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“Temos de combinar qualquer coisa...”

Nós lá fora

Filipa Araújo

MACAU - As bengalas linguísticas tornaram-se pequenos monstros. E neste mundo complexo que é viver numa comunidade portuguesa emigrada, esse mesmo dicionário tem-se tornado rico nesse tipo de expressões

Tento que os chavões ocupem muito pouco espaço no meu dicionário. Por defeito de formação, as bengalas linguísticas tornaram-se pequenos monstros, caminhos totalmente proibidos e, confesso-me aqui, talvez por isso tão tentadores.

Neste mundo complexo que é viver numa comunidade portuguesa emigrada, esse mesmo dicionário tem-se tornado rico nesse tipo de expressões. Tenho constatado que entre os portugueses desta pequena comunidade existem algumas dessas frases feitas dignas de casos de estudo.

Há por aí uma que salta à vista de qualquer pessoa, até da mais distraída. Tal como disse o poeta, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”, e quando damos conta já nós, aqueles que estranhámos, a gritamos com toda a força que os nossos pequenos pulmões embrulhados em poluição conseguem. Sem longas demoras, falo da frase: “Temos de combinar qualquer coisa...”. Entenda-se, combinar um jantar, um almoço, um café, ou apenas dois dedos de treta.

Bastou-me um mês para perceber que o “temos de combinar alguma coisa” assume apenas função de ponto final numa conversa. Em jeito de despedida a pessoa lá solta um “então, pronto, temos de combinar qualquer coisa”. É um fenómeno. Uma ação que ficou presa no mundo da fantasia, das probabilidades, mas nunca (salvo raras exceções) vai acontecer.

As pessoas nunca vão chegar a combinar esse jantar/almoço/café, essa combinação não vai surgir, mas ninguém fica sentido e quando o assunto surge novamente desfazemo-nos em desculpas. “Tenho imenso trabalho”, “Nunca há tempo para nada com os miúdos”, “O mestrado ocupa-me imenso tempo”, e tantas outras. Depois reforçamos a dose, “mas temos mesmo de combinar qualquer coisa”.

Não sei qual é a verdade, mas tenho uma teoria que defende que os portugueses estão carregados de boas intenções e querem, efetivamente, receber bem as pessoas. Nós acreditamos (mesmo!) que “temos de marcar qualquer coisa” com determinada pessoa, só que não a concretizamos. Sabem o morrer na praia? É precisamente isso. Tocamos com os pés na areia, sentimos a temperatura, respiramos fundo e vamos embora sem um único mergulho, sem tocar com um dedo na água, sem sentir o sabor a sal.

Voltando ao meu primeiro mês de existência em Macau, recordo que com muito entusiasmo partilhei, na altura, com a minha família que preocupadíssima estava em Portugal, as dezenas de convites que recolhi. Qualquer pessoa nova que conhecia oferecia-me de sorriso aberto um “temos de combinar qualquer coisa”, que às vezes, matreiro se disfarçava com um “tens de ir jantar lá casa” ou “temos de ir almoçar esta semana”. Acreditem, todos querem dizer a mesma coisa: quase nada. É este jeito tão nosso de bem receber que nos faz dizer isto. Nós queremos ter a certeza que a pessoa se sente em casa, todos nós sabemos o que é ser emigrante, mais do que isso, sabemos que por vezes a solidão não bate à porta, entra sem bater e ocupa todo o nosso espaço. Por isso, disponibilizamo-nos para ser presente, abrimos as portas da nossa casa, oferecemos do nosso tempo ao outro.

A pessoa que recebe a espécie de convite camuflado em qualquer coisa, fica à espera de um telefonema que vai demorar a chegar (se chegar) e quem convida volta ao mundo que corre demasiado rápido, que nos suga a atenção toda e entre os intervalos em que respiramos lá nos lembramos que “temos de combinar qualquer coisa” com tal pessoa.

Somos todos inocentes e somos todos culpados. Os restaurantes continuam a perder com a falta dos nossos jantares e as possíveis amizades deixam de ganhar raízes, porque um dia, perto ou longe vamos todos embora.

Esta semana cumpri todos os meus “temos de combinar”, temo para trás quase três anos de “temos de combinar qualquer coisa” e prevejo meses de vida social intensa. Em modo aventureira arrisquei e agendei novos (como se não bastassem os que tenho pendentes). Por mim não serão adiados. Vão acontecer. Vou reforçar laços, criar novos e viver o que Macau tem para nos dar: as pessoas. Porque no fundo, seja em Macau ou em qualquer outra parte do mundo, quem faz o ambiente, quem traz o cheiro a casa são as pessoas e o que fazemos delas.

Filipa Araújo

Filipa Araújo

MACAU, MACAU Apaixonada por letras, pessoas e lugares, não se lembra de querer ser outra coisa senão jornalista. Antes sequer de partir já tem a mochila às costas. Esteve em jornalismo de agência e em assessoria em Portugal, mas não hesitou quando a convidaram para voar até a Macau. Ir é o seu verbo favorito. Escrever, uma paixão. Gosta de rir e observar tudo à sua volta. Diz que o amor é o que a faz viver. Não disfarça quando algo não lhe agrada e levanta o sobrolho quando dá opiniões. Adora sushi, mas era incapaz de deixar de comer carne.