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O terrorismo aqui ao pé

Nós lá fora

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE - A sensação de relativa segurança e de bem-estar económico que se vive em Santiago não é de todo representativa da situação real de algumas partes do país ou do nível de conflitualidade com que essas comunidades vivem localmente

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No passado sábado dia 19 de Agosto acordámos por aqui com a notícia de que nessa madrugada tinham sido incendiados 18 camiões que prestam serviços à empresa alimentar Lucchetti, perto de Temuco, capital da Araucanía. No local do ataque foi encontrado diverso material pertencente ao grupo Weichan Auka Mapu, que em português significa "Luta do território rebelde”.

Isto aconteceu uns meros dias depois dos atentados de Barcelona. Quando se vêm as notícias da Europa (ou do resto do mundo, para falar verdade) aqui no Chile parece tudo muito longínquo. Creio que os chilenos partilham com os portugueses essa sensação de segurança artificial de que que vivem, não “num jardim à beira mar plantado”, mas certamente numa ilha, protegidos pelos Andes e pelo Pacifico, longe de tudo o que de mal acontece no mundo. Outra característica que também creio que partilham com os portugueses, vá; com os lisboetas, é tomarem a visão do país que se tem desde a capital e acharem que essa realidade é representativa do resto do país. Eu cresci a ouvir dizer que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem… mal comparado, o Chile tem cerca de 18 milhões de habitantes e aproximadamente 8 milhões vivem na Região Metropolitana de Santiago. O problema é que a sensação de relativa segurança e de bem-estar económico que se vive em Santiago não é de todo representativa da situação real de algumas partes do país ou do nível de conflitualidade com que essas comunidades vivem localmente.

Uma semana depois do ataque aos 18 camiões, no dia 28 de agosto, um novo atentado queimou 29 camiões para transporte de madeira pertencente à empresa florestal Arauco, na localidade de San José de La Mariquina. O Fiscal Nacional (equivalente ao nosso Procurador Geral da República) já confirmou que o Estado Chileno irá solicitar a aplicação da lei anti-terrorista a este atentado.

A vida no campo não é tranquila por aqui. Nas regiões da Araucanía, Bio Bio e Los Rios convive-se com atos de vandalismo e de violência que são qualificados pelo Estado como atos terroristas e que como tal têm vindo a ser julgados pelos tribunais.

Estes atos de violência estão relacionados com o chamado conflito mapuche. Em rigor, para entender este conflito teríamos de remontar à época da conquista espanhola, falar de Pedro de Valdivia e de Lautaro. Dos cercos de Valdivia e de Villarica, 200 anos de guerra só no período colonial. Mas, para abreviar um pouco, quando se fala atualmente de conflito mapuche no Chile, estamos a referir-nos ao conflito violento já no período da democracia, cujo início se assinala com um ataque incendiário a três camiões no dia 1 de Dezembro de 1997, em Lumaco, também na região da Araucanía. Na altura existia um conflito entre a empresa elétrica Endesa, grupos ecologistas e a comunidade mapuche que veria algumas das suas terras ancestrais inundadas pelo projeto de uma barragem, o caso Ralco.

Desde então, vários governos foram procurando soluções para um povo originário que reclama os seus direitos. A maioria das reivindicações prende-se com a restituição de terras ancestrais, representação no parlamento e a criação de um ministério para os povos indígenas, contudo alguns sectores mais radicais reivindicam a autodeterminação relativamente à República do Chile. São já 20 anos de conflito, 20 anos de ocupações de terras cuja propriedade é disputada pelas comunidades mapuche. 289 camiões incendiados desde o início do conflito (89 camiões só em 2017), máquinas agrícolas e também igrejas. Em 2016, foram incendiadas 18 igrejas e neste ano ascendem já a 22 os templos incendiados. Os números mostram uma escalada da violência com o passar dos anos. O momento mais duro deste conflito ocorreu em 2013, com o ataque a uma propriedade agrícola que terminou com o assassinato do casal de agricultores Luchsinger-Mackay.

Os agricultores e os empresários da região sentem-se abandonados pelo Estado que falha em os proteger. As comunidades mapuche sentem-se também abandonadas pelo Estado que tarda em encontrar uma solução definitiva para as suas reivindicações. Por vezes a imprensa local chama de presos políticos aos presos mapuche. Alguns casos chegaram a ser apresentados perante o Tribunal Interamericano de Direitos Humanos, que condenou o Chile por considerar que as sentenças desses casos se fundamentavam em estereótipos e preconceitos contra a etnia mapuche. Ativismo não é certamente equivalente a terrorismo e os atos de violência como os das últimas semanas em nada contribuem para uma opinião pública favorável à causa mapuche. Não pretendo tomar partido nesta disputa. O respeito pelos povos indígenas e a sua coexistência dentro de um Estado de Direito é um equilíbrio difícil de conseguir entre a integração e a assimilação, o que vai muito além da restituição de terras ou de outorgar discriminações positivas para facilitar, por exemplo, o acesso ao ensino superior. Sei também que um país que convive com atos de terrorismo interno tem um problema com a qualidade da sua democracia...

Como referi acima, vários governos foram procurando soluções para este conflito ao longo dos últimos 20 anos. Em ano de eleições presidenciais e com a escalada da violência na zona, os candidatos incluíram propostas para a Araucanía nos seus programas. Todas as partes envolvidas parecem concordar numa coisa: que este é um tema “País”, ou seja a solução terá de ser uma de continuidade e ser independente do governo de turno.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 150 dias aproximadamente...

Nas notícias por aqui: Vem aí o 18!!! Nos telejornais fazem-se reportagens sobre a oferta de grelhadores no mercado, para que ninguém fique sem “su asado” nestas Fiestas Patrias...

Sabia que por cá…. As crianças gostam de comer pão com manjar ao lanche (manjar é como no Chile chamam ao dulce de leche)

Um número surpreendente: 5,000 pesos chilenos é quanto custa uma salada na tasca da esquina aqui da minha rua. Já um bife com ovo a cavalo e batata frita no mesmo estabelecimento custa apenas 4,300 pesos.

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.