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Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE - Havia bastante gente a olhar para o alto e a filmar numa passadeira de peões e eu demorei algum tempo até perceber que o que estavam a filmar era um semáforo que abanava sem cessar

Na passada segunda-feira 24 de Abril, houve um sismo de magnitude 6.9 na escala de Richter no Chile, com epicentro no mar a 73Km de Valparaíso (para referência Valparaíso encontra-se a cerca de 1.30h de carro de Santiago).

Pela proximidade do epicentro, sentiu-se de forma particularmente intensa. Confesso que eu não senti este sismo. No momento em que ocorreu ao final da tarde, estava eu a ir para casa a pé. De facto, havia bastante gente a olhar para o alto e a filmar numa passadeira de peões e eu demorei algum tempo até perceber que o que estavam a filmar era um semáforo que abanava sem cessar. Mas como era só um semáforo, os restantes semáforos do cruzamento não se mexiam, eu segui para casa descansadinha. Quando cheguei ao edifício é que me apercebi que tinha havido um tremor de terra e até o porteiro que costuma ser mais taciturno, estava meio eléctrico a falar no que tinha acontecido. Há sempre uma descarga de adrenalina, no meu caso foi um cagaço retroativo por me ter dado conta de que estava na rua e me podia ter caído algo em cima.

O Chile é um país com grande atividade sísmica. O último grande terremoto foi em 2010, em Concepción e atingiu uma magnitude de 8.8 na escala de Richter. O sismo mais violento registado cientificamente ocorreu também no Chile, foi o grande terremoto de Valdivia de 1960, que atingiu uma magnitude de 9 na escala de Richter.

A primeira vez que passei por um tremor de terra no Chile, acordei a meio da noite com os vidros a fazer um barulho infernal e lembro-me de ter pensado que alguém estava a forçar os vidros da janela para assaltar a casa...ideia parva de quem acorda de sobressalto a meio da madrugada, porque vivo num terceiro andar e é improvável que os ladrões escolhessem logo entrar pela janela. Só depois me dei conta de que a cama também abanava e isto era o meu baptismo aos terremotos no Chile.

Quando em 2015 o Chile foi o país anfitrião da Copa América, havia uma piada a circular nas redes sociais a “educar” os turistas sobre como proceder em caso de terremoto. A primeira regra era tratar de localizar um chileno e fazer exatamente o que ele fizesse. Segundo esse texto, os chilenos podem identificar-se facilmente porque são aquelas pessoas que põem sal na comida sem a provar e que basicamente não se imutam até o tremos de terra chegar pelo menos a um grau 6 na escala de Richter, a partir daí, sim senhor: Isto está a abanar... É pá!!! Isto deve ter ficado “la cagá” lá onde foi o epicentro... CTM (equivalente ao nosso PQP) e por aí fora até acabarmos todos a rezar para encontrar o nosso Criador passado o grau 9.

Piadas à parte há um grande fundo de verdade nisto e por isso a piada era tão boa. Em caso de terremoto fazer sempre como os chilenos. Com efeito, eles têm algumas regras diferentes daquelas que normalmente se costuma ensinar às crianças em Portugal. Na escola primária lembro-me de nos ensinarem a ir para debaixo da mesa ou para procurar a aduela de uma porta. Ou de se recomendar sair para a rua e procurar um espaço aberto (esse mito do Portugal rural, com campos abertos em que somos todos guardadores de ovelhas e de sonhos). Recordo também ouvir os adultos contarem do susto por que tinham passado durante terremoto de 1969 (7.3 Richter) e de como tinham fugido para a rua em pijama com o mealheiro debaixo do braço a meio da noite.

Ora, a primeira coisa que um chileno nos vai dizer é: em caso de terremoto fica onde estás. Não vás para a rua, é mais seguro permanecer dentro dos edifícios. A menos que sejamos realmente guardadores de ovelhas em campo aberto, o mais provável é que em Santiago nos caiam em cima cabos eléctricos, árvores ou vidros.... Sair só depois do sismo, entre as réplicas e se houver indicação para evacuar. É comum nos anúncios de arrendamento e de compra e venda de imóveis em Santiago especificarem que o edifício suportou o último grande terremoto de 2010. A segunda coisa que um chileno nos vai dizer é: abre a porta da rua e a da escada de evacuação do edifício para evitar que as portas fiquem presas e garantir que se pode sair caso seja necessário fazer uma evacuação entre as réplicas. Só depois vêm os conselhos sobre ir para debaixo da mesa ou afastar-se das janelas.

Outro conselho, mas este foi de parte de um colega de trabalho mexicano (lá no México, segundo me contou, são os japoneses quem lhes faz a formação de segurança para os terremotos). Diz o meu colega que os japoneses mandam procurar os cantos na casa, porque no caso de o tecto nos cair em cima, o tecto não vai cair a direito como se um grande plano de nível de geometria descritiva se tratasse. Nos cantos, o tecto vai cair fazendo um ângulo de 45°, o que cria pequenas bolsas de ar onde podemos sobreviver no caso de ficar soterrados.

Uma última dica, se finalmente tiveres que sair de casa, fecha o gás.

Na maioria das vezes ficamos todos parados em grande expectativa até perceber se de facto a coisa está a abanar à séria ou não. Parece uma eternidade esse lapso de tempo em que decidimos que podemos continuar a trabalhar/dormir ou se é para ir abrir a porta/ procurar o tal canto/ evacuar. Mais do que a duração do terremoto, o que os chilenos me ensinaram também quando me falam da experiência do terremoto de 2010 foi a prestar atenção à alteração no movimento da terra. Normalmente, quando começa a tremer é num movimento de um lado para o outro, uma espécie de balanço para cá e para lá, pode ser mais fraco ou mais forte, com mais ou menos barulho, mas é um movimento binário. Medo, medo devemos sentir quando o chão começa a mover-se de forma circular. Aí sim, é porque vai ficar “la cagá”.

Nas regiões costeiras é comum haver alerta de tsunami após a ocorrência dos sismos. Entre o sismo e as réplicas é dada ordem à população para evacuar, e passam umas horas de vigília em lugares elevados até ser seguro regressarem às suas casas. Nos locais de trabalho costuma-se fazer um simulacro de evacuação todos os anos. Todos sabemos qual é a saída de emergência que devemos utilizar, onde é o ponto de encontro e há dois colegas designados por contar as pessoas e verificar que não ficou ninguém para trás.

O pior terremoto que me tocou viver desde que por aqui vivo, foi em Setembro de 2015, estava meio país a preparar-se para o feriado das Fiestas Patrias. O terremoto de Coquimbo de 2015 atingiu uma magnitude de 8.4 na escala de Richter. Foi à hora do jantar, recordo perfeitamente essa sensação de expectativa à espera de ver como evolui o tremor de terra. Recordo que há um momento em que parece parar, para depois começar de novo com esse movimento circular de que todos me tinham falado... a partir daí foi uma correria para ir abrir a porta, correr para ir buscar o meu filho ao berço, procurar o tal cantinho que por sinal o melhor deles até fica ao pé da porta da rua e ver que os vizinhos – os chilenos que deveríamos imitar - já tinham começado a descer as escadas. Nisto sai o nosso vizinho do lado com uma malinha que deve ter pronta para estas emergências e com uma fleuma quase britânica muito típica de uma certa aristocracia chilensis diz-nos é melhor descermos também porque o hall de entrada é a zona mais segura do edifício. E lá descemos nós como os restantes chilenos, não sem antes fechar o gás! E de agarrar a mochila das fraldas. E o telemóvel! E a carteira! Estes tugas principiantes...

O que se passa depois é tratar de perceber onde foi o epicentro, se houve vítimas ou danos materiais e esperar pelas réplicas. Nessa noite ficámos cerca de uma hora no hall ora apinhados debaixo da viga mestre do edifício, ora a ouvir em conjunto as últimas notícias do terremoto pelo rádio que o porteiro tinha ligado, ora a recordar histórias de outros terremotos.

Comparativamente, o sismo de ontem foi tranquilo. Entretanto tivemos já 134 réplicas e é possível que se continue a sentir movimentos telúricos ao longo dos próximos dias.

Os terremotos fazem parte da vivência quotidiana no Chile. O país é, aliás, propenso a desastres naturais. Erupções vulcânicas, cheias, tsunamis, incêndios florestais que duram meses,... Quando se convive com uma força mais forte do que nós e que não podemos controlar por completo como é a Natureza, é natural ter a necessidade de exorcizar esse medo. Por cá têm uma bebida chamada Terremoto. A receita é a seguinte: 1 garrafa de vinho branco frio ( ou vinho pipeño), 200cc de gelado de ananás, açúcar, 100cc de Fernet/Granadina/Rum/Pisco Chileno (aqui a doutrina divide-se consoante a tasca). Costuma-se servir naqueles copos de 200 cc, tipo copo de sumo. Parece suminho, mas com a mistura do álcool com o açúcar até vão sentir que está tudo a abanar.

Abana mas não cai. Ao fim de 4 anos a viver no Chile, já posso dizer...terremotos, até os bebemos!

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 42 dias.

Nas notícias por aqui: O sismo e as suas réplicas.

Sabia que por cá… Maio é o Novembro deste mundo de pernas para o ar, dentro em breve vou poder comer castanhas assadas!

Um número surpreendente: Apenas 3.4% dos cidadãos chilenos residentes no estrangeiro se encontra habilitado para votar nas próximas primárias presidenciais no dia 2 de Julho.

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.