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3 anos… “paladonra!”

NAGOYA, JAPÃO - Chegou setembro e com ele mais uma contagem do tempo. Ainda com os dedos de uma mão, ichi, ni, san perfazem os anos que cheguei ao Japão e é impossível deixar passar esta data em branco.

Hoje, depois de deixar a minha filha na escola e debaixo de uma chuva de fim de verão, conduzia de regresso a casa e pensava na vida. Se há palavra que não cabe numa folha é a Saudade. Carregada de nostalgia, é insaciável e crava-se no coração de quem parte e no de quem fica. “A mala de viagem, assim como o avião, têm a grande vantagem de não terem coração”, diz-me tanta vez a minha querida mãe.

Nós cá fora habituamo-nos a viver sem OS NOSSOS. Criamos uma nova casa por cima dos nossos alicerces e alimentamos a nossa força, coragem, criatividade e otimismo. Aprendemos a bastar-nos. Passamos meses a fio sem ir à terra, habituamo-nos a falar por entre écrans e desdobramo-nos para que a nossa presença seja lá sentida.

Vemos a família a crescer com a ajuda das apps, as amigas a serem mães, faltamos aos jogos do sobrinho mais velho, às festas da escola do mais novo, aos aniversários, aos jantares e aos abraços de consolo quando mais precisam de nós. O nosso máximo sabe sempre a pouco.

Numa estrada paralela à da Saudade, procuro ter a consciência diária de que não vivo uma realidade virtual e de que sou mesmo residente no Japão, caramba!

Aqui, quase tudo o que é diferente se tornou natural. Há muito que deixei de ser turista e apenas quando paro para pensar no que está à minha volta é que gostaria que os meus olhos pudessem fotografar ou filmar para que nada escapasse à minha partilha.

Os japoneses vivem com o sentido na sociedade e pensam sempre nos outros. Apertam-se nos transportes públicos e nos elevadores, sem um “ai”, para que possamos entrar e ainda nos aguentam a porta; no trânsito cedem-nos passagem sem que alguém se irrite ou buzine; têm sempre um gesto atencioso, um sorriso fácil e os agradecimentos em vénias nunca são demais (assim como a minha admiração por eles).

Bem perto de casa há um stand de automóveis que fica na estrada principal, por onde passo muitas vezes. Já cedi passagem a pessoas que saem de lá e de todas as vezes fico a olhar para o empregado que vem até à beira da estrada despedir-se e fazer uma vénia de 90º até perder o cliente de vista.

As pessoas que estão no atendimento ao público fazem-me lembrar aquele personagem do Camacho Costa nos Malucos do Riso ‹‹Vossa excelência acabou de entrar no local certo, na hora exacta, no momento oportuno. O lema desta casa é “servir bem e bem servir dá saúde e faz sorrir”.›› E não é que me fazem mesmo rir?!

Despertar a rir também não é tarefa difícil por cá, mesmo acordando de mau humor.
Ligo a televisão e salta do écran um homem vestido de vaca cor-de-rosa e bochechas coradas que adora tomar banho numa banheira sem água, seguido de umas miúdas vestidas de bonecas de trapos num cenário de glamping japonês. Vem depois a marcha dos algoritmos, onde dois homens se infiltram em diversas profissões e fazem movimentos em cadeia e o PythagoraSwitch que todos os dias mostra objectos do quotidiano em sequências diferentes, incentivando as crianças a despertarem o modo de pensar sobre as coisas.

Nos programas infantis temos ainda os Caricas cá do sítio, as aulas de inglês, desenhos animados variados, vídeos amadores de meninas e meninos de 3 anos a comerem, a lavarem os dentes e a vestirem-se sozinhos, animais de estimação e muita, muita música. No início estranhamos esta esquizofrenia mas passado uns tempos apercebemo-nos de que, além de diferentes, são extremamente educativos.

Ao longo do dia a dificuldade em assistir ao que quer que seja nos canais nacionais aumenta e acabamos por desligar a TV. Acompanhamos online as notícias do mundo e acontece-nos muitas vezes sabermos mais depressa pelos media portugueses que houve um sismo ou um tufão no Japão do que pelos de cá.

Recentemente, um bocadinho alienados do mundo, chegou-nos de Portugal que a Coreia do Norte tinha lançado um míssil balístico que sobrevoou o Japão antes de cair no oceano Pacífico.
Demos conta de que tínhamos muitos corações a pulsar desse lado e que deste estávamos mais tranquilos do que uma preguiça na árvore.

Mãe Palavra de honra, se alguém me dissesse que a minha filha está no Japão e não dá conta dos mísseis eu não acreditava!

Sobrinho – O que é “paladonra”, avó?

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal... 122

Nas notícias por aqui... não se fala noutra coisa: Madonna comprou casa em Portugal! As imobiliárias japonesas distribuem flyers aliciando estrelas internacionais a comprar casa no país do sol nascente. Argumentam que a Alfândega cá é tranquila e que podem enviar por correio quantas caixas quiserem, que os cabeleireiros a disfarçar as raízes são top e que também podem passear a cavalo no Japão.

Não parece mas agora, sim, as notícias reais:
O Japão continua empenhado na preparação dos Jogos Olímpicos de 2020 e já foram feitas uma série de mudanças nas infografias e nas restrições aos banhistas. Outra das preocupações é a segurança rodoviária. Para prevenir acidentes que envolvam estrangeiros e após um estudo aprofundado das zonas de maior perigo na estrada, encontraram uma solução: autocolantes!
Foi criado um autocolante que diz “A Foreigner is Driving”. Este autocolante já se encontra a circular em Okinawa e Hokkaido.


Sabia que por cá… quando estão parados nos semáforos das passadeiras ou à espera de autocarro, muitos japoneses (maioritariamente idosos) fazem alongamentos e exercícios que simulam tacadas de baseball ou golf. Nós, que os observamos, ficamos a imaginar a precisão das bolas e onde é que irão parar.

Um número surpreendente: 60 000 cidadãos japoneses estão nesta altura a viver ou a visitar a Coreia do Sul. O Governo Japonês está a elaborar um plano de emergência, com base nas ameaças da Coreia do Norte, para evacuar todos os cidadãos japoneses da Península Coreana caso haja encerramento de aeroportos.

Catarina Oliveira da Costa

Catarina Oliveira da Costa

NAGOYA, JAPÃO Tem 34 anos e vive em Nagoya, no Japão, desde 2014. É designer gráfica e ilustradora freelancer. Começou a trabalhar numa agência de comunicação como designer e mais tarde entrou no mundo editorial, onde trabalhou como designer em várias publicações infantis e femininas. A Cosmopolitan e a Activa são as duas últimas equipas do coração. Casada, é mãe de uma menina com um ano. É apaixonada por desporto, moda, decoração e culinária.