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Nós lá fora

José Augusto Pinto

SÃO PETESBURGO, RÚSSIA - O poder que veio após a Perestroika fez um pacto (não tão diabólico quanto se julga) com a Igreja Ortodoxa; uma mão lava a outra, e neste caso, a mão esquerda sabe muito bem o que faz a direita

Descemos para almoçar e sentámo-nos à mesa. Sem que o houvesse planeado acabei sentado à frente de Alexandre, o que foi bom, dado ser a pessoa com mais autoridade na equipa e queria conhece-lo melhor.

Veio a comida. Enquanto eu olhava para o meu prato ia olhando discretamente para Alexandre para perceber o melhor momento de iniciar uma conversa de circunstância.

Foi aí que o vi de olhos fechados, a rezar. Benzeu-se e começou a comer.

A partir daí a conversa começou a fluir. Não sei se foi da benzedura, mas afinal o homem era mais simpático do que tinha parecido até então e falava inglês!

Milagres do tempo quaresmal, só pode...

A princípio esta manifestação tão aberta de religiosidade pareceu-me estranha. Poucas vezes vi nos últimos anos na Europa Ocidental alguém benzer-se antes de começar a comer.

De repente, tudo começou a fazer mais sentido.

Uma semana depois reparei ao almoçar com um amigo que ele pediu o menu de quaresma, sem carne. Vários restaurantes naquela cidade russa tinham menus de quaresma, e muitos ortodoxos practicantes se abstêm de carne e álcool durante este período.

Não é segredo que a Igreja Ortodoxa, após o longo inverno comunista, voltou à vida qual flor depois dos gelos invernais. Durante a comunismo a Igreja lá foi vivendo, colaborando melhor ou pior, com uns resistentes aqui e outros menos resistentes ali, com algumas igrejas dinamitadas, transformadas em bordéis ou piscinas, mas subsistiu.

A raiz era forte e ela ergueu-se de novo.

Todos conhecemos a liturgia oficial.

O poder que veio após a Perestroika fez um pacto (não tão diabólico quanto se julga) com a Igreja Ortodoxa; uma mão lava a outra, e neste caso, a mão esquerda sabe muito bem o que faz a direita.

Contudo, e para lá das promiscuidades entre estruturas de poder e negócios menos claros, a religiosidade dos russos ortodoxos é comparativamente superior ao que vemos na Europa. É algo profundo, ritual, pessoal.

Um sentimento que durante 70 anos se tentou por todos os meios destruir e que voltou; quiçá nunca terá desaparecido.

É facto conhecido que o governador da província de Leningrado onde se situa São Petersburgo é profundamente religioso, místico até, diriam alguns.

Pertence a uma sociedade piedosa que se desloca em peregrinação anual ao mosteiro situado no cimo do Monte Athos na Grécia.

Poderes vieram e partiram, novos rostos e novos estilos substituem os que antes governaram, e com mais ou menos escândalo, a fé mantêm-se. Talvez só mesmo a fé reste, quando a estrutura que a representa se mostra pouco digna da mesma.

Ainda agora desapareceram uns 50 milhões de Euros de um banco detido maioritariamente pela Igreja Ortodoxa Russa. Os seus responsáveis afirmam desconhecer o paradeiro da soma, outorgada em empréstimo sem contrato e baseada apenas em palavra de honra.

Lá haver fé, há, mas há milagres em que só mesmo os anjinhos acreditam.

José Augusto Pinto

José Augusto Pinto

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA José Pinto, 41 anos, casado, 2 filhos, a residir em São Petersburgo desde 2013 com a família. Publicitário de profissão, já viveu no Cazaquistão, Alemanha e Reino Unido. Apaixonado por marcas e um crente indefetível na liberdade individual, economia de mercado e liberalismo, procura nos seus diferentes destinos ver as coisas como elas são, sem complexos de civilizador ou expatriado, procurando em tudo uma centelha de verdade e ironia. Sofre de alopécia.