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Os franceses são simpáticos

GABRIEL BOUYS / GettyImages

PARIS, FRANÇA - Nem todos os franceses são arrogantes, nem todos os portugueses são prestáveis. Um bem-haja à diversidade

Os franceses são geralmente simpáticos e bem-educados. Não dispensam um “bonjour”, complementado por um “madame” ou “monsieur” e terminam (quase) todas as conversações por um “bonne journée” e um “au revoir”. A fórmula é sempre a mesma, nunca falha! É raro dizerem que não a dois dedos de conversa. Fazem-nos até mais frequentemente do que imaginamos tal é a má fama que lhes é conhecida. Perdi a conta ao número de vezes que uma senhora mais atenta me avisou na rua que tinha a mala aberta (um mau hábito que nunca me preocupou verdadeiramente) ou que uma conversa entre desconhecidos despoletou à minha frente no metro. Gostam de conversar, de fazer perguntas, de partilhar opiniões, de se manifestar. Basicamente têm sempre algo a dizer. É por aí…

No entanto ser simpático é uma condição que não pressupõe ser, digamos, prestável. E é aí que está a chave. Os franceses são simpáticos, sim. Mas são-no no limite do que consideram ser a sua obrigação. Para lá dessa fronteira o mais provável é ouvir-se um “désolé, ça ne va pas être possible”, num tom muito parisiense que nos soa a um “temos pena, não vai dar”.

Tinha chegado recentemente a França quando, nas funções que então desempenhava, me pediram para excecionalmente pegar na carrinha da empresa e ir ao aeroporto deixar umas pessoas. Era madrugada e os acessos estavam calmos. Note-se que o aeroporto Charles de Gaulle deve ser umas dez vezes maior que o da Portela. Tem o terminal 1, 2 e 3. E o terminal 2 é dividido em A, B, C, D,E,F e G. Cada um com os seus acessos.

Apesar de a sinalização ser exímia (nisso eles batem-nos aos pontos), desorientei-me e entrei numa zona de largada de passageiros que tinha uma cancela. Atenção que a dita “zona” não é mais do que uma faixa de sentido único, de uns 400 metros, encostada ao passeio, com uma cancela à entrada e outra à saída. Ora à entrada a cancela estava aberta (e eu nem tinha dado por ela, na verdade), mas à saída não tinha como passar. Dilema.

Carreguei no botão de apoio e depois de uns minutos de espera consegui falar com uma senhora. Simpática. Expliquei-lhe que tinha entrado naquela faixa por engano, pedi desculpa por incomodar, referi que a cancela de entrada estava aberta e pedi-lhe delicadamente para me deixar sair. O que se seguiu foi mais ou menos isto:

- “Lamento minha senhora, mas não vai ser possível abrir-lhe a cancela. A senhora nem sequer tem o direito de estar onde está! Não o posso fazer. Aliás, este botão de apoio está reservado a motoristas de autocarros…”

- “Mas foi um engano meu e a cancela à entrada estava aberta, não reparei…”

- “ Lamento mas não vai ser possível.”

- “ E como é que eu posso posso sair daqui…?”

- “Ah, isso já não é um problema meu… Eu só posso abrir a cancela a autocarros acreditados! Olhe, faça marcha atrás!”

- “Mas ir de marcha atrás é perigoso… Ainda são uns 400 metros em curva e podem vir outros carros… A sério, por favor, não me pode abrir a cancela?”-

- “Lamento, não vai mesmo ser possível. Bonne journée, au revoir!”

Exato. Lá fiz o percurso de marcha atrás a imaginar um autocarro a vir na minha direção ou na multa que ia receber em casa devido às múltiplas câmaras que controlam a circulação no aeroporto.

Simpática. Lá está. Mas no limite das suas funções. Nem mais um bocadinho. E é tão isto: se há uma exceção, uma solicitação diferente ou um caso particular, são intransigentes. E arrogantes, sim. A nossa situação nunca os perturba. Mesmo que seja culpa deles. Basicamente não lhes interessa. “Ce n’est pas mon problème!”

Não é por acaso que os serviços de apoio ao cliente franceses são conhecidos por estarem entre os piores do mundo (por comparação com países com o mesmo índice de desenvolvimento). Há crónicas engraçadas sobre isso aqui, aqui e aqui.

Podia contar-vos o dia que não me venderam uma baguette porque cheguei cinco minutos antes da hora de fecho da padaria, já a porta estava encostada, (mas vi o pão a ser deitado para o lixo) ou do café que não me serviram às 18h00 numa esplanada porque “só servimos bebidas quentes de manhã, não vai ser possível, lamento”, entre tantas outras de que me recordo mais ou menos, um pouco em todos os setores.

Confesso que travo um combate diário para conseguir não detestar os parisienses. Mas parece-me que com o tempo habituamo-nos a estas reações que para nós, que crescemos noutra cultura, são inesperadas. Adotamos atitudes que interiorizamos ao longo da vida seguros de que teremos reações que se enquadrem nos mesmos parâmetros. Mas não. E isso faz parte da viagem. Começamos a “ganhar defesas”, percebemos como desvalorizar estas respostas que, num primeiro momento, nos chocam, e percebemos como nos adaptar, sem nos desiludirmos. Sem esquecer que, quando somos solicitados e fazemos mais do que é esperado por eles, somos inundados de agradecimentos.

(Pequena nota, óbvia mas necessária, nem todos os franceses são arrogantes, nem todos os portugueses são prestáveis. Um bem-haja à diversidade!)

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: Prefiro não contar mas está a passar a barreira dos 300!

Nas notícias por aqui: A visita de Vladimir Putine ao Presidente Macron e a forma como este conseguiu mostrar-se publicamente contra algumas posições da Rússia. Sem medos. A escolha pelo Palácio de Versailles, em detrimento do Eliseu, não é inocente por ser um quadro que pretende por um lado atenuar a pressão formal da residência oficial mas ao mesmo tempo lembrar o lugar da França enquanto potência mundial que não se quer ver inferiorizada. Foi nesse mesmo lugar, há 300 anos, que foi recebido o Tsar russo no restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países.

Sabia que por cá: Não há gelatina. É um dos maiores flagelos do verão! Há gelatina, claro, mas apenas com propósitos culinários, em folhas e sem sabor. Não há gelatina enquanto sobremesa, de frutas, leve, colorida e despretensiosa que se prepara em 5 minutos e não é prejudicial a nada. É uma daquelas coisas que só dás pela falta quando não tens. Isso e iogurtes líquidos.

Um número surpreendente: A corrida vertical da Torre Eiffel, em que se contabiliza o tempo que se demora a subir a pé os 1665 degraus até ao topo, foi ganha pelo polaco Piotr Lobodzinski que chegou lá acima em… 7 minutos e 54 segundos!

Catarina Alberto dos Santos

Catarina Alberto dos Santos

PARIS, FRANÇA - 1 de Outubro de 2012. Em França diz-se que todos sabemos de cor a data em que deixámos o país. Ainda é assim, ou isso era antigamente? Jornalista de formação, e de carácter como costuma dizer, entregou a carteira em 2015 para passar para o outro lado e fazer assessoria. Mas nunca parou de escrever. Na terra do vinho e do queijo, onde não falar a língua é fechar a porta da integração, encontrou uma forma de viver a Portugalidade que desconhecia e que a fascinou pela complexidade. Lisboeta assumidamente saudosista, só não canta o Fado porque não sabe.