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Até que a paz nos separe

Nós lá fora

Mariana Palavra

LUANDA, ANGOLA - A história de duas vidas separadas por uma fronteira, que ao longo dos anos foram escapando aos conflitos que decorriam por ali próximo. Até que a guerra os empurrou e (n)os juntou do lado da paz.

O telefone toca. São 7:30 da manhã. A esta hora só pode ser o Anacleto. Não falha, nos últimos cinco meses não há um dia que não ligue. “Olá Mariana. A saúde está boa? É só para lhe desejar um bom dia e bom trabalho. Até amanhã”.

Anacleto nasceu em 1950, num município da Lunda Norte, província do nordeste de Angola, paredes-meias com a República Democrática do Congo. Pai motorista, mãe doméstica, mudou-se ainda bebé para o Dundo, capital da província, e por ali foi vivendo, mais ou menos continuamente, até hoje.

A sua memória, que já brinca às escondidas, não consegue lembrar-se quantos anos andou na escola. “Talvez tenha feito uns seis ou sete anos de escolaridade? Ora bem, comecei em 1957, saí em 63, mas perdi um ano porque caí de bicicleta no rio e fiquei muito mal. Ora bem, isso dá 5? Mas eu saí da escola com 13 e terei começado com seis.” Pouco importa.

Ao longo dos 67 anos de vida, Anacleto foi fintando e escapando à(s) guerra(s). Da guerra pela independência, só se lembra do aumento de militares portugueses estacionados na capital da província, mas não tem mais nem más memórias. Da guerra civil, conseguiu sair a tempo de uma cidade para outra, e só ouviu histórias de casas queimadas deixadas para trás.

O telefone toca. São 7:30 da tarde. A esta hora só pode ser o Daniel. Não falha, nos últimos cinco meses não há um dia que não ligue. Ça va ‘chefa’? La santé? Ici pas trop mal. Bonne soirée. À demain. Estamos juntos”, Daniel arrisca com confiança uma das mais populares expressões angolanas.

Daniel nasceu há 34 anos na província de Katanga, no sudeste da República Democrática do Congo, numa família de seis irmãos. Nos estudos, foi correndo por ali fora, concluiu o curso de informática e ainda seguiu para uma formação de logística humanitária. Foi essa área de estudos que o levou, aos 31 anos, para a província do Kasai, junto à fronteira de Angola, onde dava formação de logística em situações de assistência humanitária a serviços públicos, grupos religiosos e associações. Até mudar-se para o Kasai, a guerra nunca se cruzou na vida de Daniel, era algo que apenas conhecia de nome e de histórias que chegavam de outras províncias congolesas. Até que em Agosto de 2016, um líder tradicional foi morto pelas forças de segurança. Desde então, a grande região do Kasai, até aí a viver em paz, tem sido palco de confrontos ferozes entre milícias e forças de segurança. Mais de 1,4 milhões de pessoas são agora deslocados internos e mais de 30,000 fugiram para Angola. Daniel é uma dessas pessoas que encontrou abrigo, em Abril de 2017, num dos dois campos de refugiados criados no Dundo. Fugiu para este lado da fronteira ao ser apanhado pela primeira vez na vida num conflito, a mais de mil quilómetros de casa.

Anacleto frequentou a escola primária (entre 1957 e 1963? Pouco importa) precisamente onde hoje se encontra um dos dois campos de refugiados do Dundo. Foi também aí que Anacleto se apresentou para ajudar mal chegaram os primeiros congoleses, há cerca de seis meses. Desde 1990, enquanto voluntário da Cruz Vermelha de Angola, Anacleto já esteve envolvido em campanhas de vacinação contra surtos de pólio, na luta à febre-amarela, na resposta a um surto de cólera e agora regressou à “escola” para ajudar os irmãos congoleses. Todos os dias, caminha quase uma hora para lá chegar. Mais uma hora de caminho para regressar a casa, ao final do dia.

Não ouve um só dia que se queixasse, que se mostrasse cansado ou desanimado. Bem, apenas uma vez senti-lhe a voz fraca do outro lado do telefone. “Anacleto, quer vir comigo ao outro campo [de refugiados] para nos reunirmos com o Daniel?” “Ah… pode, sim Mariana”, disse com voz derrotada. Pressenti que não estava bem. “Hoje estou com disenteria. Se calhar é melhor eu ficar aqui neste campo, sempre estou mais próximo das latrinas”, e rimo-nos os dois em coro com a honestidade das suas palavras. Eram umas 7.30 da manhã e, apesar do intestino estar-lhe a pregar-lhe partidas desde a noite anterior, Anacleto já se encontrava no campo de refugiados, onde tem estado a ajudar seis dias por semana como voluntário. Nesse dia, porém, carregou de casa um garrafão de cinco litros de água… para ir compensado a perda dos líquidos.

Anacleto e Daniel ligam-me todos os dias de Dundo, província de Lunda Norte. Eu estou em Luanda. Só lá vou em trabalho uma vez por mês por uma semana e pico.

“O melhor da viagem é o regresso”, repete Anacleto, com tom sábio e sério para emprestar solenidade à expressão, cada vez que regresso ao Dundo ou estou de volta a Luanda depois de alguma visita a outra província que não a sua Lunda Norte.

As poucas vezes que fiquei incontactável por motivos de viagem, foi um “trinta e um”. Quando finalmente dei sinal de vida, o Anacleto invariavelmente fechou com a sua frase predilecta que já tomou como sua imagem marca: “o melhor da viagem é o regresso”.

Anacleto e Daniel nunca pediram nada. Minto. Uma única vez, pediram, separadamente e em surdina, a um colega do sexo masculino, por respeito e discrição, peças de roupa interior. E um dicionário português-francês, francês-português, agora que já estão entrelaçados com as duas terras e línguas.

Há dois dias que o Daniel não me liga. Os mesmos dias que eu tenho incessantemente tentado ligar. O telefone está desligado. Já não consigo deixar de me preocupar.

As duas chamadas diárias são lembretes de que não estou sozinha. Mas também que não posso falhar, que há cerca de 30,000 pessoas que estão do outro lado daqueles dois telefones, que estão a contar com o nosso trabalho para que a vida não fique pior. E há dias em que isto pesa. Hoje foi um deles.

Entretanto, estou já a contar os dias para o melhor da viagem.

Mariana Palavra

Mariana Palavra

LUANDA, ANGOLA - Mariana Palavra nasceu em 1978 junto ao mar, em Ovar. Cedo sonhou ser estrangeira. Migrou primeiro para Coimbra para estudar jornalismo. Depois de uma passagem tímida por algumas redacções em Portugal, aterrou em Macau em 2002 para trabalhar na televisão local. Do Oriente para as Caraíbas em 2009. Um ano na rádio da ONU no Haiti (e um terramoto) depois, trocou o jornalismo pelo trabalho humanitário Desde então já passou pelo Nepal (e por mais um terremoto), pelo Myanmar e vive agora em Angola.