Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Nós lá fora

José Mascarenhas

  • 333

AMESTERDÃO, HOLANDA - Viver longe também é perder. Tempo, amigos, momentos. Jantaradas, festas e conversas. É tentar encontrar e falhar. É ser e procurar. Lembrar e querer voltar a ter. É perdermo-nos por instantes fingindo que fazemos parte de algo, mas que afinal, no fim do dia, não há encaixe ou sinergia.

Conhecer pessoas é fácil. Tentamos pontos de contacto e acabamos por contar aquela e a outra história. Daquela vez que fizemos e acontecemos. Quando aquilo se deu, naquele sítio, com aquelas pessoas, que ficou marcado para sempre e que volta e meia é recordado, com entusiasmo. Damos o enquadramento para sermos percebidos e explicamos meio metro de estrada para andar dois passos. Revelamos um momento, abrimos a cortina de um episódio que nos marcou quando não devia. Retiramos um pedaço que é só nosso e não pode ser revelado. Contamos e escondemos, abrimos e fechamos. E paramos a meia conversa, porque acordamos. Mas no fim não somos entendidos. Somos ouvidos.

Os amigos já nos conhecem. Não são precisas explicações ou descrições. Viveram connosco, sabem as nossas falhas e maldades, conhecem a nossa história porque fizeram parte dela. Reconhecem os nossos lados, as nossas manias. Partilharam algo que é deles e nosso ao mesmo tempo. Porque ajudaram quando estivemos em baixo, porque nos levantaram quando precisámos. E de volta e outra vez. Trocaram connosco de posições ao longo dos anos, e voltaram a repetir o processo. E novamente.

Conhecem aquilo que que nos toca e quando falam sabem a conversa e o caminho. Conhecem os assuntos, tiram e retiram. Descortinam. Entendem meias palavras e acrescentam o que falta. Sabem os sorrisos, as pausas, os pontos finais. As exclamações e distracções. Aconselham. Vibram com o sucesso. Recordam os passeios, as jantaradas. As noitadas. Atiram à cara tudo, destruem os filtros, as boas intenções. Cospem palavrões. Sofrem com as derrotas. Fazem parte do dia-a-dia, por mensagem ou pensamento, telefonema ou pensamento.

Quando se conhecem novas pessoas já não é assim. São novas. Não passaram pelo teste do tempo e situações. Não tiraram parte delas para fazerem parte da nossa. Não sofreram ou entenderam. Não perderam noites, dias, conversas e horas. Não caminharam ao nosso lado, à nossa frente e depois atrás. Não nos levantaram. Não precisaram da nossa ajuda, em troca. Não nos deixaram cair quando foi preciso, também. São outras pessoas, não são nossas.

Estar fora é perder tempo. Não se perdem amizades, mas momentos. Está tudo lá, quer se passe horas ou anos fora. O sentimento é o mesmo. A história é a mesma. A reacção igual. A conversa a mesma. Mudam as situações, os momentos, as histórias. Mas está tudo lá. É só abrir a porta. Abrir a boca, olhar nos olhos. Recordar algo que ficou para trás, que marcou. Os momentos que ficaram, bem lá no fundo. Partilhados, envolvidos. Perdidos. Escondidos.

Mas há coisas que o tempo come. Momentos, encontros. Histórias e situações. Segundos ao sol, à beira-mar que não temos e que perdemos. Sorrisos, distracções. O tempo come um pouco, mas não tudo. Afinal de contas, são os nossos. Aqueles que bebem do nosso copo. Que sabem a nossa bebida. Que conhecem a nossa história. Que são nossos.

Os nossos, aqueles que nos conhecem, fazem parte de nós. Quer passe uma hora, mês ou segundo. E assim vão continuar. Para sempre!

José Mascarenhas

José Mascarenhas

AMESTERDÃO, HOLANDA Não há mesmo muito para dizer. Tenho 34 anos e nasci em Lisboa. Fui jornalista, guionista, criativo e professor. Trabalhei em eventos, em marketing e televisão. Tenho uma licenciatura e mestrado, que me enchem o peito mais que esteróides. Fiz de tudo, mais ou menos bem. Há um ano e meio fui trabalhar e viver para Budapeste. Agora estou por Amesterdão. Todos os dias sinto falta da praia, do mar, da comida, e por incrível que pareça, descobri um amor por Portugal que não julgava existir.