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Seremos de facto nós a “Primeira geração a terminar com a pobreza”?

Nós lá fora

Bruno Neto

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FREETOWN, SERRA LEOA - Vivemos numa bolha em estilo de uma caverna que não nos permite ver ou entender a sorte que temos

A existência que não contempla a questão, será sempre o contrário de todas as respostas.

O demasiado que temos ou possuímos é o paradigma que mata os tempos-vivos de não sabermos bem o que queremos ser. E por vivermos nesta constante busca pela definição na sociedade dos dispersos, das modas que mudam com a mais leve brisa ou mesmo as que nos tombam como se fossem vendavais hemorrágicos que não nos dão a paz de entendermos onde ficamos, como ficamos e quem nos acabámos de tornar.

Nos últimos meses tenho dado várias palestras aqui em Portugal, aproveitando a pausa para descansar entre as missões que me tiram de cá. Quero aproveitar este tempo para trazer e causar um pouco de reflexão extra, juntando um pouco de caos à aparente alalia de não conseguirmos definir em que lado de nós e do mundo estamos.

Vivendo do Lado B do mundo, vivo no lado de lá da bolha existencialmente higienizada que nos protege aqui na Europa. Sou vizinho da família do oleiro Cipriano que em vez de fazer a loiça de bairro, faz ele e muitas outras e outros Ciprianos muita da roupa que vestimos, muito do café que bebemos, muitos dos chocolates que nos deliciam ou dos telefones que amamos e utilizamos para partilhar reflexos do que queremos filtrar de nós.

Vivemos numa bolha em estilo de uma caverna que não nos permite ver ou entender a sorte que temos, que nos remete para uma não compreensão de como temos tantos refugiados, de como temos ainda tanta fome no mundo, ou guerras que jamais conseguimos colocar em qualquer lógica se não a da ignorância alheia, a falta de sensatez do “outro”, o pouco desenvolvimento “desses povos” e que de alguma forma ajuda a justificar o porquê, de sem querermos, darmos mais valor a umas vidas do que a outras.

Tenho falado em Universidades, Escolas, Bibliotecas, tertúlias, rádios e noutros formatos similares. O público é diversificado, mas a grande maioria são jovens. Falo do meu percurso, das experiências e aprendizagens adquiridas nos vários trilhos por onde passei e que de alguma ou muitas formas me fizeram questionar a minha forma de viver e de ver o mundo. Mas mais que focar no que passei ou como interpretei, partilho muitas estórias de muitos humanos que não fazem parte da história e questiono a justiça, a dignidade e os direitos mais ou menos humanos que têm ou foram proibidos de ter. E é nestes exemplos que promovo o debate sobre o papel de cada um no espaço comum, em cada uma das comunidades a que pertencemos, a interpretação dos Direitos Humanos, onde começam e acabam as liberdades individuais e as partilhadas que tantas vezes “nos esquecemos”.

Tenho tido um feedback muito forte, muito sentido e muitas garantias dadas por muitos jovens que ganharam a noção que ainda podem fazer mais, que ainda podem dar mais por si e pelos demais e que a mais gente passarão as mensagens da importância da participação, da cidadania, da valorização dos espaços, responsabilidades e direitos comuns. E alguns destes jovens passaram a entender que para a maior parte das pessoas deste mundo a vida não lhes dá limões para fazerem limonadas, nem pedras para construírem castelos, nem mesmo esperança.. porque para a frente é que é o futuro. Para uma larga maioria, a vida é o dia, o futuro é o mesmo dia, a esperança é de poder comer e alimentar a família nesse mesmo dia.. e todos os dias lutam desmesuradamente para poderem sobreviver, para poderem dar pão aos seus filhos e filhas, sem acessos a saúde, educação ou mesmo a qualquer sorriso de esperança por um amanhã com um pouco mais de segurança, de cuidados e de uma vida com mais dignidade. Até que esse dia venha.. continuarão a guerrear com uma força que poucos conseguem imaginar. E até que esse dia venha, que muitos nós, deste lado, sigamos atentos e exigentes na construção de uma sensibilidade e noção de uma alteridade que tenha impactes reais no mundo real, para que neste mesmo dia possamos somar apenas mais um dia de luta por um mundo mais digno e mais sustentável.

Muitos destes jovens pediram-me para vos perguntar se eles podem contar convosco. Poderão?

Bruno Neto

Bruno Neto

MOÇAMBIQUE - Nasceu em Tramagal, Abrantes. É um coleccionador de estórias de vidas e filantropo. Viveu e trabalhou em quatro continentes, tendo estado envolvido em projectos em quase 30 países. Ainda que viva uma vida nómada e continue a trabalhar por todo o mundo, estabeleceu base na Ilha de Moçambique. É um incansável lutador pela dignidade, sustentabilidade e liberdade.