenho procurado articular pontes e ligações entre a sociedade civil, académica e política, de forma a retirar destes mundos (tantas vezes isolados) pontos de convergência e de comunalidade. Estar em Budapeste tem-me permitido acrescentar mais um ponto de observação, este proveniente da Europa Central, aos fornecidos por alguns dos lugares pelos quais tenho passado, partindo sempre desse berço de cosmopolitismo que é a minha Lisboa. Vivemos num mundo complexo, cheio de nuances e particularidades, falsa informação e algoritmos condicionadores, gente doida e perigosa, cheia de verdades e factos-alternativos, novos nacionalismos e disrupções sistémicas. Assim, quando mais procurarmos retirar do contacto com outras culturas e gentes, da sua literatura, história ou gastronomia, mais capacitados nos encontramos para entender um pouco (mais) o que nos rodeia.