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A caixinha da TAP

Nós lá fora

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA - Quando era miúdo as hospedeiras e os pilotos pareciam estrelas glamorosas de Hollywood. Eu queria ser piloto quando fosse grande, e dentro de mim, uma parte ainda quer

Eu sei que é suposto escrever crónicas sobre a minha experiência de emigrante lá fora, mas como comecei a escrever esta a bordo do avião de Lisboa para Frankfurt, que é parte da minha experiência de emigrante, acho que o tópico serve. Vou remanescer sobre a velha caixinha da TAP. Além disso suspeito que ninguém vai notar!

Eu cresci, entre os anos 70 e 80, na Madeira. Mas todos os verões vínhamos passar as férias ao continente com os meus avós. Lembro-me bem de ir com a minha mãe ao balcão da TAP, acho que era na Avenida do Mar, ou lá perto, e a minha mãe dizer que eu tinha 6 anos, quando na realidade já tinha 7, e eu a puxar-lhe a saia “mas eu já fiz…” e ela: “tá calado!” – ela provavelmente já não se lembra.

A partir mais ou menos daquela idade os meus pais, às vezes, mal começavam as férias, mandavam-me a mim e à minha irmã sozinhos para Lisboa, porque eles tinham ainda que trabalhar - eram ambos professores e era altura das reuniões de notas.

Então lá íamos nós, com uma bolsinha ao pescoço, acompanhados por uma hospedeira da TAP, que nos levava ao avião. As hospedeiras da TAP, quando eu era miúdo, eram altíssimas, de cabelo amarrado numa bola, lábios vermelho incandescente, saia muito justa, luvas de cabedal, lenço ao pescoço a esvoaçar ao vento, chapéu ligeiramente inclinado e saltos altos. Os pilotos usavam fato a rigor, gravata às riscas douradas, os seus óculos escuros de bombardeiro e o seu boné com insígnia. Quando era miúdo as hospedeiras e os pilotos pareciam estrelas glamorosas de Hollywood. Eu queria ser piloto quando fosse grande, e dentro de mim, uma parte ainda quer.

No avião - o bom velho Boeing 727, o avião de passageiros mais bonito alguma vez construído, com as suas asas fortemente vincadas para traz, e o leme de profundidade montado no topo da cauda, os seus 3 motores aparelhados na traseira lembrando um foguete, a sua fuselagem comprida e elegante, terminada num nariz com uma seriedade que lhe era conferida pelo corte das janelas do cockpit, qual flecha majestosa dos céus e que fazia a ligação a Lisboa no fim dos anos 70 e início dos anos 80 - entrava-se por uma escadinha no rabo.

Como eu adorava entrar pela escadinha do rabo! Estava-se mesmo por debaixo dos motores e de todo aquele cromado reluzente da barriga do avião, e por detrás das rodas e aquele cheiro, uma mistura de querosene e borracha queimada, mais o cheiro do lubrificante dos hidráulicos, era para mim como entrar num portal mágico, neste caso, pela porta do rabo. Incrível como quantas memórias de infância estão associadas a cheiros…

Mesmo antes de entrar no avião, já a própria chegada ao aeroporto era fascinante. O aeroporto do Funchal fica mesmo em cima do mar. Quando lá se chegava fazia invariavelmente uma ventania dos diabos que quase arrancava uma pessoa do chão. No mar lá em baixo galgavam carneirinhos brancos furiosos. E lá ao fundo, por entre as nuvens vislumbrava-se a chegada do próximo avião. Corria-se para o terraço e via-se com a cabeça por entre as grades como ele, silencioso a princípio, dava a curva impossível mesmo à cabeceira da pista, por cima de Santa Cruz. Depois desaparecia por detrás do edifício dos bombeiros para reaparecer em tremenda e estrondosa travagem que durava até à outra ponta da pista, para logo regressar, vagarosamente, à placa perto do terminal, onde o esperava o homem que acenava com as pás vermelhas. Que corajoso, ele acenava em frente àquela máquina que urrava estridente, e como ela logo se punha calma e quieta perante a sua inabalável audácia.

Borracha queimada. Querosene. Muito vento. Muito frio. Muito barulho. Minha mãe aos berros “vamos para dentro que aqui não se pode!” Mas nós colados à grade a ver agora um Caravelle da Sterling rugindo pela pista fora levando turistas de volta para a Escandinávia.

Depois a nossa vez, nossos pais ficando para trás, acenando do terraço, a hospedeira da TAP segurando na nossa mão, caminhando rápido pelo asfalto da placa, bolsinha ao pescoço voando ao vento, em direcção à querida porta do rabo, onde éramos entregues a outra hospedeira da tripulação. Elas trocando palavras aos berros pois o barulho por ali era sempre ensurdecedor.

E depois no interior do avião, o vento e o barulho desapareciam, substituídos por uma musiquinha quase imperceptível. O cheiro passava a ser uma mistura de tabaco (sim, que naquele tempo era permitido, mesmo nos lavabos) e lavanda (o aroma dos sabonetes – que adorávamos roubar). Que tecido era aquele das cadeiras? Quente. Sentar à janela. Abrir a mesa. Apertar o cinto, desapertar e apertar mais 6 ou 7 vezes. Clique claque. Clique claque. Pin pom! “Senhores Passageiros, bem-vindos...”. E logo começava aquela dança sincronizada da demonstração das regras de segurança, qual ballet Bolshoi. “Este avião tem não sei quantas saídas de emergência...”. Naquela altura, a pintura dos aviões da TAP ainda era aquela gloriosa dos primórdios da companhia. O nariz preto e uma risca vermelha que estendia ao longo do corpo. Em cima das janelas lia-se em maiúsculas itálicas TRANSPORTES AÉREOS PORTUGUESES. Na cauda o acrónimo TAP em letras finas e altas a quererem voar, e por cima, o símbolo, uma ave estilizada. Se alguém da TAP estiver a ler isto, por favor, por favor, mandem pintar um avião com o motivo antigo (assim como fizeram recentemente a Lufthansa e a KLM). É uma bela estratégia de marketing para mostrar quanta experiência tem a companhia e quão tradicional e de confiança é.

Bom, onde ia eu? Ah pois, o cinto apertado, e a descolagem, passando logo ao lado do resort da Matur e da, já defunta, torre do hotel Atlantis, com a sua gigantesca piscina olímpica, com pranchas altas e com um vidro que ficava debaixo de água, e que dava para ver as pessoas a nadar por de dentro do bar do hotel. Coisa muito fina. Podia escrever outro texto saudoso da Matur, onde passámos algumas mini férias fabulosas naquelas casinha embutidas na encosta. Para se chegar à nossa parecia um labirinto, pois eram todas muito iguais. Mas lindas, num estilo muito moderno a fazer talvez lembrar o estilo do Niemeyer (aliás este complexo era contemporâneo do intemporal Casino da Madeira, desenhado pelo famoso arquitecto). Varandas de tijoleira vermelha. Pequena kitchenette. Um cheiro a humidade entranhado nas madeiras. A frescura das plantas que estavam por todo o lado, mal se saía à rua, e a terra e relva molhada. A ida ao supermercado para comprar pão de manhã. O dia passado na piscina...

Divaguei, outra vez, quando já íamos a passar Machico e a ponta de São Lourenço e as nuvens rumo ao mar infinito. A luzinha dos cintos e dos cigarros ainda acesa. E passados uns minutos, que os adultos esperavam em agonia, por magia, apagavam-se as duas luzinhas (hoje em dia só uma) e claque claque claque, saltavam todos para o primeiro cigarro. Nós torcíamos o pescoço a ver quando vinham elas com os carrinhos. E os carrinhos tardavam porque tinham que serpentear desde lá do fundo por entre os adultos frenéticos a caminho do wc e do tal cigarro. Mas finalmente chegavam, e tchanam! A caixinha de cartão da TAP, servida num tabuleiro. Uma coca-cola, sim porque naquela altura não se podia desperdiçar uma oportunidade para beber uma, ainda por cima, de graça. O lencinho molhadinho que vinha todo dobradinho e comprimidinho dentro do seu involucrozinho. Desdobrar e esfregar as mãos e o rosto. Fresco e cheiroso. Talvez uma sandes triangular de pão de forma sem côdea, coisa fina, ou salada de fruta em conserva, coisa que não se comia todos os dias, mas é da caixinha, que foi servida durante alguns desses anos, que eu realmente me lembro. Cheia de bolachas cobertas de chocolate. Não tinha coragem de comer nenhuma. Guardava religiosamente, rezando para que as hospedeiras não a pedissem de volta para deitar no lixo. “Posso levar?” “Podes" “Aha!!!”

A aproximação a Lisboa e aquela sensação que se vai aterrar nalguma avenida no meio da cidade. O alívio e as palmas pela aterragem e pelo chão firme (cresci sempre a pensar que bater palmas no avião era normal, aliás nas aterragens no Funchal era a euforia, porque ainda residia no consciente colectivo o acidente de 1977 - fiquei envergonhado da primeira vez que aterrei com outra companhia e fui o único a bater palmas). Esperar interminavelmente que a porta se abrisse. Descer as escadas metálicas. Entrar no autocarro onde tínhamos direito a sentar porque tínhamos o privilégio de estar acompanhados pela hospedeira. As escadas rolantes, coisa moderna. Os meus avós e a minha tia vinham buscar-nos, e lá estavam eles ao fundo das escadas: o meu avô com o seu bigodinho de risco sobre os lábios, e cabelo negro de brilhantina a cobrir parcialmente a careca (que aparentemente herdei), a minha avó com os seu óculos grossos de massa e a minha tia por quem era apaixonado desde bebé; e nós a dizer "são aqueles!". E eles a dizerem como estávamos crescidos.

Faziam-se as formalidades e já a minha avó estava a mimar-nos com qualquer chocolate ou rebuçado que tinha trazido da mercearia deles. Esperar mais umas 2 horas pela mala. Saía-se do aeroporto de Lisboa no meio dos 35 graus das 3 da tarde do mês de Julho e procurava-se onde estava o velho e ferrugento FIAT 124 carrinha do meu avô, que cheirava a leite e fruta. Os bancos de napa preta a escaldar. As janelas encravadas. E a lenta procissão pela Gago Coutinho, Almirante Reis a dez à hora, Rossio parados, Rua do Ouro a caracol, Cais do Sodré a suar, e finalmente a marginal onde só se começava mesmo a rolar para lá de Belém. A viagem até Paço d'Arcos demorava na minha perspectiva para lá de 3 horas. E finalmente chegados a casa, no quarto em que sempre ficávamos, e enquanto os adultos viam a indispensável telenovela, voltar a abrir a caixinha da TAP para descobrir as bolachas de chocolate todas derretidas, e passar boa parte do serão em desespero a tentar descolar o papel colorido de alumínio e comer o possível. A caixinha essa durava pelo menos o verão inteiro, e servia para pôr tudo e mais alguma coisa, e eventualmente ia parar ao lixo quando se perspectivava a aquisição de uma nova no voo de regresso a casa!

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 17

Nas notícias por aqui: Brexit and French elections…

Sabia que por cá: Estreiam esta semana duas novas peças curtas minhas, são apenas 3 apresentações com o nosso grupo de teatro amador cá do sítio, mas estamos muito entusiasmados. Uma delas baseada numa belíssima crónica do querido “colega” (mal sabe ele) António Lobo Antunes, lida aqui na Visão!...

Um número surpreendente: 7, o número de voos diários da TAP entre Lisboa e Frankfurt (não sou pago pela publicidade!)

Bruno Sousa

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA Bruno é pai de três pirralhos, engenheiro aeroespacial chefe de operações de uma constelação de quatro satélites científicos (Cluster) da Agência Espacial Europeia ( as opiniões nas crónicas são só dele, e não da Agência) e nos tempos livres é autor e encenador com peças exibidas em Darmstadt, Den Haag, Antuérpia, Londres e Hamburgo.