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Sofia Silva Eastmond

Sofia Silva Eastmond

Christchurch, Nova Zelândia

Primeiras Impressões

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Sofia Silva Eastmond

CHRISTCHURCH, NOVA ZELÂNDIA - O primeiro barbeque ensinou-me que aqui, por norma, não se tempera a carne. Aos poucos, ergui a bandeira. E já não há barbecue para o qual seja convidada onde não se tempere a carne

A coragem e a vontade de hastear a bandeira Portuguesa em terra nova está-nos no sangue.

Ainda que corramos o risco de acabar a viver à sombra da saudade, é o desejo de descobrir lugares novos e deixarmos o sabor português por onde passamos que nos leva a explorar o mundo.

Somos uma terra de pioneiros; (e) de emigrantes.

Mas a tarefa de honrar o passado, as raízes e, ao mesmo tempo, assentar arraiais por novas paragens sem pararmos no tempo, é uma dança delicada, que tem que ser aprendida devagar.

Tentar recriar Portugal na terra nova é ir contra o espírito do que a aventura propõe, e desperdiçar a oportunidade de viver tudo o que a experiência tem para oferecer.

Se é para emigrar, que seja para nos submergirmos na tribo que nos acolhe. O desafio é fazê-lo sem perdermos a nossa identidade.

Quando cheguei a Christchurch, foi isso que senti.

Fui com calma, para não me deixar fixar nas primeiras impressões e nas minhas expectativas. Sabia apenas que Christchurch é a maior cidade da ilha sul da Nova Zelândia e, como, tal, esperava tudo o que uma cidade "grande" tem para oferecer.

Deparei-me com uma vila disfarçada de cidade, apesar dos seus 400 mil habitantes. Mal havia prédios altos (isto mesmo antes dos terramotos), o trânsito era praticamente inexistente, as estradas imaculadas, muito espaço, poucas pessoas. Mas uma infra-estrutura robusta. Um contraste abismal com Londres, de onde me mudei.

Os kiwis são acolhedores, mas reservados. A versão dos dois beijinhos portugueses é o aperto de mão ou o "pat on the back", e as expressões de afecto acontecem depois da meia-noite e uns copos valentes. Dançar sóbrio? Raramente, graças à herança deixada pela cultura inglesa.

O primeiro barbeque ensinou-me que, por norma, não se tempera a carne. Põe-se na grelha como vem, e serve-se com muito ketchup (ou tomato sauce). E que ao fim-de-semana se acorda cedo para cortar a relva, se não estiver a chover.

Nos jogos de rugby celebram-se os ensaios com contenção, a não ser que haja alcoól à mistura. À sexta à noite come-se ”fish and chips”, e a praia que fica a 25 minutos de casa é longe. Quando a praia está cheia, tem 30 pessoas.

Dez minutos de trânsito lento são o fim do mundo. E sim, há mais ovelhas que pessoas.

Os kiwis adoram adrenalina, desportos radicais e explorar a natureza. Têm um sentido de humor peculiar, adoram bricolage e não ligam à moda. E as mulheres vestem mesmo as calças, mas isso é assunto que merece texto próprio.

A cultura das celebridades é inexistente. Aliás, um jogador dos All Blacks pode ir ao café local sem que ninguém o incomode para autógrafos ou selfies.

Foram estas as primeiras impressões de Christchurch. Já vivi o suficiente para saber que em qualquer lugar do mundo se encontra de tudo, e que as generalizações nos limitam. Tudo depende do que se procura, e do nosso ponto de vista. Nem sempre o que parece é.

Confesso que, ao início, senti falta do dinamismo londrino, e da maneira como nós portugueses aproveitamos a vida, especialmente o lado social. E que esta calma toda, e este espaço todo me faziam confusão. Cheguei mesmo a confundi-los por falta de paixão nos kiwis. Mas são estas diferenças de que agora não prescindo e às quais atribuo a qualidade de vida disponível.

Aconteceu aos poucos. Fui apalpando terreno e assimilando os aspectos da cultura neo-zelandesa que mais aprecio. Sempre devagarinho, com jeitinho, para não perder de vista o meu lado português.

Aos poucos, ergui a bandeira. E já não há barbecue para o qual seja convidada onde não se tempere a carne.

Sofia Silva Eastmond

Sofia Silva Eastmond

Christchurch, Nova Zelândia

Cidadã do mundo, deixou Portugal em 2005 para arriscar uma carreira em Londres e fugir ao status quo. Mudou-se para Christchurch, na Nova Zelândia, por amor, há quase 9 anos, onde vive com o marido “kiwi” e as filhas. Tem uma carreira de sucesso no mundo do software online, onde começou como Directora de Marketing e Vendas e, em anos mais recentes, Chief Operating Officer na empresa australiana www.saasu.com. Em 2013 criou o projecto Goddesses in The World, que começou com o festival FemFiesta em Christchurch, apoiado pela autarquia local. No final do ano passado, o projecto tornou-se na comunidade online www.goddessesintheworld.com, dedicada a celebrar as mulheres. Ocasionalmente, faz projectos de consultadoria para pequenas empresas, com foco em marketing e processos. Além da paixão pela escrita, faz costura, lê, dança, viaja e explora o mundo.