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O silêncio dos inocentes

Nós lá fora

José Augusto Pinto

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© Stringer . / Reuters

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA - Esta foi a experiência da mãe de um conhecido meu, que teve o privilégio de passar por este transe incólume e viver para contar

Dentro da carruagem, num dia como outro qualquer, a mulher estava encostada à porta quando a bomba explodiu a pouco mais de um metro de distância de si. Alguém com menos sorte que ela absorveu o impacto e caiu a seus pés, morto. Depois do estrondo, a escuridão.

As luzes do metro voltaram, e o maquinista teve a sensatez de não parar o comboio no túnel mas avançou lentamente até à próxima estação para que os passageiros pudessem sair, tendo assim evitado o pânico e possivelmente salvado vidas. Durante essa marcha lenta, inesperadamente fúnebre, ninguém gritou.

Na carruagem atordoada as pessoas mantiveram-se estranhamente silenciosas, no meio do fumo, do cheiro a queimado e perante os corpos das vítimas jazendo ali. Esta foi a experiência da mãe de um conhecido meu, que teve o privilégio de passar por este transe incólume e viver para contar. De resto, os traços gerais deste triste acontecimento já são conhecidos.

Uma bomba explodiu entre duas estações de grande tráfego, com uma segunda que acabou por ser desactivada perto de uma estação de metro e comboio no centro da cidade; local onde eu e todas as pessoas que conheço já passaram centenas de vezes. Os meios de socorro foram extremamente eficientes, bem como a entreajuda das pessoas, com motoristas a dar boleias a quem precisava visto a rede de metro ter sido imediatamente encerrada.

De resto, tudo normal. A cidade abanou mas não caiu. 11 mortos, 45 feridos, números que decerto irão mudar nas próximas horas.São Petersburgo está em alerta, como Moscovo e outras cidades na Rússia, mas não há pânico.

As homenagens, quer de cidadãos, quer de autoridades, já começaram no local da explosão, e seguirão o já infelizmente conhecido ritual das cidades atingidas pelo terrorismo. Velas, flores, desfiles. Foi declarado um luto de três dias.

A escolha do dia, em que o Presidente da Federação Russa se encontrava na cidade, onde se encontrou com o seu homólogo da Bielorrússia, não terá sido casual. Alguém quis enviar uma mensagem à Rússia, ainda estamos para perceber quem, e com que objectivo.

Felizmente os principais meios de comunicação ainda não lançaram suspeitas infundadas sobre eventuais autores, mas sabe-se que os serviços secretos já têm pistas que estão a ser investigadas. Os meios de comunicação asseguram a cobertura constante do acontecimento, desdobrando-se, como em todo lado, em entrevistas a especialistas.

Num toque particularmente russo, um dos principais canais analisava a cobertura estrangeira ao acontecimento, bem como os tweets de membros da oposição, procurando sinais de falta da patriotismo. Hoje São Petersburgo voltará ao normal, com bastante mais trânsito, solene e triste sob o céu invernal que teima em não abrir caminho à primavera.

O que farão os meus concidadãos com isto? À boa maneira russa, resignar-se, esquecer-se lembrando. Quem aguentou quase três anos de bloqueio no final da Segunda Guerra aguentará isto também. Eu poderia concluir fazendo um apelo à fraternidade e compreensão, dizer que não nos vão conseguir desunir, que o amor é mais forte, que o terrorismo não passará, e coisas desse género, mas não o farei.

Os que caíram ontem não são vítimas de um qualquer fanático ou lunático. São vítimas dos jogos geopolíticos que todas as grandes potências teimam em jogar, onde ninguém tem as mãos limpas. Como está o Iraque depois da nossa intervenção? E a Líbia, ao lado de cujo povo o Sr. Cameron disse que ia construir uma democracia? E a Síria, com os rebeldes moderados que nós armámos e treinámos, e que afinal não eram tão moderados assim? E o que os rebeldes pró-russos no leste da Ucrânia, o que estão a construir?

Neste grande jogo há vencedores e vencidos, e tal como neste 3 de Abril de 2017, os vencidos são sempre os mesmos.

José Augusto Pinto

José Augusto Pinto

SÃO PETERSBURGO, RÚSSIA José Pinto, 41 anos, casado, 2 filhos, a residir em São Petersburgo desde 2013 com a família. Publicitário de profissão, já viveu no Cazaquistão, Alemanha e Reino Unido. Apaixonado por marcas e um crente indefetível na liberdade individual, economia de mercado e liberalismo, procura nos seus diferentes destinos ver as coisas como elas são, sem complexos de civilizador ou expatriado, procurando em tudo uma centelha de verdade e ironia. Sofre de alopécia.