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Hong Kong devia fazer yoga

Nós lá fora

Rita Cruz

KUALA LUMPUR, MALÁSIA - Quantas grandes cidades haverá assim - destas que diariamente negoceiam milhares de almas - que conseguem parar e sorrir com gosto quando um miúdo se cruza na rotina diária e lhes atrapalha o caminho?

Trocámos a Malásia por Hong Kong por quatro dias e três noites. Ficámos perto, apenas a quatro horas de viagem. Perto também no calor e na humidade: Hong Kong está no fim do Verão e, pelo mês nestes dias, a roupa colou-se tanto ao corpo como se cola em Kuala Lumpur. Ficámos perto também na densidade tremenda, nas torres gigantes que se colam umas às outras e no trânsito que escorre lenta e ruidosamente a seus pés.

Mas Hong Kong é diferente de Kuala Lumpur. Logo quando o avião começa a descer e se avistam as montanhas a envolver a cidade, se percebe que a natureza faz parte dela, não é afastada nem domesticada, mas integrada tal e qual como é. A cidade é linda, da mesma forma que Singapura o é. Urbana, é verdade, intensa, vertical, mas sedutora. A panorâmica da densidade dos edifícios de um lado e doutro do mar, salpicados de luzes e observada de um dos muitos bares dos andares superiores, é indescritivelmente cativante. A cidade é uma obra acabada que se desfruta com prazer na intimidade da noite; não um protótipo ruidoso ainda em construção, com a vista e os ouvidos atrapalhados pelos solavancos das constantes imperfeições.

Hong Kong foi também ela parida pelo império britânico, mas teve uma ascendência distinta da Malásia. Antes de ser abocanhada pela China, já lá estavam os genes de uma cultura mecanicamente eficientemente, tão, mas tão distinta da Malaia.

Visitei a cidade com os meus pequenos, de 3 e 5 anos. De mãos dadas - “Hong Kong rules”, acordámos no primeiro dia: em Hong Kong, estamos sempre de mãos dadas - mergulhámos nas ruas da cidade; utilizámos o sistema de transportes públicos nas suas diversas formas e fizemos de contas que ali vivíamos. Como seria viver numa cidade assim tão vibrante, mas onde se consegue andar na rua; onde a natureza está ali tão perto; onde cheira a mar, porque Hong Kong é uma ilha e o mar está ali sempre tão perto. Como seria?

A verdade é que não seria fácil. Atrás da sofisticação de uma cidade impecavelmente apresentada - a quem ali só passa três dias e navega no Google maps de zonas turísticas e financeiras - há uma hipertensão que lhe corre nas veias. O sangue da cidade, representado nos milhões de pessoas que nela vivem, corre pelas artérias em turbilhão e não há espaço nem tempo para negociar uma fragilidade. A acontecer, há uma hemorragia imediata e de consequências imprevisíveis. Em várias ocasiões, dei por mim a ser essa fragilidade no sistema: uma mãe estrangeira, alheia à perfeita ordem e eficiência do sistema, com um miúdo de 3 anos numa mão e um de 5 noutra.

Ilustro. Primeiro dia de Hong Kong, decidimos experimentar tudo o que é mais característico da cidade, do espectáculo de luzes nocturno à travessia de barco e ao passeio de eléctrico. Os eléctricos de Hong Kong são antiguinhos como os de Lisboa. Cativantes da mesma forma e pelas mesmas razões mas com o bónus de terem dois andares. Lá vamos nós, sorridentes, ocupar os lugares de cima. Dizem-me à entrada que se paga à saída. Mais ou menos sei o total e obedientemente apresento uma nota de 10 para um valor de menos de 5. Caloira! Não faz sentido, numa cidade destas, que o condutor pare para contar trocos. Sou literalmente enxotada com os miúdos para fora do eléctrico depois de deixar a minha nota de dez dólares de Hong Kong. “No change, go, go!”. É assim… quem paga com dinheiro ou paga certo ou paga a mais, porque não há trocos, nem tempo para explicações a turistas enfadonhos. O sangue tem de correr, e depressa. Bloqueios não são bem vindos.

A observar Hong Kong do segundo andar do eléctrico. Mas será que Hong Kong é particular nisto? Será que esta hipertensão lhe é particular apenas a ela?

Ilustro outra vez. A entrada do metro. Os miúdos já vêem cansados, e já não vestem bem as “Hong Kong rules”. Esperamos que chegue o nosso metro, mas atrás de nós já se vão acumulando glóbulos vermelhos. Ele chega. As portas abrem. Ordeiramente, consigo que os meus filhotes deixem primeiro sair quem está a chegar. Mas chega a hora de entrar e o Lucas aponta para qualquer coisa atrás de nós e insiste não só que eu veja como que eu não entre até que tenhamos conversado detalhadamente sobre o seu significado. À minha volta já se passa de tudo e atrás de mim, no segundo que tardou em eu puxar-lhe o braço para entrarmos, já está alguém a deixar sair um impaciente “go, go!” Quase faço o miúdo tropeçar para entrarmos no metro naquele preciso milésimo de segundo. Fico furiosa! Olho para o personagem, e não é um local. É um turista britânico, ou residente a chegar de férias, que presumivelmente tem orgulho em assim ser identificado dado ter a bandeira da Union Jack esparramada na mala que transporta com ele. Bruto!

Penso: estou mal habituada. Na Malásia pouco eficiente e atrasada, cheia de obras e poeirenta, de buracos na rua e sofisticação quase nula, isto seria impossível. Os miúdos têm prioridade, tudo pára para os ajudar. Há sempre um sorriso e uma mão amiga. O tempo conta menos e as horas de pontas fazem-se a andar, não é a correr. As artérias são congestionadas, mas não importa, nada acontece, não há um hemorragia nem um AVC… com o tempo, descongestiona, volta a funcionar. É só esperar. Quantas grandes cidades haverá assim - destas que diariamente negoceiam milhares de almas - que conseguem parar e sorrir com gosto quando um miúdo se cruza na rotina diária e lhes atrapalha o caminho?

Regressamos hoje e eu estou contente. Contente de termos visitado uma cidade tão fascinante. De termos comido imensos dumplings e adorado estar num eléctrico num dia, nos pés de um Buda gigante noutro e terminarmos tudo num mergulho de mar, numa ilha verde, deserta e pequenina. Gostei mesmo muito. Mas a tensão alta faz mal à saúde e dá cabo das veias. Hong Kong (e pelos vistos a Inglaterra, e se calhar meio mundo desenvolvido) devia fazer yoga… mas enfim, se o fizesse deixava de ser Hong Kong, e talvez lhe começassem a aparecer buracos nos passeios. Não há, de facto, paraísos entre os nomes sonantes deste planeta que aos pés do Buda de Tian Tan ocupamos, no preciso momento em que o vivemos; apenas locais e regiões que num momento ou outro nos convêm mais ou menos, nos seduzem hoje e nos repugnam amanhã.

Rita Cruz

Rita Cruz

KUALA LUMPUR, MALÁSIA Rita mudou-se em Julho para a Malásia, deixando para trás a Austrália onde viveu dois anos. Já montou casa em várias partes do mundo. É fisioterapeuta, mas trabalhou durante vários anos no ramo dos Direitos Humanos e ajuda humanitária. Tem dois filhos pequenos, de 2 e 4 anos.