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Pelos caminhos... da Europa central

Nós lá fora

Tiago Antunes

BRUXELAS, BÉLGICA - Uma das vantagens de morar no centro da Europa é poder, com grande facilidade e rapidez, viajar entre distintos países

Uma das vantagens de morar no centro da Europa (e de ter carro, novidade recente no meu caso) é poder, com grande facilidade e rapidez, viajar entre distintos países. No mesmo dia – aliás, em escassas horas ou até minutos – é possível cruzar várias fronteiras, que mais não são do que linhas traçadas no mapa ou discretas tabuletas indicativas. Tão discretas que é muito fácil passar para outro Estado sem disso nos apercebermos (não fora o apito estridente do telemóvel a assinalar uma nova rede e os inerentes custos do roaming – sendo que até estes vão desaparecer muito em breve). Por exemplo, entre a Bélgica e a Alemanha existe um breve trecho de Holanda (onde fica Maastricht) que não demorará mais do que um quarto de hora a atravessar de autoestrada. Assim, em muito pouco tempo podemos transitar entre estes três países. O mesmo se diga em relação ao “enclave” que é o Luxemburgo, entre a Bélgica e a França ou entre esta e a Alemanha. É assim que, aos olhos de um português, fica bem patente a diferença entre estar no centro da Europa ou na periferia.

Em todo o caso, apesar da proximidade e da costumeira transumância entre tais países, há diferenças que não passam despercebidas ao viajante. Coisas tão simples como isto: em França há que pagar portagens, na Bélgica não; apesar disso, e paradoxalmente, as estradas belgas são iluminadas em toda a sua extensão (com uma luz muito característica de tom alaranjado), ao contrário das francesas. Tirando a iluminação, porém, na Bélgica as estradas são qualitativamente muito inferiores, com uma manutenção que deixa bastante a desejar. Ao ponto de, certa vez, ter ficado parado 5 horas na autoestrada que liga Bruxelas ao Luxemburgo por causa de um tardio mas ligeiro nevão. Sim, uma das principais vias de circulação rodoviária do país ficou totalmente bloqueada durante horas porque não tinha sido assegurada a limpeza da neve. Em França tal nunca aconteceria, aliás caem no extremo oposto: há sempre – sempre! – troços com uma faixa encerrada para realizar trabalhos de manutenção, seja o desbaste do arvoredo lateral, seja a correção da sinalização, etc.

O que é chato, atendendo à quantidade avassaladora de camiões que permanentemente circulam nestas estradas. É impressionante, percorrem-se centenas de quilómetros, a qualquer hora, e parece que há uma caravana contínua de camiões TIR, transportando as mais variadas cargas. Chamam-lhe “livre circulação de mercadorias”, que na realidade é um autêntico sistema circulatório sempre a bombar por essas artérias rodoviárias afora, de modo a alimentar o consumismo europeu.

Instrumento absolutamente vital para desbravar estes caminhos é o GPS. Confesso que não era grande apreciador do “bicho”, mas aprendi a tolerar as constantes interrupções daquela vozinha irritante e reconheço-lhe agora uma utilidade extrema, sobretudo ao conduzir no estrangeiro. Sem esta preciosa ajuda não conseguiria, a mais das vezes, chegar ao destino. E o GPS pode mesmo reservar-nos agradáveis surpresas. Como sucedeu ainda esta semana, quando me sugeriu um desvio para evitar um engarrafamento mais à frente na autoestrada. O que me permitiu, durante alguns quilómetros, não só contemplar a bucólica paisagem da ruralidade belga, como até vislumbrar um pequeno esquilo a atravessar a estrada.

Alguns quilómetros depois, já noutro país, paragem obrigatória para abastecer. Sim, que até na gasolina o Luxemburgo é um paraíso fiscal (e no tabaco, comprado aos magotes na loja da estação de serviço). As filas são habitualmente longas. Afinal de contas, os Europeus são muito diferentes entre si, mas todos sabem onde ir para pagar menos.

VISTO DE FORA:

Dias sem ir a Portugal: 11.

Nas notícias por aqui: Brexit, Brexit, Brexit.

Sabia que por cá: os belgas são malucos por batatas fritas, há fritarias (sim, lojas específicas de venda de batatas acabadas de fritar) por todo o lado e consta que a “receita” tradicional envolve 3 frituras consecutivas em banha de porco.

Um número surpreendente: 50% é o desconto praticado ao fim de semana em todas as viagens de comboio, ida e volta, para qualquer destino na Bélgica.

Tiago Antunes

Tiago Antunes

BRUXELAS, BÉLGICA Aos 37 anos, este jurista de Lisboa vive em Bruxelas desde janeiro de 2016. Veio para experimentar algo novo, para perceber melhor como funciona a Europa e para alargar horizontes. Mas o seu destino final ainda está por descobrir