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Fim de semana prolongado

Nós lá fora

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO DO CHILE - Ai os feriados!!! Num país em que por lei só dispomos de 15 dias úteis de férias por ano, os feriados coladinhos ao fim de semana são uma bênção dos céus, como quando cai a chuva em Santiago!

Graças à empreitada de Cristóvão Colombo 500 anos atrás, celebra-se atualmente em Outubro o dia da Hispanidad em Espanha, ou o dia do Encuentro de los Mundos nos países da América Latina, ou ainda o Columbus Day nos Estados Unidos...chame-se lá como se chame o feriado, o que fazer com estes três dias?

A uma hora de voo até La Serena e depois a uma hora de carro desde La Serena em direção ao interior, ou a cinco horas de carro desde Santiago, numa região a que os chilenos chamam o “norte chico” (o norte pequeno, o deserto do Atacama sendo tão grande que o tiveram que dividir em regiões...) eis que chegamos ao Vale do Elqui. Um emaranhado de pequenas aldeias espalhadas pelo vale, um oásis verde no meio do tal norte chico cor de cobre. Quem visita o Vale do Elqui vem para fazer três coisas: beber pisco, visitar o berço da Gabriela Mistral e ver as estrelas.

O pisco é uma aguardente de uva moscatel e é a bebida nacional do Chile... e do Peru! Um pouco como as empanadas disputadas a muerte entre o Chile e a Argentina. Não se pode dizer que as relações de vizinhança sejam as melhores por aqui... pisco sour ou piscola, a produção de pisco no Chile concentra-se no Vale do Elqui, onde é possível visitar as destilarias ou “pisqueras”, aprender sobre o processo produtivo e fazer a degustação do pisco. O Governo do Chile levou o assunto tão a sério que em 1936 decidiu renomear a vila de La Unión como Pisco Elqui para assim promover a produção estrela da região. Soa um pouco a Disneylândia da aguardente, mas a vila de Pisco Elqui é muito agradável, graças à arquitetura colonial espanhola as casas têm pátios interiores onde hoje é possível comer com vista para o vale e esquecermos um pouco o calor que faz lá fora. Além dos tours para as destilarias, o que chama a atenção ao chegar lá são os anúncios de tours místicos de observação de estrelas, anúncios a massagens e alinhamento de chakras, e as lojas com roupa hippie. A vila tem uma onda meio mística.

O turismo astronómico, não necessariamente místico, é o outro grande cartão postal do Vale do Elqui. O deserto do Atacama tem um dos céus mais limpos do planeta o que atraiu a instalação de vários telescópios na região. Nem todos os observatórios estão abertos ao público. No Vale do Elqui, o maior observatório que se pode visitar é o observatório do cerro Mamalluca perto de Vicuña. Como estávamos a viajar com crianças pequenas optámos por um tour com grupos mais pequenos numa propriedade onde além de ver as estrelas também produzem vinho e foi possível provar um tinto enquanto escutávamos o ruído de uma explosão solar. Não terão um telescópio ao nível do Projeto ALMA, mas pudemos observar a via láctea, os anéis de Saturno e alguma nebulosa. Algo que acho fascinante nesta experiência é o facto de o céu no hemisfério sul ser “diferente” do céu no hemisfério norte. Veem-se outras constelações, outros desenhos no céu. Às crianças deram-lhes uma estrelinha que brilha no escuro. Como que por artes de magia o senhor tirava uma estrela do céu, soprava-lhe e colava-a na mão dos miúdos, o meu filho não quis lavar as mãos nessa noite.

Se em Pisco Elqui se alinham os chakras e se bebe pisco, em Vicuña, para nossa surpresa comem-se gelados. Porta sim, e outra também, rua fora a caminho da casa museu há uma geladaria artesanal... todas tinham um sabor chamado cielos del valle, azul intenso como o céu por estas bandas, mas que mais parecia ser um estrumpfe triturado. Optei pelo gelado de copao, um fruto autóctone com aparência de cato e sabor ácido entre um limão e uma anona. E finalmente, ao fundo da rua a casa museu Gabriela Mistral. Lucila Godoy y Alcayaga de seu verdadeiro nome, é indiscutivelmente a filha ilustre do Vale. Nascida em Vicuña e criada em Montegrande, foi professora, diplomata e poeta. Fun fact: foi cônsul do Chile em Lisboa entre 1935-1937. Como professora foi convidada a participar da reforma da educação pública no México em 1922. E foi a primeira escritora latino-americana a receber o Prémio Nobel da Literatura em 1945. O nosso pediatra tinha-nos alertado: “não esperem nada muito sumptuoso, é um lugar muito pobre, perdido da mão de Deus. O que torna mais extraordinário que ela tenha chegado a escrever coisas tão bonitas...” Mais do que pobreza, eu senti o isolamento, para quem como eu se criou no litoral, viver rodeada de montanhas parece-me algo claustrofóbico, quase opressivo. Montegrande é ainda mais pequena, se não fosse pela casa-escola que também se pode visitar, imagino que ninguém lá pararia quando visita o Vale. O museu em Vicuña está organizado de forma algo confusa, com muita memorablia da escritora, mas sem um fio condutor aparente. No hotel meti conversa com outro hospede que queria saber se no museu havia uma loja. Não havia. Ficou surpreendido: “nem para comprar um livro de recordação?!”. Pois, não, mas era boa ideia! Um livro seria uma excelente recordação... como não havia livros, trouxemos uma garrafa de pisco.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 7 meses aproximadamente...

Nas notícias por aqui: chegam ao Chile 66 refugiados sírios para começar aqui uma nova vida.

Sabia que por cá… no Chile faz sempre um frio dos diabos à noite. Isto é turismo de forro polar, não de fato de banho!

Um número surpreendente: 6 milhões de USD é quanto custará a visita de três dias do Papa Francisco ao Chile em Janeiro de 2018.

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.