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Querido Litos

Nós lá fora

Mariana Palavra

Quarenta e cinco (45) anos separam tio e sobrinha em Angola. Ele veio para uma guerra alheia e descobriu o amor à rádio, que depois abandonou para nunca mais voltar. Ela, que também já passou pelas rádios, chegou recentemente a Angola, mas já não veio a tempo de lhe contar o que hoje vê. Esta é a primeira de muitas cartas que nunca lhe escreverá.

Luanda, 1 de Setembro 2017

Querido Litos,

Aterrei em Angola há quatro meses, sem tirar nem pôr. Assim, sem afecto nem apego prévios. Depois de Myanmar, já aprendi a não criar expectativas. O trabalho que me move tão pouco traz motivos para grandes euforias. Confesso, antes de chegar odiei as reacções alheias ao meu novo destino. Todos têm opinião sobre Angola. E consegue ser tão injusta.

Entre hoje e esse ano de 1972 passaram-se 45 anos. Como foi ser arrastado à força para uma guerra? Como se passam dois anos no lado errado da história como oficial da especialidade de acção psicológica? Nunca falámos disso. Mas eu acho que sei.

Nestes quatro meses em Angola, já visitei pelo menos nove províncias. E em todas elas, em pleno cacimbo [época seca], sinto o calor dessa bola de fogo gigante que se põe todos os dias. E esse céu imenso da noite, e o cheiro da terra, e a música que embala o corpo e que dança com todos. Como podem ser tão injustos?

Comecei a ler excertos de alguns dos aerogramas recebidos pela “Queridinha” durante aqueles mais de dois anos de “maldita vida militar”, escritos a partir do antigo Luso, actual Luena, capital do Moxico, e enviados através de uma “oferta da TAP aos soldados de Portugal”, numa “edição exclusiva do Movimento Nacional Feminino”. Poderia passar horas a fio a reler esses pedaços de uma vida, de um passado de guerra, de revolta e esperança e de um amor que nunca morreu. Hoje, o meu presente vai-se fazendo de paz e de diferentes cantos de Angola:

Lunda Norte. Onde deixo parte da alma à porta, condição mínima para melhor trabalhar com os refugiados congoleses e onde todos os meses engulo lições de coragem e sobrevivência.

Lunda Sul. Local de aterragem, onde dispo a tal alma antes de viajar três horas de carro até chegar aos campos de refugiados. E onde, no regresso da Lunda Norte, lavo a cara (e como invariavelmente sopa de feijão num hotel made in China e croquetes na pastelaria da esquina) antes de rumar e enfrentar a capital.

Luanda. Terra de excessos e contrastes, amores embriagados de uma noite só, de sembas, quizombas e tarrachinhas, de kuduro, zouk e de todas as batidas que sejam audíveis em pelo menos quatro quarteirões. Resumindo, adorável lar doce lar.

“Acabando esta cartinha vou-me divertir um pouco com basquete feminino que de vez em quando também é acontecimento cá na terra. Aquilo só serve para mandar umas bocas e pouco mais, pois de basquetebol nada se vê.”

Pelos vistos, a vossa secção era mais comedida na ocupação dos tempos livres. Ir ao futebol, ao rio ou só andar de carro nas ruas geométricas e planas de Luena, e umas passas à noite para ver as estrelas (que pena só saber disso agora), iam ajudando a passar as folgas, enquanto vocês marcavam na folha do aviãozinho os dias que faltavam para regressar a casa.

Malange. Na minha primeira longa viagem de estrada tive um cheirinho a casa. Praticamente dois dias enfiada num carro com gente da nossa terra, que vim encontrar a mais de 6000 Km de Ovar e que trouxeram o sabor do nosso mar.

Cabinda. Viagem com um camarada no Maiombe, a segunda maior floresta tropical do mundo que se estende por mais três países. Apesar da escassez do tempo, do ataque dos mosquitos e das picadelas por todo o corpo, aquela imensidão e o “mar” de verde (e o resultado negativo à malária) valeram tudo.

Não pude deixar de rir com o relato escrito dos efeitos do paludismo. Mudam-se os tempos, mas não muda o (o cabrão do) mosquito. “É esta merda que me irrita nesta doença. Um gajo parece estar porreiro e passadas umas horas sobe-nos um febrão à mioleira que atira um mortal para um canto.”

Zaire. O rescaldo do surto de cólera levou-me ao Norte de Angola, mesmo lá na pontinha, onde o país toca com o Congo, que se intromete entre as províncias de Zaire e Cabinda.

Benguela. O que se passa em Benguela, fica em Benguela. Mas que foi (é) lindo, foi (é). Pena as bebidas que estavam minadas (juro!).

Moxico. Parei à porta da Rádio Clube de Moxico, em Luena. Queria entrar para adivinhar mais desses inícios dos anos 70, em plena guerra colonial, quando essa rádio foi um dos meios de propaganda usados pelo regime português. Queria imaginar como se descobre a paixão da rádio através de uma mensagem na qual não se acredita. Foi isso que aconteceu há 45 anos, não foi? Ouvi dizer que quando emitiam o programa escolhiam a vossa própria música e foi assim que foram para o ar algumas canções mais ou menos clandestinas. Pena que o bichinho tenha ficado lá (aqui) enterrado. A ironia, essa, foi sempre uma constante:

“O meio sonoro aéreo saiu duas vezes este mês e tornou a estragar-se. Que chatice, não achas? Lá terá que ser de novo evacuado para Luanda. (…) A ‘pancada’ desta vez foi a valer e deu-lhe o ‘peido mestre’ (desculpa os termos...)”

Bié. A campanha das eleições de 2017 estava ao rubro nessa semana. Uma comitiva da UNITA na chegada ao aeroporto do Huambo, mesmo ao lado do comício do MPLA, marcado para o dia seguinte. Depois seguiram todos para Bié. Eu também, mas nessa semana febril e sem forças no corpo. E sem cabeça nenhuma para propagandas.

Apesar de tanta viagem de avião, ainda não perdi o medo aos céus. Quando estou no ar, por vezes vem-me à memória aquela história que ouvi lá em casa. O monomotor em que seguiam com o “aparelho sonoro aéreo” para gritar propaganda parou no céu e veio aos trambolhões pelo céu abaixo até roçar nos arvoredos e o motor voltar a roncar e evitar por um triz o solo. Isso foi uns cinco meses antes do regresso definitivo a casa, em Março de 1974. Precisamente, quatro anos antes de eu aparecer nas vossas vidas.

Querido Litos,

No dia em que escrevo estas linhas, faz precisamente 44 anos do vosso casamento, lembrou-me hoje a tua “queridinha”, enquanto a convencia a mostrar-me mais cartas e aerogramas. Um de Setembro de 1973, casamento em São Jacinto, onde anos depois iríamos todos acampar nos verões e donde vêm as minhas primeiras memórias de gente.

Hoje vou sair e celebrar tudo isto nesta boa e brava terra que me acolheu.

Ah, antes que me esqueça, a família entretanto cresceu. Já não sou a mais nova. Há mais seis adoráveis pestinhas e mais um pequenino está a caminho. Vocês aí ficariam orgulhosos.

Saudades. Muitas.

Mariana

“VOU-ME EMBORA (…) Como facilmente calculas quando abri um dos aerogramas e li aquela merda desatei aos saltos e aos berros na secção com o capitão a olhar para mim com cara de parvo e eu a CAGAR NELE MUITO DE ALTO”

Mariana Palavra

Mariana Palavra

LUANDA, ANGOLA - Mariana Palavra nasceu em 1978 junto ao mar, em Ovar. Cedo sonhou ser estrangeira. Migrou primeiro para Coimbra para estudar jornalismo. Depois de uma passagem tímida por algumas redacções em Portugal, aterrou em Macau em 2002 para trabalhar na televisão local. Do Oriente para as Caraíbas em 2009. Um ano na rádio da ONU no Haiti (e um terramoto) depois, trocou o jornalismo pelo trabalho humanitário Desde então já passou pelo Nepal (e por mais um terremoto), pelo Myanmar e vive agora em Angola.