Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Norte e Sul

Nós lá fora

Bruno Sousa

  • 333

DARMSTADT, ALEMANHA - Ou nos unimos e confiamos uns nos outros, ou Russos, Americanos e Britânicos acabam com esta nossa Europa multi-facetada, multi-cultural e progressista. Eu não estou disposto a abdicar

Hão de se lembrar, com certeza, daquela polémica por causa das declarações menos abonatórias do Ministro Holandês Dijsselbloem sobre os povos do Sul. Logo a seguir, a Mafalda, nossa directora da revista, pediu-nos, aos cronistas expatriados, para descrever num parágrafo como é que o povo do nosso país de acolhimento via os portugueses.

Eu comecei por escrever o tal parágrafo e fui continuando, de tal maneira que ao fim já tinha quase uma crónica que reproduzo aqui na íntegra. O meu ponto, é que sim existe preconceito, sempre existiu e desde a crise financeira de 2008 agravou-se, mas no último ano, e no caso específico de Portugal, tem vindo a alterar-se rapidamente, no sentido inverso. A recente vitória no festival da Eurovisão, contribuiu ainda mais para passar a imagem de um povo criativo, genuíno, com alma, e com coragem.

Quando emigrei pela primeira vez, em 1997, para a Holanda por 3 anos, não foram raras as vezes em que ouvi comentários, no gozo, do género: "Mas estamos assim tão mal que precisamos de ir buscar engenheiros a Portugal?" . Os Holandeses dizem o que pensam e não têm qualquer tacto para adaptar a mensagem ao destinatário e o seu humor é muito cru. O Sr. Dijsselbloem é um holandês típico. E o que ele expressou, de forma sexista, é um preconceito standard. E não percebo o alarido, como se se tivesse descoberto agora a pólvora. Desde pelo menos 2008 que o preconceito está bem vivo e de saúde.

Em relação aos alemães, é também nestes mesmos termos que o povo, de uma certa geração, e de uma certa faixa social, pensa sobre Portugal, Itália e muito em particular da Grécia, a quem, assim julga o povo, se empresta muito dinheiro, ganho arduamente, e que nunca será repago. Essa é, por exemplo, a opinião do meu sogro, com quem já tive inúmeras discussões, que diz que são corruptos e mentirosos os Gregos e que aldrabam as contas e o dinheiro desaparece, e depois tem que se lhes dar sempre mais... o que eu disputo, dar não, emprestar a juros elevadíssimos que os põe na miséria!! Não me atrevo, contudo, a disputar que no Sul se aldrabem umas continhas aqui e ali… (coisa que, afinal, também não é completamente desconhecida no Norte: escândalo das emissões dos diesel VW…)

Os povos do Norte têm a meu ver uma cultura de trabalho diferente, talvez mais protestante, em que o Céu se ganha na Terra trabalhando. Trabalho é sagrado e lazer merece-se. E no sul trabalha-se para se poder ter dinheiro para desfrutar o lazer, porque os pecados são, de qualquer maneira, perdoados ao Domingo, e o Céu só vem depois da morte.

Aqui diz-se que os Alemães gostam dos Italianos mas não os respeitam, os Italianos respeitam os Alemães mas não gostam deles. E isso reflecte bem a relação Norte-Sul. Os do Norte admiram o temperamento, a espontaneidade e o colorido do Sul, mas não aceitam a atitude por vezes mais laissez-faire e permissiva à corrupção. Os do Sul admiram os feitos e o desenvolvimento Industrial do Norte, mas não gostam das personalidades mais distantes e frias e sem humor.

Mas se formos a ver, não teremos nós o mesmo preconceito em relação a brasileiros e africanos? Não existe este preconceito entre Porto e Lisboa? Lembro-me do meu pai dizer que, em projectos que supervisionava, em países em desenvolvimento, havia trabalhadores que passavam necessidades, mas na hora que chegava o salário, iam a correr a gastá-lo para comprar um rádio ou bicicleta nova. O que diz o preconceito é que no Sul se vive acima das nossas capacidades, que para se ser bem sucedido é preciso parecer bem sucedido. Aqui o presidente da câmara vai de bicicleta, e aí de Mercedes... Aqui pôr um Dr. à frente do nome é sinónimo de merecido esforço e trabalho, aí é símbolo diferenciador de status económico (qualquer um acima dum certo escalão do IRS é doutor).

Tendo dito isto, noto que apesar do preconceito, a imagem de Portugal mudou-se em tempos recentes, e para bem melhor. Lisboa está na berra e é comparada a São Francisco, pelo nova vaga de empreendedorismo e dinamismo e start-ups de dimensão internacional. Artigos e opiniões sobre Portugal desdobram-se em inúmeras páginas de revistas e jornais internacionais. A quantidade de pessoas que me pede dicas para o fim de semana que vão passar a Lisboa ou Porto, multiplicou-se. Nunca, em todos os meus anos de emigração (17) vi tanta gente a ir visitar Portugal. Os meus vizinhos, vão este ano pela primeira vez trocar as férias em Itália por Lisboa. O avião para Lisboa vai sempre apinhado. A oferta de acolhimento de charme e qualidade tem vindo a crescer continuamente.

Deparo-me, na caixa do correio, com catálogos de roupa, calçado e artigos do lar de marcas Francesas e Britânicas, que destacam artigos "MADE IN PORTUGAL", como garantia de bom "workmanship", especialização e bom gosto.

E no outro dia o meu dentista, no controlo regular, perguntou-me, apesar de um ligeiro tom de ironia: "Então, Portugal vai mandar no mundo?", e eu "Como?", e ele "Pois, campeões de futebol da Europa e agora Secretário General da ONU...". Por isso, nos dias que correm, há uma grande abertura para tudo o que é Português, há uma aura de "achievers" e é fundamental continuar a surfar essa onda, de forma sustentável! Isto é com muito profissionalismo (denunciando e lidando seriamente com corrupção, para estimular confiança), mas sempre com bom humor e com originalidade e qualidade na oferta, e sem estragar o país que é tão belo! Agora, mais que nunca, temos que estar (não só o Ronaldo, mas todos) no nosso melhor e mostrar de que fibra somos feitos.

Além disso, bardamerda prós preconceitos, ou nos unimos e confiamos uns nos outros, ou Russos, Americanos e Britânicos acabam com esta nossa Europa multi-facetada, multi-cultural e progressista. Eu não estou disposto a abdicar. Tendo visto como, no fim de contas, Austríacos, Holandeses e Franceses (e certamente Alemães também, em Setembro próximo) disseram não aos populistas nacionalistas, estou convencido que, nós Europeus continentais, ainda temos a cabeça no sítio certo e temos um futuro unidos. Cá vai mais uma ideia, porque não convidar o Canadá a aderir à União Europeia? Mais do que uma união geográfica ou económica, devia ser uma união de valores, e esses já partilhamos.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal... 6 (estive na semana passada no Estoril Conferences Junior a falar para 600 crianças!)

Nas notícias por aqui... as eleições na Grã-Bretanha

Sabia que por cá... A polícia passa no bairro logo pelas 6 da manhã para apanhar a malta mal estacionada... e como estacionamento é apertado no nosso bairro volta e meia levo uma...

Um número surpreendente... 10€ custa a multa que eu pago religiosamente... (tenho uma à minha frente para pagar)


Bruno Sousa

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA Bruno é pai de três pirralhos, engenheiro aeroespacial chefe de operações de uma constelação de quatro satélites científicos (Cluster) da Agência Espacial Europeia ( as opiniões nas crónicas são só dele, e não da Agência) e nos tempos livres é autor e encenador com peças exibidas em Darmstadt, Den Haag, Antuérpia, Londres e Hamburgo.