Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Portugal e Luxemburgo: semelhanças, coincidências e curiosidades

Nós lá fora

António Raúl Reis

LUXEMBURGO - Quando o primeiro-ministro António Costa visitou o Luxemburgo e se avistou com o seu homólogo local não pude deixar de pensar nas semelhanças do percurso governativo de ambos

Antes de se tornar primeiro-ministro, em dezembro de 2013, Bettel foi presidente da Câmara da capital luxemburguesa, tal como Costa presidiu aos destinos de Lisboa.

Mas mais curioso é o facto de ambos dirigirem um governo de tipo “geringonça”, resultante de um acordo pós-eleitoral que relegou o partido vencedor nas legislativas para a oposição.

Aquilo que aconteceu na noite eleitoral luxemburguesa de 20 de outubro de 2013 é ainda mais complexo do que o surgimento da geringonça portuguesa.
No Luxemburgo, as eleições fazem-se através de listas nominais e Xavier Bettel, líder do Partido Democrático (membro dos grupo dos liberais no Parlamento Europeu) que conseguiu menos de 20% dos votos, obteve uma excelente votação pessoal que o tornou no novo homem-forte da cena política luxemburguesa.

Diz-se que na noite eleitoral Bettel terá convocado os líderes dos partidos socialista e ecologista para criar a tal geringonça luxemburguesa.

Os socialistas – que partilharam o poder com os cristão-sociais de Jean-Claude Juncker – tinham abandonado o governo meses antes devido a um escândalo relacionado com os serviços secretos. Foi essa decisão que precipitou as legislativas e azedou as relações no seio da velha aliança entre socialistas e cristão-sociais depois de décadas de coligações no poder.

Da tal reunião noturna pós-eleitoral surgiu um coligação improvável entre o Partido Democrata, Os Verdes e o Partido Socialista Operário Luxemburguês. Apesar de os socialistas terem mais votos e o mesmo número de assentos parlamentares que o partido de Xavier Bettel, foi este o nome unânime para chefe de governo graças à votação individual que obteve e ao crescimento eleitoral do seu partido.

No governo de Bettel cabe ainda destacar a presença de um lusodescendente, o ministro da Justiça, Félix Braz.

A criação da geringonça luxemburguesa não agradou obviamente a Jean-Claude Juncker, líder do partido mais votado, que esperava fazer uma coligação com o Partido Democrata já que a nova liderança socialista ficou “de candeias às avessas” com os conservadores. Quem também terá ficado insatisfeito foi o grão-duque Henrique que, segundo fontes oficiosas próximas do monarca, não gostou de ter sido “forçado” a nomear um formador de governo que não fosse Juncker, que presidia aos destinos do país desde 1995 e com quem Henrique tinha excelentes relações pessoais.

A geringonça luxemburguesa acabou por tomar posse com um primeiro-ministro oriundo do terceiro partido mais votado. No Luxemburgo, em vez de geringonça, optou-se pelo nome “coligação Gâmbia” porque as cores dos três partidos no governo são azul, vermelho e verde tal como a bandeira do país africano.

Xavier Bettel colocou-se na vanguarda da política luxemburguesa pela sua irreverência, tanto como deputado como ao assumir a presidência da Cidade do Luxemburgo. O jovem político, filho de uma franco-russa, sempre assumiu a sua homossexualidade e foi, suavemente, contrastando com o conservadorismo reinante na sociedade luxemburguesa. Em 2015 Bettel contrai matrimónio com um arquiteto belga, tornando-se assim no primeiro dirigente homossexual de um Estado-membro da UE casado.

Visionário, Bettel começou a fazer uso das redes sociais antes da maioria dos políticos importantes do país. Só quando assumiu a chefia do governo “delegou” a gestão da sua página Facebook a um membro do gabinete. Ainda hoje, Bettel tem mais seguidores do que qualquer político luxemburguês (com a exceção de Juncker que agora tem projeção europeia) e do que todos os ministros do seu governo juntos. Esta proximidade dos eleitores, e sobretudo dos mais jovens, garantiu-lhe um capital de simpatia elevadíssimo.

Em 2017, o Luxemburgo não vive dificuldades económicas. Tampouco tem de fazer frente a populismos: a extrema direita e a extrema esquerda representaram menos de 10% dos votos expressos nas últimas eleições. Mesmo assim, as mais recentes sondagens dizem que Xavier Bettel não será o próximo primeiro-ministro do Luxemburgo. O partido de Jean-Claude Juncker poderá obter maioria absoluta na próxima vez que os luxemburgueses serão chamados às urnas.

E agora, à frente dos cristão-sociais e na corrida para primeiro-ministro está Claude Wiseler, casado com uma portuguesa de seu nome Isabel, e muito próximo do PSD e do CDS declarando frequentemente a amizade que o une a Pedro Passos Coelho.

António Raúl Reis

António Raúl Reis

LUXEMBURGO Há mais de 25 anos lá fora, António Raúl Reis trabalha para a União Europeia mas apaixonou-se pelo jornalismo aos 16 anos numa rádio pirata e acabou por fundar o primeiro jornal em linha das comunidades portuguesas, o Bom Dia. Já viveu em Espanha e na Bélgica e agora assentou arraiais no país com maior percentagem de portugueses no mundo. Apaixonado por cinema acha que não há melhores férias do que 10 dias por ano no festival de Cannes ou as vindimas nas vinhas de Felgueiras onde nasceu.