Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A garrafa dada não se olha ao rótulo

Nós lá fora

José Augusto Pinto

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA - Este pequeno episódio revela um pouco de um comportamento muito russo – a rápida passagem da raiva ao perdão, a consciência do valor próprio, a crueldade que pode andar de mãos dadas com a generosidade

A meia-luz da sala descia suavemente sobre a mesa repleta.

Dir-se-ia uma natureza morta, ou uma pintura de género de qualquer fausto de burguesia mercantil de uma Holanda.

Assim estava composta a mesa.

A vodka fluía como um rio, complementando o caranguejo de Kamchatka e os restantes manjares que a terra russa havia colocado à nossa disposição.

Rodeado de velhos amigos, o meu anfitrião desdobrava-se em elogios, pequenas histórias e simpatia geral pelos seus convidados.

Como bom russo, tornava-se mais afectuoso e sincero com o passar do tempo (e dos cálices...).

Neste jantar eu era mais espectador que participante, já que o meu pobre russo e o paupérrimo inglês dos restantes convidados não permitiam que se chegasse ao proverbial meio do caminho.

Eu, qual debutante virginal, sorria misteriosamente e tratava de deixar que a vodka, qual Espírito Santo descendo sobre os apóstolos, aprimorasse a minha verve.

Debalde.

A celebração continuou entre risos e comedorias, e parecia dirigir-se para um final inteiramente normal.

Antecipando a partida dos convivas, o chefe de sala chegou para presentear o anfitrião com uma atenção por parte do restaurante em sinal do reconhecimento das suas lucrativas e frequentes visitas. O homem entrega respeitosamente um saco de papel com a marca do restaurante contendo duas garrafas de vinho tinto.

O anfitrião recebe as garrafas e agradece.

Até aqui, tudo normal. Creio que semelhante situação em Portugal em nada teria sido diferente.

O melhor estava, todavia, para vir.

O meu anfitrião retira as garrafas do invólucro, lê os rótulos com atenção e chama o chefe de sala de volta.

Para surpresa geral, disse-lhe que não as aceitava.

Era um cliente valioso e não podia aceitar como prenda um vinho de baixa qualidade. O chefe de sala tentou dissimular a surpresa e indignação perante gesto tão inusitado, sorria nervoso sem saber o que fazer.

Fazer valer a honra da casa com orgulho? Ou antes aquiescer um cliente importante e engolir a humilhação?

Os convivas partilhavam a perplexidade do funcionário. Um senhor idoso declarou a situação inaceitável, outros instavam-no a aceitar o presente, e outros meramente sorriam com a peripécia.

O funcionário retirou-se e voltou com garrafas melhores.

O anfitrião examinou o novo presente, e já satisfeito agradeceu ao chefe de sala a atenção, abraçou-o e desculpou-se pela crispação anterior.

Amigos como dantes!

A mesa respirou de alívio, e eu também, até porque estava cansado e com vontade de ir para casa, o que fiz não sem um certo alivio.

O que dizer disto? Como julgar? E com que olhos?

Um gesto petulante de novo-rico, ou um homem a fazer valer o seu justo valor?

O que tem mais valor? Aceitar um presente miserável com fingida gratidão, ou reclamar aquilo que é nosso por direito?

Este pequeno episódio revela um pouco de um comportamento muito russo – a rápida passagem da raiva ao perdão, a consciência do valor próprio, a crueldade que pode andar de mãos dadas com a generosidade.

Os russos aceitam facilmente comportamentos cruéis, desde que sejam também acompanhados de justiça. Um pai justo tem o direito de também ser severo.

No final ganhei um novo respeito por este homem.

Sendo eu originário de uma cultura latina, onde muitas vezes os gestos têm mais importância do que a substância, e “a cavalo dado não se olha ao dente”, acho que prefiro alguém com a ousadia de se queixar de algo que recebeu de graça, mostrando saber exactamente quanto vale.

José Augusto Pinto

José Augusto Pinto

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA José Pinto, 41 anos, casado, 2 filhos, a residir em São Petersburgo desde 2013 com a família. Publicitário de profissão, já viveu no Cazaquistão, Alemanha e Reino Unido. Apaixonado por marcas e um crente indefetível na liberdade individual, economia de mercado e liberalismo, procura nos seus diferentes destinos ver as coisas como elas são, sem complexos de civilizador ou expatriado, procurando em tudo uma centelha de verdade e ironia. Sofre de alopécia.