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Dream City

Nós lá fora

Rita Cruz

KUALA LUMPUR, MALÁSIA - Conduz-se aqui em mão e contra-mão, à velocidade que apetece. Estaciona-se em quinta fila, se for preciso, para poupar três metros de caminho. Fazem-se rotundas ao contrário, não sei se para poupar três segundos de tempo ou seis gotas de gasolina.

Há imagens que por uma razão ou outra nos ficam na memória, penduradas no tecto do nosso dia, insistentemente a roubar-nos o olhar do chão sem que entendamos bem porquê - porque na verdade, à superfície, pouco têm que contar. Por exemplo, um stand de vendas de um novo condomínio. Mais um novo condomínio. É verdade que o enquadramento deste stand é diferente do habitual. Está virado para um lago que apenas se vê através das escadas que descem para o gabinete de vendas. As escadas são ladeadas por duas colunas decoradas com trepadeiras e está um dia de sol, pelo que todas as cores e ingredientes lembram uma bucólica pintura mediterrânea: o azul do lago, o verde das trepadeiras, o cinzento de pedra das escadas e das colunas. O condomínio foi baptizado de Dream City, cidade de sonho. Bonito. Eu sigo caminho. Desvio o olhar do gabinete de vendas da Dream City e presto bem atenção para não espetar o pneu do carro no magnífico buraco que me aparece, à esquerda, na estrada de terra batida.

Do outro lado da Dream City acabaram de construir três mamarrachos baixinhos, talvez apenas 20 andares - tenho de me lembrar de contar da próxima vez. Estão virados também para o lago mas o enquadramento é diferente. Ao estar alguns metros acima do solo, deixa o olhar alcançar a rede de estradas, em várias camadas de viadutos de betão, congestionadas a maior parte do dia, que se estendem de ambos lados, atrás e só não à frente porque a estrada esburacada de terra batida é, por enquanto, evitada.

Quase a chegar a casa, dez minutos depois, vejo outro lago, à volta do qual foi construído o empreendimento onde agora vivemos - mudámos de casa há um mês, para manter a rotina de não ficarmos no mesmo sítio mais de um ano. São na verdade dois empreendimentos, sendo o nosso o mais recente. Casas em banda ou geminadas, de três pisos. Todas idênticas, variando apenas o tamanho do espaço que têm à volta, a inclusão de elevador dentro de casa, parque de estacionamento na garagem e, claro, a vista. Para o lago ou para o vizinho. São 99 casas no nosso empreendimento, mais de 200 no outro. A maior parte delas terá sido comprada, mas mais de metade está vazia, com papéis a taparem os vidros, piscinas a escurecerem, erva a crescer pelos muros. Os proprietários não querem arrendar, porque pretendem vender, quando o preço aumentar. Pergunto-me se não avistam os guindastes que espreitam em todos os horizontes desta cidade; as Dream Cities à espera de novos compradores; os grandes condomínios longe da máxima ocupação; os empreendimentos de cinquenta andares que não passaram da fase dos alicerces por não encontrarem interessados. Parece que não.

O proprietário da nossa casa, que vive no mesmo condomínio, hesitou em alugar. Também comprou para investir e para vender e, se não lhe tivéssemos nós aparecido à frente do portão, provavelmente também deixava a casa entregue a si própria até esse glorioso dia no futuro em que ela vai valer muito mais do que vale agora. Mas os expatriados ocidentais têm muito boa reputação aqui e ele cedeu. De modo que até uma cozinha, desenhada por mim, ele esteve disposto a pagar… depois de uma boa dose de negociação e enfim, agora que já lá estamos e usufruímos do resultado, alguns atalhos onde poupou uns tostões. A não ser que a situação profissional do Roger se altere, estamos presos a esta casa por dois anos, pelo que vamos mesmo quebrar, finalmente, a rotina.

Viver nesta nova casa, e neste outro bairro, implica sair da zona de conforto dos expatriados. Além de nós, só há três outras famílias estrangeiras aqui. A dez minutos a pé, há uma zona comercial com vários restaurantes, cafés e lojas que vão do cabeleireiro ao supermercado, passando pela loja de brinquedos e de móveis. Tudo muito local e malaico, pouca gente a falar inglês, restaurantes só de comida típica, cafés e bares sem álcool. Nada de tapas espanholas ou pizzas em forno de lenha, cervejas de artesão, cafés de boutique com lattes e capuchinhos (minto, há uma pastelaria!). Aqui bebe-se o thé tarik e o Kopi e come-se Roti Chanai ao pequeno almoço, muito obrigado.

De tudo isto, contudo, talvez o mais local, o mais típico, esteja no meio da estrada. Fora do enclave expatriado, há naturalmente menos expatriados na estrada. E, sem eles, menos atenção a regras de trânsito que são um aborrecimento e fazem perder tempo. Conduz-se aqui em mão e contra-mão, à velocidade que apetece. Estaciona-se em quinta fila, se for preciso, para poupar três metros de caminho. Fazem-se rotundas ao contrário, não sei se para poupar três segundos de tempo ou seis gotas de gasolina. Cadeiras de bebé ou criança são acessório dispensável, uma vez que ambos adoram viajar nos lugares da frente e brincar no tablier. As motas transportam a família toda, da avó ao bebé, todos sem capacete e a fazerem inversão de marcha na auto-estrada - o que, por sinal, é permitido. Muito frequentemente aparecem sapatos esquecidos no asfalto e eu muito frequentemente faço por não pensar como ali vieram parar. Nada que não se visse já em Mont Kiara, mas como digo, a percentagem aqui é diferente.

Tudo isto passa diariamente frente aos meus olhos, ainda ligeiramente espantados, com uma esquadra de polícia a poucos metros. Mas eis senão quando sou eu que a polícia pára um destes dias, quando sem prévio aviso a faixa da esquerda passa a ser apenas para virar à esquerda e eu quero seguir em frente e sigo, depois de civilizadamente o indicar. Luzes cintilantes atrás de mim, dois polícias muito sérios e cheios de razão a ameaçarem uma multa. A ironia da situação não me fugiu e utilizei-a até ao cansaço. Sim, cansei os dois policias com argumentos que andaram à volta tantas vezes que o senhor, já ele também com a cabeça a andar à roda e já não tão sério, me deixou seguir com um aviso e um “you’re very pretty Madam, don’t have an accident!” Vou fazer por isso, senhor polícia. Entretanto cuidado, que vem aí uma mota em contra-mão, ali mesmo ao pé da Dream City!

Rita Cruz

Rita Cruz

KUALA LUMPUR, MALÁSIA Rita mudou-se em Julho para a Malásia, deixando para trás a Austrália onde viveu dois anos. Já montou casa em várias partes do mundo. É fisioterapeuta, mas trabalhou durante vários anos no ramo dos Direitos Humanos e ajuda humanitária. Tem dois filhos pequenos, de 2 e 4 anos.