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Nós lá fora

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE - No Chile, tal como em boa parte das Américas, este discurso “nós e os outros” surpreende-me sempre

Daqui e dali é o título de um livrinho infantil ilustrado da editora Amanuta sobre a emigração e as contribuições que cada comunidade que chegou ao Chile fez para a cultura e modo de vida chilensis – os alemães trouxeram bolos, os italianos sabiam fazer sapatos, os turcos vendiam têxteis e por aí fora.

Podia escrever uma crónica inteira dedicada ao livro ilustrado infantil e juvenil na América Latina, pois encontram-se verdadeiras pérolas por aqui. No entanto, venho falar-vos sobre emigração. Parece que o tema está na ordem do dia um pouco por todo o mundo e aqui no Chile com eleições presidenciais à porta, também não é exceção.

Para além da dimensão económica do fenómeno, falar de emigração passa invariavelmente por falar de identidade nacional e da descoberta do outro. Ou falar de preconceitos, quando o discurso se faz desde o medo...

No Chile, tal como em boa parte das Américas em que a grande maioria dos países não tem mais do que dois séculos de história independente, este discurso “nós e os outros” surpreende-me sempre um bocado pois é evidente que até há bem pouco tempo todos eram dalgum outro lugar – daqui e dali, como no livrinho infantil. Basta olhar para os apelidos por detrás de alguns dos maiores grupos económicos chilenos: Saieh, Luksic, Angellini, Solari... a própria Presidente da República, Michele Bachelet tem um apelido de origem francês. Um dos candidatos presidenciais nas primárias pela Direita tem apelidos alemães por parte de pai e de mãe.

Parece, contudo, que uns são mais emigrantes do que outros. Ouvi uma vez num documentário, um padre jesuíta que trabalhava com comunidades emigrantes no norte do Chile, dizer que no Chile chamam emigrantes aos peruanos e aos bolivianos (bem como agora aos haitianos e venezuelanos que estão a chegar), enquanto que aos europeus lhes chamam expatriados. Os preconceitos são tramados, pois nem todos os europeus que aqui chegam têm cursos superiores, qualificações particulares ou sequer contratos de expatriado. Do mesmo modo nem todos os sul americanos são necessariamente pouco qualificados. Quando solicitei a residência definitiva calhou-me esperar na PDI (departamento da polícia com responsabilidades parecidas às do SEF) ao lado de um senhor colombiano que operava uma máquina bastante especifica para abrir os túneis do metro. Esteve a mostrar-me fotos das obras de ampliação do metro na hora e tal que estivemos ali à espera. Da mesma forma que nem todos os venezuelanos são 100% venezuelanos, 100% estrangeiros. Muitos serão, como uma colega de trabalho, descendentes de chilenos, famílias que fugiram do Chile nos anos 70 e que agora fruto da situação na Venezuela estão a regressar ao país dos pais ou dos avós. Vêm os filhos e os netos, os pais e os avós, esses, já não suportam a ideia de largar tudo outra vez e partir. Decidem ficar na Venezuela, pase lo que pase. A sensação de que a história se repete e de que tudo é realmente efémero é muito forte deste lado do mundo.

Eu tive uma professora de história no liceu que depois de passar uma aula a explicar-nos todas as invasões da Península Ibérica, os fenícios, os gregos, os romanos, godos, visigodos, celtas e celtiberos, no final da aula perguntou: “Bom, então os portugueses são o quê? Os portugueses são uma grande salada russa! “. A nossa salada russa foi-se consolidando ao longo de séculos até já nem pensarmos muito sobre isso. Escrevo esta crónica no rescaldo do 10 de Junho e dos Santos Populares. Parece que atualmente se misturam um pouco as duas coisas, porém há não muito tempo, o 10 de Junho era também o dia da Raça. Falar de raça na Europa é um assunto espinhoso e tanto mais quando se está a falar de emigração. Deste lado do mundo, aconteceu-me um dia apanhar um táxi na rua com o meu filho ainda bebé e o taxista - esses grandes barómetros do sentir nacional -perguntou-me quase de imediato de onde eu era. Lá disse que era de Portugal, ao que ele se surpreendeu porque me achava com cara de ser lá mais do norte da Europa. Confesso que acho desconfortável esta circunstância de me identificarem quase sempre como estrangeira, mesmo antes de eu abrir a boca, e lá ofereci para mudar o curso da conversa de que eu sou estrangeira, mas o meu filho já nasceu aqui e é chileno. Resposta do taxista: Assim tão loiro, olhe que bom! Está a ajudar a melhorar a raça! Bouuummm! Assim, sem filtro, ajudar a melhorar a raça! Diabos, mais valia ter falado do tempo! Grandes mostras de patriotismo nas festas de setembro, mas grande insegurança como nação também. Preocupação pelos emigrantes que chegam, mas grande desconforto sobre quem somos como povo. Suspeito que podíamos escrever um tratado de ciências sociais sobre isto. Só espero que daqui a uns anos, se fizerem uma reedição do tal livrinho infantil e decidirem incluir também os portugueses, não digam só de nós que contribuímos para esta pátria chilena a fazer filhos bonitos...

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: perdi a conta, vou passar o Inverno inteiro aqui enquanto lá em Portugal é verão e se comem caracóis nas esplanadas...

Nas notícias por aqui: A seleção chilena de futebol, a seleção chilena de futebol, a seleção chilena de futebol, ah esperem! Parece que também houve eleições primárias para as presidenciais.

Sabia que por cá… As telenovelas turcas são sucesso de audiências.

Um número surpreendente: 1 ano!!! A rubrica “Nós lá fora” está a fazer um ano de crónicas!

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.