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Lavando o neanderthal que há em mim

Nós lá fora

Vasco Pinhol

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AALESUND, NORUEGA - O mundo está a desabar como sempre, e Portugal ganhou a eurovisão e uns santos, e começa a fazer calor e viaja-se. Por isso venho falar-vos de duches

Viajo muito e tomo muitos duches; com o passar dos anos e o acumular de experiências tornei-me um perito no assunto. No Alentejo é virtualmente impossível tomar um duche decente – ou a água corre e é fria, ou é quente mas não corre. No último mês descobri finalmente um sítio onde se pode tomar um duche recomendável: é num hotel perto de Avis.

Em Bruxelas, tomam-se alguns duches mas sempre na contingência da água subitamente ficar fria. É um problema recorrente também no Porto, e em todos os outros sítios em que aquecer a água com gás (duches potencialmente ilimitados) deu lugar a caldeiras e acumuladores eléctricos (duches curtos e com finais tristes). Lembro-me de um anúncio na TV belga de há alguns anos em que um adolescente dizia “compre o desodorizante YXZ e poderá obviar sem problemas ao banho semanal”. Os meus duches em Bruxelas acabam quase sempre mal.

Há uma aldeia perto de Vidago em que tomei duche de água das pedras. Não há como explicar o divertido que é tentar fazer espuma no cabelo com água naturalmente gaseificada. No Douro profundo, e em Estocolmo, tomei duche exposto - uma tendência um bocadinho alarmante de design de interiores, a das casas de banho com vista em que a vista somos nós.

Recentemente, num périplo fotográfico que me obrigou a mudar de quarto diariamente ao longo de 10 dias , a estória dos duches tomou contornos floridos que potenciaram a sua relevância e culminaram neste texto. Encontrei pequenos sabonetes de cortesia embalados em plástico à prova de uso – travei com um deles uma luta que, mesmo à dentada, perdi. Num hotel de Bragança, o aplique para pendurar o chuveiro apontava a água toda contra a parede e obrigava a artes de contorcionista que tive pena de não filmar. Encontrei duches cujos manípulos misturadores tinham vontade própria e onde fui sadicamente cozido e congelado, entre impropérios e exclamações. Encontrei banheiras com ambições a piscina, com o ralo no centro – encontrei também banheiras com tendências penitentes, com torneiras jactantes a meio da parede de recosto. Num dos duches vi um fio dependurado na parede, saindo de uma caixa inexplicável, a pedir para ser puxado. Fez-me pensar que a vida está dividida em três partes – a primeira em que se puxam estes fios para ver o que acontece, a segunda em que estes fios estão lá mas são invisíveis e a final, em que estes fios servem para chamar a ambulância.

Provoquei várias inundações, algumas a chegar aos pés da cama. Alguns dos meus duches extravasaram para fora da área oficial dos duches e transformaram a casa de banho num arrozal. Coleccionei mini-shampoos de todas as formas, cores, feitios e cheiros, que ao chegar a casa deitei fora. De todos os duches desta viagem, o meu favorito aconteceu nos Açores, na rua e vestido: uma chuva quente e grossa numa aldeia sem vivalma que me deixou a roupa a fumegar. Lembrou-me um outro duche memorável numa ilha em Moçambique, numa casa de banho sem tecto, numa noite de vento frio e lua cheia, a água quente a escorrer nas costas. A chuva e estes seus simulacros lavam o neanderthal que há em mim.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal – zero, estou cá.

Nas notícias por lá – não tenho lido jornais noruegueses.

Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.