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Nós lá fora

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE - Para quem, como eu, vive fora de Portugal, os amigos tornam-se uma espécie de família

Os amigos são uma parte fundamental na vida de todos nós. Recordo que na preparação do livro de final de curso na faculdade decidimos incluir um questionário de Proust como alternativa às tradicionais caricaturas. Uma das perguntas era sobre a definição de pobreza e lembro-me também de na altura ter respondido que para mim, a maior pobreza seria não ter amigos.

Com o passar dos anos continuo a rever-me naquela definição, pois, para quem como eu vive fora de Portugal, os amigos tornam-se uma espécie de família.

Fazem-se amizades para a vida. Acompanhamos o percurso uns dos outros, as alegrias e misérias de quem decide encontrar um lugar ao sol do outro lado do mundo. Fazem-se amizades improváveis. Identificamo-nos com pessoas que provavelmente nunca teríamos conhecido em Portugal, com histórias de vida completamente diferentes da nossa e vindas de outras atividades profissionais, outras gerações, outras culturas.

O lado B desta realidade aparentemente tão enriquecedora é que por vezes nos toca a nós ver esses amigos partir para outro lugar. Um pouco como as nossas famílias que nos veem partir, mas em versão acelerada o que pode ser emocionalmente esgotante. Do grupo de amigos da etapa de São Paulo, restam muito poucos ainda a viver na cidade. Na altura, não senti muito o fenómeno da perda. Uma amiga mudou-se para Hong Kong ao fim de dois anos, mas passados uns meses éramos nós que nos mudávamos também para o Chile. Fomos dos primeiros a partir daquele grupo. Desta vez, ao fim de quatro anos a viver em Santiago, tocou-me ficar e ver os outros a partir. Já tinha havido algumas partidas, espaçadas, com tempo para digerir. O duro foi quando os nossos BFF da alma foram viver para Medellín, na Colômbia. Pouco depois, dois casais amigos, ambos com gémeos da idade do meu filho, mudaram-se para a Cidade do Panamá e para o Rio de Janeiro, respetivamente... Andava eu a planear uma festa de anos para toda esta criançada, com teatrinho em português e tudo e, no espaço de dois meses...pufff, ficámos “sozinhos”. Bom, não se foram toooodos embora, temos outros bons amigos aqui e também chegam reforços de vez em quando... mas a experiência da perda ficou lá.

Fruto desta experiência, a minha perceção da emigração portuguesa atual (e não só) é um pouco diferente da visão tradicional com que normalmente se escreve sobre o tema em Portugal. É que não se parte só uma vez para depois voltar. Partem-se muitas vezes e passamos por muitos lugares. Eu própria já chamei casa a três cidades diferentes e o mesmo se passa com muitos dos portugueses e outros estrangeiros que fui conhecendo pelo caminho. Madrid-São Paulo-Santiago, Boston-São Paulo-Hong Kong, Luanda-São Paulo-Cidade do México, São Francisco-Santiago-Medellín, Santiago-Cidade do Panamá, São Paulo-Miami, são apenas alguns exemplos próximos que me vêem à memória. Ainda há dias, no parque infantil que costumamos frequentar, metemos conversa com uma família que nos pareceu estar a falar em português com os miúdos. Eram tugas, sim senhor! Acabadinhos de chegar ao Chile vindos da... Nova Zelândia.

Penso que, hoje em dia, para todos os lugares do mundo deve ser possível encontrar um fórum de estrangeiros (ou até mesmo só de portugueses!!) no Facebook, onde se pode vender o recheio da casa quando nos vamos embora, ou comprar um frigorífico em segunda mão, como contratar uma mudança internacional, pedir informação sobre vistos, sobre hospitais, como enviar dinheiro, como validar as cartas de condução, informação sobre escolas, onde comprar comida típica ou simplesmente onde vai passar o jogo do Benfica. Enfim, preocupações de emigrante. Estes fóruns acabam por ser um registo do fluxo de partidas e chegadas ao lugar e indiretamente funcionam como um barómetro do estado da economia desse país.

E se maioritariamente ainda juntamos as poupanças para comprar uma casa lá na terrinha, isso também é em parte consequência do facto de não sabermos quanto tempo vamos ficar neste lugar ou se ainda vai haver mais caminho para andar antes de voltar a casa.

Tornámo-nos uma tribo meio nómada.

VISTO DE FORA:

Dias sem ir a Portugal: 10 dias.

Nas notícias por aqui: Novos candidatos apresentam-se para as próximas eleições presidenciais de Novembro.

Sabia que por cá… Março é o mês do regresso às aulas.

Um número surpreendente: Segundo dados das Nações Unidas existem no mundo 232 milhões de pessoas a viver fora dos seus países de origem como emigrantes ou expatriados. Se nos juntassem a todos num país imaginário seriamos o quinto país mais populoso do mundo...

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.