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Querida Macau...

Nós lá fora

Filipa Araújo

...acordaste cheia de coragem. Magoada, destruída, de luto. Acordaste imunda, mas pronta para te mergulhares nas águas mais transparentes de mundo. Pronta para abandonar o velho, o estragado e plantares a semente. Uma nova semente.

Sofia Mota

Há dias em que acordamos desanimados, que o amanhecer de um novo dia não chega para enchermos o coração de esperança, para acreditarmos que o mundo pode ser diferente, que nós podemos ser diferentes.

Há dias em que acordamos e queremos de imediato fechar os olhos e adormecer profundamente. Tão profundamente que só acordamos meses depois, anos até, quando tudo tiver passado. Quando as estantes das nossas vidas estiverem arrumadas, quando as janelas tenham vidros, quando o vento seja apenas uma brisa, quando as ausências estejam esquecidas e quanto tudo volte a cheirar a casa.

Mas tu, Macau, minha querida Macau, acordaste cheia de coragem. Magoada, destruída, de luto. Acordaste imunda, mas pronta para te mergulhares nas águas mais transparentes de mundo. Pronta para abandonar o velho, o estragado e plantares a semente. Uma nova semente.

Sofia Mota

Acordaste para nos dizer que há sempre um amanhã, um recomeço muitas vezes atrapalhado e confuso, mas há sempre uma nova oportunidade. Quiseste, com Hato, a tua paixão de verão, dizer-nos que em instantes somos um número, uma casa vazia, que somos do peso de uma pena. Leves de tão pequenos e frágeis que somos.

Choramos os que levaste contigo. Aqueles que nunca mais serão vistos, que pediram a tua misericórdia. Em vão. Deixaste outros sem tecto. Assustaste muitos e deixaste-nos a todos no escuro. Como a mãe que castiga.

Que quem te ocupa te saiba dar valor, que perceba a tua língua. Que te fale suave e saiba aproveitar o que de melhor tens para nos dar. Um espaço para estar, um sítio para amar. Aqui, tão longe de todos, tão perto uns dos outros.

Querida Macau, que consigamos, mesmo depois da tragédia, no meio do caos, olhar e contemplar o teu tão raro céu azul.

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.