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Ilusão tecnológica

Nós lá fora

Filipa Araújo

MACAU - Acreditar que a internet nos uniu é acreditar numa ilusão. A tecnologia não nos trouxe a proximidade, ajuda-nos apenas a lidar com a saudade

O que nos torna diferentes daqueles que depois de emigrados ansiavam as cartas de Portugal? Que sabor nos trazem as chamadas no Skype, os infinitos grupos no Whatsapp e os likes nas fotografias no Facebook? De que nos adianta dizer que sentimos saudades, e sentimo-las, profundamente, quando somos gradualmente esquecidos, apagados do dia-a-dia, das festas de aniversário, das despedidas de solteira, dos casamentos. Quando o nosso nome vai perdendo a cor viva da caneta e passa a escrever-se apenas como lembrança.

Acredito na existência de dois tipos de emigrantes: aquele que nunca se desliga de Portugal, que vive a pensar nas férias, que todos os dias “liga para casa” e sofre, imensamente, com as saudades que carrega aos ombros. Depois, aquele que ignora a distância. Mete tudo o que foi numa caixa, fecha-a com fortes cadeados e coloca-a no alto de uma estante. Longe do alcance de quem quer que seja.

Acredito de forma muito profunda, que não podemos viver amargurados e que há dois mundos que não se misturam, este, o que Macau é, e esse, o que Portugal foi. Sou optimista por nascença e confesso que o mundo português não ocupa parte do meu dia-a-dia. A vida de Macau ocupa-me a mente e o coração, as suas pessoas, a confusão dos seus dias, as mudanças meteorológicas repentinas. O tempo passa muito rápido em Macau. Ninguém sabe explicar porquê, mas somos todos cúmplices nesse sentimento. Temos todos a sensação de que o tempo voa por aqui. Terra sempre acordada. Terra que nos tira o sono.

Confesso-me. Com o passar do tempo deixei de pensar em alguns amigos que ficaram em Portugal. Com o tempo, com o hábito, com a absorção de um novo mundo. Macau tem esse poder, mostrar-se diferente mas sempre igual. Baralhando-nos as ideias. Os meus amigos também deixaram de pensar em mim, a frequência das mensagens começou a diminuir e uma ida a Portugal deixou de implicar um encontro. Faz parte, e é importante aceitarmos isso. Sem hipocrisias, sem dor.

O mundo tecnológico é uma ilusão quando duas pessoas não se querem cruzar, nem se esforçam para o fazer. E quando comparados com aqueles que, com uma mala de cartão na mão, outrora deixaram Portugal para trás, sem saber se algum dia voltariam, somos iguais. Somos feitos do mesmo, da mesma pele, da mesma carne, da mesma alma. Da mesma saudade.

Não há tecnologia que nos salve a saudade, não há tecnologia que nos dê o abraço, nem o sabor a pazes após uma discussão.

Acreditar que a internet nos uniu é acreditar numa ilusão. A tecnologia não nos trouxe a proximidade, ajuda-nos apenas a lidar com a saudade. Não a mata. Não a trata. Não a apaga. Não a cura.

Eu continuo a sentir falta de quem amo, do abraço da Joana, do tempo no sofá com a Ana, das piadas ridículas com o Carlos, de jantar com eles todos e bater palmas sempre que as sobremesas chegam, do olhar atento do Rui e do cheiro do pescoço da minha mãe. Não há tecnologia que me traga isso. A nenhum de nós.

Estava há pouco tempo em Macau quando um amigo, que fiz por cá, partilha comigo, de forma perfeitamente natural, que falava com a família de “três em três meses, talvez mais”. Achei horroroso. Mas eu sou eu, a melosa. Mas ainda assim perguntei-me: Quem é que passa tanto tempo sem falar com a família/amigos? Falar muitas vezes, disse-me ele, “não ajuda”. Achei que o compreendi. Achei mesmo. Mas agora, quase quatro anos depois redescobri o “não ajuda”. Ganhou um novo significado porque sinto-o. Bem dentro do peito.

De facto, as chamadas podem não ajudar...ou podem ajudar. É duvidoso. Há uma dualidade de sentimentos, porque nos divertem, mas também nos relembram quão longe estamos. Sim, claro, são momentos de felicidade, mas já está na altura de inventarmos o teletransporte, não?

Com o passar do tempo tenho sentido algum ressentimento, alguma tristeza, por parte de alguns amigos, ou até familiares. Percebam-nos, às vezes, para nós, é mais fácil. Tentar justificar o nosso silêncio torna-se uma dolorosa odisseia. E, por isso, a única certeza que vos trago é que o sentimento, o amor, o respeito e a amizade que vos temos, sempre que verdadeiros, jamais desaparecerão. Jamais. Garantia de emigrante.

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.