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NAGOYA, JAPÃO - No dia 1 de julho foi oficialmente aberta a época balnear no Japão

Quase todas as mulheres do mundo ocidental se esmifram para ter um ‘corpo de verão’. Alimentam-se de bifes de beterraba, papas de aveia com sementes de chia e batidos detox multi-vitaminados. Seguem dicas como: “perca pernas rapidamente” (mas há alguém que queira ficar sem pernas?!) ou “perca 5kg em 2 semanas sem esforço”. Estética afora, são persuadidas por pacotes ultra aliciantes que prometem “desinchar em 24h” ou “ficar sem pelos”. Andam numa luta entre as três folhas de alface por dia e o brownie que devoraram sem querer, entre as corridas desenfreadas e as drenagens linfáticas de última hora.

A oriente, tudo diferente. A mulher japonesa esmifra-se o ano inteiro, sem esforço. A genética, a cultura e os hábitos de vida desde o nascimento, concedem-lhe saúde, equilíbrio e longevidade.
Na lista dos 50 países do mundo com as taxas mais baixas de obesidade, por entre os que lutam contra a pobreza e a fome, destaca-se o Japão em 38º lugar.

Mas qual a razão do povo japonês ser tão magro?

Quase 3 anos após a minha chegada continuo à procura da resposta a um fenómeno que me intriga. É que estes ‘palitinhos’ comem, literalmente, por dois… ou até por três ou quatro!

O arroz (gohan) é a base da alimentação japonesa, presente de manhã à noite.

Considerado um alimento de extremo valor, chegou a ser usado como moeda para pagamento de impostos e para pagar os salários dos samurais. Ainda hoje é realizada uma cerimónia anual para agradecer a boa colheita e há também muitas empresas que premeiam os seus funcionários pelo bom desempenho com sacos de arroz.

Itadakimasu! – assim iniciamos cada refeição (bom apetite, em português).

O pequeno-almoço japonês, o asagohan (arroz da manhã), é uma refeição como o almoço (hirugohan) ou o jantar (yorugohan). Nela incluem sopa de miso, arroz, omelete, peixe, algas e vegetais. Adicionam uma malga de chá ou de café e estão prontos para pedalar todo o dia.
Eu já experimentei e, embora seja muito diferente do pequeno-almoço que me satisfaz plenamente, não me caiu nada mal.

Enquanto em Portugal a maioria das famílias não prescinde do robot de cozinha, aqui não sabemos viver sem a máquina de arroz. De grão branco e arredondado, quando cozinhado sem sal ou quaisquer temperos, fica brilhante e pegajoso, tornando-se fácil de comer com os hashi (pauzinhos). As máquinas mantêm o arroz quente todo o dia.

A primeira papa da minha filha, como portuguesa nascida no Japão que se preze, foi…? Isso mesmo, feita de arroz.

Seguindo para os acompanhamentos e em virtude da grande extensão litoral do país, o peixe, os frutos do mar e as algas são uma grande percentagem da alimentação dos japoneses que os consomem cozinhados, crus ou secos.

Antes de vir para cá, não me passava pela cabeça a oferta e variedade gastronómica.

Levei uns quantos meses a assimilar que o yakiniku (célebre rodízio de carne que significa carne grelhada) e o yakisoba (massa com carne e legumes) só tinham em comum a chapa onde são feitos. Que o takoyaki (bolinhas de polvo grelhadas) é totalmente diferente do karaage (pedaços de frango frito), que o ramen é uma espécie de sopa-com-todos e que mizu (água) nada tem a ver com “miss you”.

Uma das coisas que mais caracteriza um lugar e que a nossa memória retém por bastantes anos é o cheiro. Estas ruas cheiram às plantas dos jardins e aos petiscos que há a cada virar de esquina. Nelas há um infindável número de tascas, botecos, restaurantes que ocupam prédios inteiros, restaurantes cosy ou de nouvelle cuisine, comida dos mais variados países, cadeias de fast food, restaurantes típicos do sushi mais puro ou de fast sushi, muitos buffets, umas quantas barraquinhas de petiscos tradicionais e muitas “caranguejerias” (e porcarias também). Sentados ao balcão, em cadeiras ou no chão, com sapatos ou descalços, come-se maravilhosamente.

Se procurarmos um restaurante para almoçar e não soubermos o que nos apetece ou o que servem, podemos facilmente perceber o que têm através das montras e da incrível arte das réplicas da comida em PVC ou silicone. Dá-se o nome de Tabemono no Sanpuru (amostras de comida).

Ao entrarmos no típico restaurante japonês os sapatos ficam à porta. Cedem-nos uns chinelos, que só me fazem pensar no número de pés que já os calçaram (regra nº1: ter sempre umas meias na mala), e encaminham-nos para uma sala privada. A mesa está ao nível do chão e as almofadas confortam-nos o quadril. Nem sempre precisamos de estar sentados à japonês pois muitas mesas escondem debaixo delas um buraco para guardarmos as pernas (as que perdemos no início do texto).

Oferecem-nos água com gelo (em todo o lado a água é oferecida e servida gelada) e chá verde a ferver. Trazem-nos uma toalha bem quente para limparmos as mãos.

O menu é-nos entregue e quando quisermos fazer o pedido carregamos no botão-campaínha. De fundo ouvimos música oriental e, com alguma sorte, a nossa sala tem vista para um jardim interior. A senhora, sempre gentil e delicada, traz-nos o pedido e enche-nos a mesa de mini-travessas e mini-tigelas, tudo criteriosamente disposto. A conta é também entregue no início e colocada na ponta da mesa, voltada para baixo. Caso queiramos pedir mais alguma coisa, trazem outro recibo com o valor acumulado. Devemos comer tudo, até ao último bago de arroz.

No final, agradecemos a refeição com uma vénia de mãos unidas e um gochisousama deshita.

Contrastando com a delicadeza há a alarvice. Assim como os árabes arrotam exageradamente no final de cada refeição como sinónimo de satisfação, os japoneses sorvem as massas em caldo como se estivessem a aspirar um carreiro de formigas. É um festival!

Nos restaurantes de buffet livre temos 90 minutos certos para mostrar o que conseguimos comer – saladas, legumes, massas, pizzas, arroz, tempura, carne, peixe, tofu, sobremesas. É só escolher, sentar e assistir ao acumular de pratos na ponta das mesas. Como dizia o meu avô “cá dentro tudo se mistura!”.

Outra atracção gastronómica que ainda não visitámos são as estufas de fruta (morangos, tangerinas, melão, cerejas). Já tentámos diversas vezes mas requer marcação prévia. As visitas são sazonais e os dias disponíveis para comer fruta até cair para trás esgotam num instante.
Um casal amigo nosso foi recentemente a uma de morangos. Ela disse-nos, alegremente, que comeu 100 numa tarde (CEM morangos).

Como os doces ajudam à digestão, chegamos à parte da sobremesa.

São poucas as sobremesas típicas japonesas sem importação de conceitos. Existem apenas bolinhos feitos com pasta ou farinha de arroz (como o mochi) e muitos com pasta de feijão e chá verde. Do legado português ficou o Kasutera (o pão-de-ló).

Há um baixo consumo de açúcar na alimentação diária dos japoneses, no entanto, há uma clara influência da pastelaria francesa na concepção dos bolos, tartes, bolachas e pudins. São tantos, tão requintados e tão deliciosos! São também famosos os crepes, as panquecas e os gelados.
Das bebidas, as mais consumidas são o chá, o café e a cerveja.

É comum as amigas encontrarem-se para tomar chá e comer delicadas fatias dos mais variados bolos. Há uns meses, eu e uma amiga japonesa iniciámos algo diferente, um intercâmbio gastronómico. Eu ensino-lhe receitas portuguesas e ela ensina-me japonesas. Das nossas já aprendeu a fazer bacalhau espiritual e arroz doce.

Na verdade, os japoneses são verdadeiros apreciadores de comida. Respeitam e preservam o cultivo dos alimentos, a sua origem, assim como a mestria de os cozinhar e o seu aspecto antes de os ingerirem. É habitual vermos pequenos terrenos agrícolas, com hortas privadas e colectivas, espalhados pela cidade.

Mais do que apreciadores, diria que são obcecados. São capazes de percorrer quilómetros só para irem a um determinado restaurante e são capazes de passar um dia inteiro a comer num churrasco ao ar livre. O seu entusiasmo é tal que a maioria fotografa tudo o que come.

Depois é vê-los comer, comer, comer… e beber, beber, beber!

Despeço-me desta farta sopa de letras e desejo que a tenham apreciado tanto quanto eu gostei de a cozinhar.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal... 58

Nas notícias por aqui... O Japão revelou planos ambiciosos para colocar um astronauta na lua por volta do ano 2030. A ideia da Japan Aerospace Exploration Agency é juntar-se à NASA em 2025 a fim de construírem uma estação espacial na órbita da lua, como parte de um objectivo de longo prazo da NASA para alcançar Marte. O país espera partilhar a sua tecnologia e dar o seu contributo para o sucesso desta missão multinacional.

Sabia que por cá… é falta de respeito comer em andamento, assim como beber.

Um número surpreendente: 20 é a média anual dos tufões que passam pelo território japonês. Curiosamente, no dia em que entrego a crónica, vai passar o nº 3 de 2017.

A comida mais estranha que já provei... foi natto. O natto é uma pasta fétida, pegajosa e gosmenta de feijões de soja fermentados. Cheira pior do que sabe e sabe pessimamente! Dizem que é um super-aliado da longevidade e traz inúmeros benefícios para a saúde.

Catarina Oliveira da Costa

Catarina Oliveira da Costa

NAGOYA, JAPÃO Tem 34 anos e vive em Nagoya, no Japão, desde 2014. É designer gráfica e ilustradora freelancer. Começou a trabalhar numa agência de comunicação como designer e mais tarde entrou no mundo editorial, onde trabalhou como designer em várias publicações infantis e femininas. A Cosmopolitan e a Activa são as duas últimas equipas do coração. Casada, é mãe de uma menina com um ano. É apaixonada por desporto, moda, decoração e culinária.