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Sofia Silva Eastmond

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Christchurch, Nova Zelândia

Filhos felizes

Nós lá fora

Sofia Silva Eastmond

NOVA ZELÂNDIA - É natural tentarmos fugir aos erros com tudo o que podemos. Mas esta é uma batalha que não se ganha. Por mais que nos façamos prisioneiros do mito da perfeição parental, também os nossos filhos vão ficar marcados para sempre pelas nossas falhas

Camila Xavier

Em qualquer parte do globo, fazer o melhor possível pelos filhos é a missão de qualquer mãe ou pai consciente.

Tentar ir além das limitações da geração anterior, também.

Na verdade, também os nossos progenitores nos criaram com a intenção de quebrar barreiras e melhorar a forma de fazer as coisas herdadas dos seus.

Os nossos avós fizeram o mesmo com os nossos pais. Os nossos filhos também o farão connosco.

É esta a dança das gerações.

Independentemente do quanto amemos os nossos pais, e do trabalho excelente que tenham feito (é certamente isso que sinto pelos meus), há momentos dolorosos que, se tivéssemos a escolha, apagaríamos das nossas memórias para sempre.

Muitos desses momentos fazem de nós o que somos hoje, é certo. E podemos até encontrar justificações plausíveis que nos adormeçam as feridas. Mas, se tivermos a coragem de dizer a verdade, daríamos tudo para que não tivessem existido. Pelo menos até lidarmos totalmente com o impacto profundo que deixaram.

É natural querermos proteger os nossos filhos da mesma experiência e tentarmos fugir aos erros com tudo o que podemos. Mas esta é uma batalha que não se ganha. Por mais que nos façamos prisioneiros do mito da perfeição parental, também os nossos filhos vão ficar marcados para sempre pelas nossas falhas; também eles vão desejar que tenhamos feito algumas coisas de forma diferente. Vamos sempre cometer erros.

Mas o lado ingrato da parentalidade, às vezes tão difícil de navegar, vem com uma missão única. A ser aceite, tem uma importância extrema; a de pôr fim à dor pessoal, para que a geração seguinte não a viva. E, ainda mais crucial, a de contribuir para a reparação dos erros da nossa história colectiva, para que, também estes, não sejam perpetuados.

Esta missão não é para os mais fracos. Por mais que não queiramos admitir, às vezes é mais fácil escondermo-nos do passado, enterrarmos o que queremos esquecer e justificarmos as nossas acções, do que mexermos nas feridas.

Também é preciso muita coragem para mudarmos o curso da história. Assim se explica como a violência doméstica e outras expressões de violência e intolerância que vemos à nossa volta prevalecem. Também explica o estado do mundo e é assim que se repete a história.

A dor que não se examina (pessoal e colectiva), é infligida à geração seguinte. É um ciclo vicioso.

A oportunidade da missão parental é independente da geografia. Os problemas que nos afectam aqui são apenas uma versão do problema global. Também aqui se critica a geração de millenials, os pais helicóptero, os pais que deixam os bébés chorar. O sistema de educação, o estado da economia, o estado do ambiente, as decisões do governo, a imigração.

Só que com uma vantagem; a bagagem histórica da Nova Zelândia, apesar de ser marcada fortemente pela guerra, tem apenas 700 anos (e menos de 200 de colonização europeia). A população também é menor, o que torna a oportunidade de mudar o rumo das coisas mais tangível, mas, claro, nem por isso mais fácil.

Como se põe fim à dor de uma geração? Passa primeiro pela coragem de a enfrentar e de mergulharmos na vulnerabilidade que se segue. Mas o ingrediente mais forte é mesmo a compaixão pela geração anterior, por nós próprios, e pela geração seguinte. Afinal, todos fazemos o melhor que podemos com a vida que temos.

O resto é feito de decisões, momento a momento, que, ou contribuem para o prevalecimento do status quo, ou para a criação de um futuro diferente.

Mesmo a infância mais feliz apresenta esta oportunidade.

Os nossos pais foram os heróis que tiveram a coragem de nos tratarem de forma mais justa e aberta do que foram tratados pelos nossos avós. Nós seremos os campeões da expansão dessa abertura e amor. Os nossos filhos irão além das nossas limitações. E cada geração foi e será responsável pela resolução dos maiores problemas da história (pessoal e colectiva), e, paradoxalmente, a criação de problemas novos.

A parentalidade é um veículo poderoso de mudança. Criar seres humanos melhor, cria, inevitavelmente, um mundo melhor. Uma família de cada vez.

Uma vénia às mães e pais conscientes deste mundo. E o reconhecimento e admiração que lhes é devido.

Sofia Silva Eastmond

Sofia Silva Eastmond

Christchurch, Nova Zelândia

Cidadã do mundo, deixou Portugal em 2005 para arriscar uma carreira em Londres e fugir ao status quo. Mudou-se para Christchurch, na Nova Zelândia, por amor, há quase 9 anos, onde vive com o marido “kiwi” e as filhas. Tem uma carreira de sucesso no mundo do software online, onde começou como Directora de Marketing e Vendas e, em anos mais recentes, Chief Operating Officer na empresa australiana www.saasu.com. Em 2013 criou o projecto Goddesses in The World, que começou com o festival FemFiesta em Christchurch, apoiado pela autarquia local. No final do ano passado, o projecto tornou-se na comunidade online www.goddessesintheworld.com, dedicada a celebrar as mulheres. Ocasionalmente, faz projectos de consultadoria para pequenas empresas, com foco em marketing e processos. Além da paixão pela escrita, faz costura, lê, dança, viaja e explora o mundo.