Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A Terra das Doenças

  • 333

BOSTON, EUA - Vim para cá para descobrir que afinal a minha família tem imensas doenças

Farto-me de dizer – vim para cá para descobrir que afinal a minha família tem imensas doenças. Sempre fomos saudáveis, aliás para mim motivo de algum orgulho e descanso. Os meus filhos raramente ficam doentes. De repente chego cá e BOOM – afinal tenho dois filhos celíacos. Olhando para trás, talvez fosse óbvio. Afinal foi muito fácil a pediatra americana deles ter chegado a essa conclusão. Bastou eu dizer-lhe que o meu filho sempre teve um estômago sensível, que vomitava com alguma facilidade e que tinha dores de cabeça uma vez por mês. Para mais, em Portugal andava a ser visto por uma endocronologista por não andar a acompanhar a sua curva de crescimento.

Eu a mim nunca me tinha passado pelo cabeça… Confesso que até já me tinha lembrado de ele ser intolerante à lactose pelas dores de cabeça, ainda por cima há vários primos na família e está na moda… Confesso que alérgico ao glúten não tinha lá chegado. Bem há que dizer que não sou formada em medicina, o que me fez perguntar – “Se isto é tão óbvio para uma pediatra na primeira consulta com o meu filho, porque que nunca ocorreu à pediatra que ele tinha desde pequeno, nem ao segundo pediatra e por último, porque que a endocronologista nunca se lembrou disto?”. A pergunta mantém-se pois ninguém me respondeu.

A alimentação mudou radicalmente em nossa casa e as contas subiram (ser glúten free não sai barato), mas a verdade é que o rapaz cresceu cerca de 20 cm em 18 meses. Será que teria ficado pequenino se não tivéssemos descoberto a sua alergia? Claro está que este é o país das alergias. Não podemos, por exemplo, mandar nozes ou amendoins para uma escola como lanche pois existem tantas crianças com alergias graves a frutos secos que é uma verdadeiro perigo. Podem entrar em choque anafilático e morrer. E não são uma ou duas por escola, são uma ou duas por classe. Isto sem falar nas outras alergias – lactose, ovo, etc. Porque será? Há muitas teorias, incluindo a de que o cuidado excessivo na introdução de alimentos ao bebé pode ter causado o corpo a desabituar-se destes alimentos.

Não sei, afinal como disse, não sou médica. Sei que agora a minha filha mais velha, muito inteligente mas com notas abaixo do esperado, está a fazer testes. Testes para saber se terá uma chamada “learning disability”. Não seria nada de muito grave ou óbvio, mas o suficiente para lhe causar as dificuldades que tem. Mais uma vez, deveria ter sido óbvio para nós e para os seus professores em Portugal, mas passou despercebido. Chamámos-lhe preguiça. Já vamos em três filhos diagnosticados. O que será que vamos encontrar nos outros?

Carolina Teixeira da Mota

Carolina Teixeira da Mota

BOSTON, ESTADOS UNIDOS Formada em direito, mas sempre com queda para as letras, foi editora durante três anos da revista Giggle e do suplemento Teen Económico do Diário Económico. Veio para Boston com o marido e cinco filhos. Hoje está a tirar um curso sobre Literatura Americana na Harvard Extension School.