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Nós lá fora

José Reis Santos

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BUDAPESTE, HUNGRIA - É tão diferente esta cidade da que conhecemos em Janeiro. E é bem interessante, para um lisboeta, assistir na bancada e participar neste agudo processo transformador

Budapest, 21 de Junho. Dia mais longo do ano. Raia o sol pelas 4 da manhã e o solstício leva-nos a luz para lá das 9 da noite, raro acontecimento num país alinhado com a hora de Vigo. O dia aquece até aos 30 e tal graus, e a cidade que antes se escondia em caves e casas escuras, repousa agora nos alegres kerts, esplanadas e terraços à disposição. Os fröccs e limonadas substituem as palinkas e os Unicums, assumindo - como a nossa sangria - posição-rainha nos gostos da nova estação. Milhares juntam-se nos parques e nas praças, e pela marginal junto ao Danúbio. É um mar de pic-nics improvisados, espécie de botellon Magyar andante que faz acompanhar com soda o vinho selecionado, debatendo que fröccs servir (existem dezenas de combinações entre os dois).

É tão diferente esta cidade da que conhecemos em Janeiro. E é bem interessante, para um lisboeta, assistir na bancada e participar neste agudo processo transformador. Recordo que acordamos o ano escondidos no branco e na cinza dos dias, agasalhados até ao tutano e tristes sem o entender. Devagar degelamos. Desconfiados vemos rebentar as primeiras cores, inicialmente tímidas, depois ensurdecedoras como um excessivo anúncio da Benetton. Chega a Primavera e saímos da toca. Todas. A cidade despe-se dos preconceitos do Inverno e assume com ansiedade o desejo de ar. Ar livre.

Agora, verão a pico, Budapest explode. É cidade em festa. Dezenas de festivais, concertos, eventos preenchem a nossa vida social. Como no ano passado, agora em versão fim de semana, a Szabadság híd (um dos ex-libris locais) fecha para receber os deambulantes sem destino, recebendo-os com Yoga, acrobacias, Salsa, e um dos melhores spots para ver o pôr-do-sol nas colinas de Buda. Em termos de macro-eventos, o Red Bull Air Race arranca já este fim de semana, seguido pelos campeonatos do mundo de natação (14 e 30 de Julho). Depois, já em Agosto, o imperdível e famosíssimo Sziget Festival (de 9 a 16), a Zambujeira do Mar cá do sitio (talvez umas quantas vezes maior), arranca com a força de 100.000 festivaleiros por dia. Finalmente, para fechar o Verão, o dia de São Estevão (20 de Agosto), feriado nacional mor, oferece a oportunidade de assistirmos ao melhor fogo de artifício do ano, pois manda a tradição que este se sincronize, visual e musicalmente, com as águas calmas do Danúbio e atraia populares à procura do melhor lugar na marginal logo pela fresca da manhã.

De seguida volta a encurtar, e a arrefecer. Secam as cores e vagarosamente murcha a vida com que antes dialogávamos. Muda o tom, e afinam-se novas cordas nesta pauta de 4 estações. Arrefece mais. Neva e voltamos para dentro. Em breve recomeça. Como tudo na vida.

PS.

Não podia deixar de apontar uma nota, esta triste, das noticias do meu país por terras magiares. O fatídico fim de semana quente em Portugal, por casualidade, passeio-o entre Budapest e Zilina, pequena cidade no centro-norte da Eslováquia perto dos Tatras. Fugindo à monotonia das auto-estradas, vaguei por estradas secundárias, entre pequenas vilas e florestas, verdejantes, à procura da melhor Koliba onde provar as delicias locais. De regresso à Hungria, ouvindo as noticias, percebeu o meu mau húngaro que algo se tinha passado a uns quilómetros de Lisboa. Chegado a casa, preocupado inteirei-me do pesadelo que vivemos. Pensei que tinha andado, por aqui, por tantas estradas semelhantes. Depois vi que, em 2015, houveram 1.069 incêndios na Hungria (4.730 ha ardidos), 242 na Eslováquia (352 ha ardidos) e 15.851 em Portugal (64.443 ha ardidos). Bem sei que tudo é diferente e tal, mas custa todos os anos ganhar este eurovisão. Esteve muitíssimo bem toda a estrutura da Embaixada portuguesa, colocando a bandeira a meia-haste, e o governo húngaro, prontamente apresentando as suas condolências pelo sucedido e se solidarizando com as vitimas. A eles o meu obrigado por prontamente intervirem.

José Reis Santos

José Reis Santos

BUDAPESTE, HUNGRIA - Comparativista. Talvez seja esta a melhor forma de me descrever. Quer como historiador, cientista político ou sociólogo amador. Neste sentido, tendo vivido e investigado em Madrid, Bruxelas, Nova Iorque, Inglaterra e agora Budapeste, tenho procurado articular pontes e ligações entre a sociedade civil, académica e política, de forma a retirar destes mundos (tantas vezes isolados) pontos de convergência e de comunalidade. Estar em Budapeste tem-me permitido acrescentar mais um ponto de observação, este proveniente da Europa Central, aos fornecidos por alguns dos lugares pelos quais tenho passado, partindo sempre desse berço de cosmopolitismo que é a minha Lisboa. Vivemos num mundo complexo, cheio de nuances e particularidades, falsa informação e algoritmos condicionadores, gente doida e perigosa, cheia de verdades e factos-alternativos, novos nacionalismos e disrupções sistémicas. Assim, quando mais procurarmos retirar do contacto com outras culturas e gentes, da sua literatura, história ou gastronomia, mais capacitados nos encontramos para entender um pouco (mais) o que nos rodeia.