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O bom filho à casa torna

Nós lá fora

Miguel Moreira Rato

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LONDRES, REINO UNIDO - Há uns meses escrevi aqui sobre uma música dos The Clash que andava insistentemente a ecoar na minha cabeça. Era o “Should I stay or should I go” e cantarolei essa letra durante muitas horas de vários dias. Desta vez, é a mágica dupla Simon and Garfunkel a ocupar-me o espírito, numa música que faz querer voltar a casa

And each town looks the same to me, the movies and the factories

And ev'ry stranger's face I see reminds me that I long to be,

Homeward bound

(Homeward Bound, Simon and Garfunkel)

Já frequento este mesmo Café Nero há mais de um ano e o Luigi, “barista” profissional, insiste sempre em perguntar o que vou tomar e se é para consumo na loja ou se levo o copo de plástico com tampa para ir sorvendo a bebida a caminho do escritório. O Luigi irrita-me e sempre que sou atendido por ele já vou com sete pedras na mão. E com o cartão de pontos, obviamente; dez carimbos valem um “double macchiato” à borla. O Francês que lá estava antes era muito mais simpático, mas decidiu rumar a Marselha, onde um novíssimo Starbucks esperava pela sua liderança.

Vou ao Nero, cirurgicamente, todos os dias à mesma hora, logo pela fresquinha, enquanto deixo passar as correntes de gente que invadem o metro. Vou despachando trabalho, calmamente, enquanto outros se contagiam com espirros, tosses e encontrões. Naquelas duas horas, bem cedo de manhã, passa-me quase um dia por cima entre emails, alguns telefonemas e projetos para despachar. Troco mensagens com a equipa, normalmente para perguntar se nos encontramos no escritório, o que nem sempre acontece. Há dias em que sigo do Nero para casa, onde decido ficar a trabalhar.

Custou-me bastante adaptar-me a uma realidade profissional completamente nova e disruptiva. Em boa verdade, já não vou para jovem, e quantos mais anos temos em cima, menos permeáveis somos a estas grandes mudanças. Trabalho numa organização internacional com gente espalhada pelo mundo. Pessoas que trabalham na mesma equipa, com os mesmos objetivos, mas distribuidos pelo planeta. A chefe vive literalmente num avião, a outra chefe está nos Estados Unidos e tenho colegas de equipa aqui em Londres, em Miami, em Hong Kong e até nos antípodas. Vemo-nos “fisicamente” pouco. Encontramo-nos duas ou três vezes por ano para estarmos juntos e debatermos o que está bem e planear o que precisa de ser melhorado.

Fora estes encontros, tudo se faz através de um écran de um portátil. Até podia estar em Machu Pichu, desde que houvesse wifi (haverá?). E, por isso mesmo, nos últimos tempos, as conversas em família têm recaído sempre no mesmo tema – será Londres a cidade ideal para vivermos? Quanto tempo mais queremos ficar por cá? O fim do ano escolar está à porta, e se há “timings” para mudanças, este parece ser o mais acertado. As últimas semanas têm sido forradas a projetos de regresso, a medos por sabermos o que nos esperas, a dúvidas de todos os tamanhos e feitios, a alegrias de poder voltar a estar descontraidamente com os nossos sempre que quisermos, a saudades antecipadas dos bons amigos que por cá fizemos e que vamos fazer questão de manter para o resto da vida.

A decisão está tomada. Vamos. Mas não sabemos se de vez. Sei que vamos diferentes e gosto de pensar que vamos todos diferentes para melhor. Deixamos um filho na universidade, num curso que jamais pensaria tirar e numa cidade – Oxford - onde jamais pensaria viver se não tivessemos embarcado nesta aventura. Levamos dois filhos completamente bilingues ou até mesmo a tropeçar no Português, abertos a um mundo que afinal não é tão enorme e complicado como apregoam os que nunca sairam do lugar. Voltam mais preparados para lutar contra as adversidades, para a reconhecer e aceitar diferenças. Regressam muito mais maduros e com amigos que vão querer reencontrar nos próximos anos mesmo que agora pensem que não. E, todos, levamos anos cheios de coisas que nos vão fazer querer continuar a mudar e a empreender com a certeza de que a decisão de partir foi uma das mais acertadas – e atribuladas - das nossas vidas.

Quanto ao Luigi, há de continuar a errar nas bebidas num Nero que deixará saudades de longas horas de labuta. Não me importo. Enquanto ele serve “Skinny Flat Whites” à pessoa errada, eu estarei a beber uma bica e a comer um nata numa qualquer esplanada de Lisboa.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: pouco mais de um mês.

Nas notícias por aqui: Theresa May continua a achar que o Brexit se fará à sua maneira. Coitadita.

Sabia que por cá… o Príncipe Filipe vai retirar-se da vida pública mas a raínha não abdica. Dali não sai, dali ninguém a tira.

Um número surpreendente: por falar em raínha, saiba que esta já reina há 65 anos e três meses.

Miguel Moreira Rato

Miguel Moreira Rato

LONDRES, REINO UNIDO Define-se como uma pessoa inquieta. No bom sentido. Já foi jornalista e assessor de imprensa, mas foi no empreendedorismo que encontrou o seu talento. Lançou duas empresas de comunicação e relações públicas e aos 40 – toca a todos – decidiu dar mais uma grande reviravolta e aceitou o desafio de liderar a comunicação de uma das mais promissoras ONGs internacionais. São 40 os países que estão a seu cargo, e Londres é agora a sua base. Desde que se mudou, há quase dois anos, já viajou pelos quatro cantos do planeta – literalmente – mas o que mais lhe lava a alma é voltar para casa e aproveitar os poucos raios de sol para conhecer o país para onde se mudou com a mulher e os três filhos – os seus verdadeiros companheiros de viagem.