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Nós cá dentro, de nós…

Nós lá fora

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA - Peço desculpa a quem, por ventura, vinha à espera de uma crónica da diáspora, mas este mês, foi diferente. Esta rubrica deveria ser sobre “Nós lá fora”, mas aqui fica o apelo para nos olharmos um pouco mais para “Nós cá dentro”

Nós cá dentro de nós temos uma máquina fabulosa. Funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem parar. Funciona com pouco manutenção. Ajusta-se e reconstrói-se sozinha. Protege-se a si própria, repelindo grande parte dos ataques dos agentes patogénicos. Em poucos casos, sucumbe perante doenças letais. Se eu o desafiasse a dizer rapidamente qual a primeira doença grave e temível que lhe ocorre em mente, talvez não me enganasse muito se sugerisse que pensou no cancro.

O cancro é mesmo temível. Com a minha idade já encho uma mão e alguns dedos de casos conhecidos no meu círculo familiar e de amizades. Perdi, para um cancro, há já vários anos, um avô e a minha madrasta. Há uns cinco anos perdemos uma amiga, mãe de dois belos rapazes, para um cancro da mama. Uma outra amiga nossa muito próxima, colega da minha mulher e minha companheira de muitas aventuras de teatro, que fazemos por carolice, está em cuidados paliativos, também devido a um cancro da mama, que entretanto gerou metástases na cabeça. Duas outras colegas e amigas têm vindo a lutar contra o mesmo tipo de cancro, com sucesso, até agora. Um outro colega sobreviveu a um cancro nos testículos e tem-se mantido felizmente muito saudável desde então.

Porque o cancro parece ter este carácter aleatório na forma como selecciona as suas vítimas, e que nada tem a ver com o seu comportamento, isto é acontece a bons e maus, a púdicos e promíscuos, a magros e obesos, a novos e velhos (exceptuando talvez o caso dos fumadores, com risco agravado de cancro de pulmão, como foi o caso do meu avô), é normal que, quando ataca, gere uma onda de solidariedade em torno do doente. A nossa querida amiga fala da sua situação abertamente no Facebook, onde recebe muito encorajamento. Todos os amigos (e são mesmo muitos) a querem visitar, e ela precisa organizar as visitas com Doodle. Ela recebe tributos regularmente e todos a elogiam a coragem e determinação de lutar até ao fim. A perda de cabelo é algo que a ninguém incomoda e tudo fazemos para lhe aliviar a dor, e manter o seu espírito à tona. Quem a visita informa os outros do seu estado. Estamos todos unidos em torno dela. É muito triste, porque todos sabemos que é uma questão de tempo. Mas sabemos que a nossa amizade e apoio colectivo a têm ajudado a aceitar e viver a situação com excepcional graciosidade.

Mas se eu revertesse o desafio de há bocado, e fosse você a perguntar-me qual a primeira doença grave e temível que me ocorre nestes dias, apesar dos casos tão próximos que mencionei, não seria o cancro. Há pouco tempo, recebemos a triste notícia de que uma outra amiga, uma jovem mulher a meio dos seus 30, atraente, inteligente e muito gentil, que entretanto se tinha mudado para a Holanda há já vários anos, e por isso víamos muito pouco, tinha falecido de repente. A doença que ela sofria há já quase 10 anos: Anorexia.

Esta doença, por outro lado, está associada, na mente colectiva das pessoas a uma falha grave do comportamento do doente. Se está magro, coma! Deixe-se de coisas! Controle-se! Você é inteligente, sabe que está doente, porque já lhe disseram, então coma e deixe de perder peso!

A pessoa que sofre desta doença, sofre também de um terrível isolamento. Ao contrário da falta de cabelo associada ao cancro, a aparência de uma pessoa anoréctica mais depressa causa repulsa. Os outros preferem não ter esta pessoa por perto. Esta jovem, tinha a necessidade compulsiva de correr, para perder calorias, e fazia jogging em torno do local do trabalho, e acabou recolocada, pela sua chefia, noutro escritório, não sei se para lhe dificultar as corridas e preservar a vida, ou para poupar as outras pessoas de a verem correr daquela maneira. Ela já nem era mais capaz de participar em vídeo conferências com os colegas porque não suportava ver-se a si própria nos ecrãs.

Para um anoréctico, parece que ninguém faz Doodles para visitar. Quase ninguém sabe como ajudar. Os amigos vão-se perdendo pelo caminho. Em vez de encorajamento, há incompreensão, afastamento, até indignação. No caso desta moça, o próprio irmão lhe havia dito que não a queria mais ver e que não suportava mais o seu comportamento e o distúrbio que causava à família. Colegas lhe haviam dito que devia deixar-se de coisas “and just get a grip”! Ocorreria a alguém dizer a um paciente de cancro “to get a grip”? Ou que o seu cancro os incomoda?

Quando finalmente o seu coração não resistiu à doença, pesava tanto ou menos que o meu filho de 8 anos, estava sozinha no seu apartamento (onde vivia sozinha), e só várias horas mais tarde a sua falta foi sentida no escritório e os serviços de emergência alertados para a encontrar. Quando arrombaram a porta de sua casa, estava já sem vida. Não houve tributos em vida, nem palavras de encorajamento no Facebook, e em morte toda a gente ficou chocada. Ninguém percebe como chegou a isto. Da última vez que a vimos, numa visita curta à Holanda, há alguns meses, ela havia confessado que a presente terapia, com acompanhamento clínico e psicológico, era a última chance que daria a si própria, e receávamos já que, se a doença não a tivesse levado, ela própria teria desistido.

Eu confesso que percebo mesmo muito pouco desta doença (e o artigo do Wikipedia diz logo também que a sua causa é desconhecida). E no entanto, ela estava mesmo doente. Ela não escolheu ser anoréctica, ela também foi escolhida aleatoriamente. Isto é, para nós, muito difícil de perceber, porque parece-nos que resulta a doença de uma escolha racional de estilo de vida, de alguém que quer ser magro a todo o custo. Sobretudo porque esta é uma doença que prevalece em pessoas que precisam de ser magras para ter sucesso nas suas actividades, como atletas e modelos.

No entanto há pessoas capazes de manter um peso baixo sem que a doença se revele, logo haverá alguma predisposição genética ou algum outro factor crítico que contribui para a desencadear. Por isso, entristece-me muito que tenha actualmente um estigma social tão agravado. Que uma pessoa tão nova, tão cheia de potencial e vida pela frente, não receba o apoio, o encorajamento, e boa vontade de todos, para ajudá-la, senão a curar-se (não sei se há cura), a pelo menos a poder viver com a doença sob controlo.

Lembro-me de ter visto já pelo menos uma campanha de sensibilização para a Anorexia. Sei que há algumas pessoas e entidades activas no suporte a estes doentes, mas ao tentar localizá-los a minha pesquisa no Google apenas destacou uma iniciativa no Porto, iniciada pelo Dr. Daniel Sampaio em 1998 (a AFAAB, cuja presença na internet não revela muita actividade recente). Encontrei também este artigo de 2015 que descreve um caso em tudo semelhante.

Sei também que há várias outras doenças graves que levam à marginalização social e não quero aqui de alguma maneira minorá-las, nem sequer insinuar que esta seja pior do que outras. Tão pouco estou, de maneira alguma, a tentar diminuir a situação gravíssima e delicada dos pacientes de cancro e das suas famílias. Estou apenas triste com este acontecimento tão próximo e se mais algum leitor se sentir sensibilizado por este caso, ou se este texto servir para alguém passar a olhar para estas pessoas de outra forma, mais caridosa, bom, ainda bem, pois honra esta perda desnecessária de uma vida preciosa. Peço desculpa a quem, por ventura, vinha à espera de uma crónica da diáspora, mas este mês, foi diferente. Esta rubrica deveria ser sobre “Nós lá fora”, mas aqui fica o apelo para nos olharmos um pouco mais para “Nós cá dentro”.

VISTO DE FORA:

Dias sem ir a Portugal: 25

Nas notícias: Diz que na Rússia há protestos contra Putin

Sabia que por cá: Não há limite de velocidade nas auto-estradas, excepto em trechos assinalados, e nesse caso, cuidado com as câmaras!

Um número impressionante: 12 – o número de pessoas que morre por ano na Alemanha por causa de Anorexia (fonte: 0,014 por cada 100.000 pessoas)

Bruno Sousa

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA Bruno é pai de três pirralhos, engenheiro aeroespacial chefe de operações de uma constelação de quatro satélites científicos (Cluster) da Agência Espacial Europeia ( as opiniões nas crónicas são só dele, e não da Agência) e nos tempos livres é autor e encenador com peças exibidas em Darmstadt, Den Haag, Antuérpia, Londres e Hamburgo.