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Malásia e Singapura numa reunião de ex-alunos

Nós lá fora

Rita Cruz

KUALA LUMPUR, MALÁSIA - A minha vida de saltimbanco roubou-me algumas experiências interessantes. Uma delas é a reunião dos antigos alunos. Nunca estou presente, o mais certo é estar no polo oposto do mundo

O centro de negócios de Singapura, visto da marina ao entardecer

O centro de negócios de Singapura, visto da marina ao entardecer

A minha vida de saltimbanco roubou-me algumas experiências interessantes. Uma delas é a reunião dos antigos alunos. Podia ser da Escola Secundária de Afonso de Albuquerque, do curso de RI da Universidade do Minho, do curso de fisioterapia em Alcoitão, do MA de Peace Studies em Bradford… não me faltariam oportunidades. Mas nunca estou presente, o mais certo é estar no polo oposto do mundo e, como tal, nunca me é conveniente. Mas gostava imenso de ir. Por um lado porque tenho curiosidade em perceber se é realmente verdade que as pessoas, mais do que motivadas por uma saudade de amizades em tempos passados, se juntam para medir vitórias: quem chegou mais longe e quem estagnou, quem ganhou mais rugas e teve mais ou menos filhos, quem ri mais e mais alto e é, obviamente, mais feliz. Por outro lado, porque, confesso, gostava de perceber se sou imune ou não a estas comparações.


Estando feliz com a vida que levo e as opões que fiz, tanto com os seus logros como com os seus muitos fracassos, a ideia de uma reunião destas não me assusta, acho pelo contrário muito ternurenta. Mas quem sabe se dentro de mim uma comichão se instala ao rever uma colega que, entre os três filhos que teve e que são lindos e dos quais ela é esmerada mãe, conseguiu nos tempos livres escrever três obras literárias e ter uma carreira de sucesso, sem descuidar nunca as lides da casa, sem rugas na cara e a desfilar o mesmo corpinho de sempre, sem diasteses nem celulite... O melhor mesmo é ter a desculpa de não estar por perto!

Gardens by The Bay, o jardim roubado ao mar

Gardens by The Bay, o jardim roubado ao mar

Vem-me isto à mente porque estou a escrever este artigo, mais uma vez à ultima da hora, no aeroporto de Singapura, enquanto aguardo pelo voo que me levará de regresso a Kuala Lumpur. É natural comparar destinos quando viajamos, da mesma forma que creio ser natural quando conhecemos uma nova pessoa passar em revista o nosso repertório de referências e encontrar aquela ou aquelas pessoas que mais se lhe assemelham. É uma forma de apressarmos o nosso conhecimento. A minha mente está activa a comparar Singapura, onde ainda estou fisicamente, com a Malásia, onde vivo. Os disparos elétricos na minha cabeça não conseguem deixar de parte contudo, o facto de ambos países terem sido um mesmo. Antes e depois da independência do Império Britânico. Para ser mais exacta até ao ano de 1965, em que se dá a separação e cada um segue o seu caminho. E pronto, um neurónio segreda ao outro a ideia da reunião de antigos alunos e já não consigo despegar daqui.

Assim sendo, 1965 é o momento do fim de curso. A partir de então, cada país põe à prova o que sabe e aprendeu. Faz-se vingar com inteligência ou esperteza, valorizando certos princípios e descurando outros, constantemente tomando opões que desenham o caminho que o país percorre através dos anos.

A reunião de antigos alunos é contudo, neste contexto, um tormento, porque acontece diariamente, animada pelas milhares de pessoas que cruzam uma das fronteiras mais movimentadas do mundo. Quem ganhou, quem está melhor, quem consegue atrair mais invejas? Porque vivo em Kuala Lumpur há quase uma ano, porque gosto imenso da Malásia e lhe ganhei um carinho especial por me tratar tão bem e me ensinar tanta coisa, de cada vez que me apercebo que essa reunião vai acontecer por minha causa apetece-me dar-lhe um grande abraço, umas quantas palmadinhas nas costas e passar-lhe por debaixo da mesa uma garrafa de whisky para a ajudar a superar a humilhação. Bebe querida, vais ver que é mais fácil olhar para aquela cinturinha de passarinho da besta que carrega três airosos filhos num braço e uma carreira profissional de sucesso no outro.

A ironia da separação é que é a Malásia que expulsa Singapura da federação. Num vídeo datado do dia depois da decisão, patente no Museu Nacional de Singapura, o primeiro ministro Lee Kuan Yew fala emocionadamente e com lágrimas nos olhos deste momento. Diz ele que nesse momento lhe disseram que deixava de ser Malaio, e passava a ser cidadão de Singapura, numa aniquilação repentina da sua identidade. É bonito, vale a pena ver. Tomando essas lágrimas e esse discurso como sincero, e creio que não há razão para suspeitar que fosse de outra maneira, Singapura, um território pequeno e sem grandes recursos naturais - embora com inegável importância geoestratégica e comercial dada a sua localização e o seu porto - fica a perder. Ao lado, está a gigante Malásia em comparação, rica em inúmeros recursos naturais, incluindo petróleo.

Não me vou pronunciar sobre as opções feitas e como cada país chegou onde chegou para não correr o risco de dizer demasiadas asneiras - já basta as que de qualquer forma digo. Falta-me perceber muita coisa e ouvir muita gente - mas como não sou aquela besta, consigo fazer muito pouco do que ambiciono fazer nesta vida e só tenho dois filhos. Não me pronunciando contudo sobre estas opções, não escondo ter opiniões sobre o resultado. Sentada numa das mesas desta reunião, observo a chegada dos ex-alunos. Singapura é uma espécie de Lauren Bacall. Toda ela é sofisticação, inteligência. Atrás dela chega a Malásia, e a imagem que me ocorre - que me perdoe a senhora - é uma Marina Mota com uma peruca loura a tentar caber num fato dois números abaixo do indicado. Venha a garrafa de whisky.

Traduzindo isto em experiências de turista. Singapura é uma cidade inquestionavelmente bonita. Os edifícios em altura, que lhe deram fama, são hoje em dia menos e menores do que aqueles que a Malásia tem, por exemplo. A vanguarda não está na altura mas na sustentabilidade. Há parques por todo o lado e, onde não havia espaço já para eles, ou se colocaram nos terraços e no topo dos prédios, com árvores e arbustos a subirem ou descerem os andares, ou se roubou espaço ao mar de propósito para eles - caso dos incríveis Gardens by the Bay. A cidade é tão limpa e organizada que é um gosto trilhar os passeios a pé ou de bicicleta. O calor insuportável é atenuado pela brisa e o convite à sombra de tantas árvores. Aqui e ali, há obras de arquitectura moderna formidáveis, com o emblemático hotel Marina Bay Sands mas há também algo extraordinário. Singapura é dos poucos lugares do mundo onde se encontram edifícios coloniais impecavelmente preservados no seio de uma cidade invejavelmente organizada e afluente - não existe… geralmente onde houve colonialismo nunca se saiu da cepa torta.

Aceitem a minha sugestão. Visitem Singapura se poderem. É a visão única do que uma cidade dos século XXI pode ser - sim, pois, é que Singapura é cidade e país ao mesmo tempo e daí talvez uma das razões por detrás do percurso, mas mantenho-me fiel à minha decisão de não me meter por caminhos que não conheço bem.

O emblemático hotel Marina Bay Sands

O emblemático hotel Marina Bay Sands

A minha querida Malásia, pois, que vos digo. São os passeios que terminam numa autoestrada no meio da cidade e que não há modo de atravessar, os edifícios que nascem onde já nem espaço para um parque decente existia e onde não há estradas nem alternativas que permitam escoar a densidade populacional que não pára de aumentar. É um país grande, muito maior que uma cidade, e tem tanto mais para explorar, de riqueza cultural, de pessoas, de paisagens. Mas em tudo há uma sensação de potencial desperdiçado. Conhecem esta sensação? Pois… talvez seja por isso que me afeiçoou tanto a ela e tenho alguma vergonha em escrever tudo isto. Mas como já estou em cima da hora e não consigo rever, que me perdoem a Malásia e a Marina Mota mas fica assim o meu testemunho deste mês.

Rita Cruz

Rita Cruz

KUALA LUMPUR, MALÁSIA Rita mudou-se em Julho para a Malásia, deixando para trás a Austrália onde viveu dois anos. Já montou casa em várias partes do mundo. É fisioterapeuta, mas trabalhou durante vários anos no ramo dos Direitos Humanos e ajuda humanitária. Tem dois filhos pequenos, de 2 e 4 anos.