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Nós lá fora

Miguel Moreira Rato

LONDRES, REINO UNIDO - Há uma expressão meio esotérica que serve sempre bem aos mais crentes e que diz que “estamos todos aqui de passagem”. A verdade é que nós, emigrantes, estamos mesmo. Não sabemos quando voltamos, se voltamos, nem sequer para onde voltamos. Somos passageiros autênticos. O que é bom, mas às vezes também nos causa algumas olheiras.

Há dias em que só me apetece pegar naquele microfone e atirá-lo para a linha quando o metro está mesmo a chegar. Patrick Cooper. Estatura média, cabelo tresloucado, óculos baços e típicos de quem sofre de miopia desde o berço, barba ruiva descuidada a precisar de severo corte. Farda a dar com o logótipo da empresa para quem trabalha e a combinar também com o símbolo da estação. Earl´s Court, neste caso. Das colunas sai um som estridente, rouco, demasiado pouco definido. Ensurdecedor. Empurra a massa humana para dentro das carruagens com as palavras. Tudo a andar, vá, entrem rápido e apertem-se e despachem-se para ver se o comboio segue no horário. Sem nunca esquecer o tradicional

Mind the gap between the train and the platform.

Também há dias em que se vislumbram os dois ou três dentes amarelados – acastanhados - atrás dos pelos cor de laranja. Patrick Cooper está bem disposto e além das decoradas frases a empurrar a malta toda lá para dentro e a assegurar que ninguém cai no buraco minúsculo que separa o comboio da plataforma, lá solta a sua veia criativa e acrescenta um

Show us a smile, ladies and gents! Have a splendid day in the lovely city that is London.

E os passageiros lá entram, da mesma forma desorganizada de todos os dias, aos empurrões e sem noção de que estão a espetar o cotovelo no nariz do vizinho, mas com um sorriso na cara, porque das colunas vem um som ensurdecedor, rouco e estridente, mas amistoso. Patrick parece que adivinha. Parece que descobre os dias em que quero apenas ouvir – ou ignorar - o essencial do mind the gap e os outros em que faz mesmo bem receber os bons dias e um smile ladies and gents do homem do microfone.

E lá vamos nós , de estação em estação, até ao destino do dia. Entra, sai, aperta, senta, dá lugar à velha, volta a sentar se tiver sorte, sai, troca de linha, lá vai mais uma com o crachá a dizer “baby on board”, toca a levantar e a dar lugar. Apanho este ou espero pelo próximo? Saio já nesta e ando um bocado a pé? Apanho o da Jubilee ou o da Piccadilly que me deixa mais longe mas que me leva a pé por um caminho que me ajuda arejar o casaco e as ideias?

Passageiros. Não só ali, no local óbvio. Mas também entre amigos e conhecidos, em conversas desinteressadas de fim de semana ou jantares organizados para conhecer mais uma família que aqui acabou de aterrar. Há quanto tempo chegámos? Estamos a gostar? É para ficar muitos ou poucos anos? É rara a conversa que não acaba, ou começa, assim. Aqui sentimos que estamos verdadeiramente de passagem. E que, ao contrário da viagem diária de metro, seguimos sem mapa. A dúvida paira sempre no ar, a comparação vem constantemente ao de cima. A vontade de regressar une-se constantemente à vontade de não voltar já, já. Ou de não voltar, ponto.

E lá vamos, todos, partilhando uma falsa rotina de emigrantes. Falsa, porque temos medo de aprofundar amizades novas, pois daqui a uns “tempos” - quanto? - um de nós já não vai cá estar. Falsa, porque não são raras as vezes em que damos connosco a ponderar empacotar livros e pratos e ver como é que se empandeira o cão para Portugal numa transportadora que deve ser mais cara do que o cão alguma vez nos custou. Falsa, porque teimamos em não chamar casa a um sítio que nos pode acolher por mais seis meses ou mais vinte anos.

É uma incerteza que nos faz ir vivendo as coisas com mais intensidade e para alguns com mais gozo – sobretudo se tivermos nos genes essa inquietude que nos faz querer estar em constante movimento – mas que também nos consome horas e horas e noites e noites.

É tramado.

Amanhã, quando chegar a Earl´s Court, antes de mudar para a linha que me traz praticamente até à porta do serviço, vou agarrar-me ao microfone do Patrick Cooper. Há muito que não vou a um karaoke, e há uma música dos The Clash que não me tem saído da cabeça.

Should I stay or should I go now?
Should I stay or should I go now?
If I go there will be trouble
And if I stay it will be double
So ya gotta let me know
Should I cool it or should I blow?

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: já roça os 90.

Nas notícias por aqui: Brexit, what else? Entre Lordes e Comuns, alguma coisa há de sair nos próximos dias.

Sabia que por cá…. por falar em Brexit, parece que vem aí uma das maiores marchas de sempre. É já no dia 25 e promete paralizar a cidade com protestos anti-Brexit

Um número surpreendente: 50-50 – a probabilidade de Theresa May despoletar o famigerado artigo 50 esta semana

Miguel Moreira Rato

Miguel Moreira Rato

LONDRES, REINO UNIDO Define-se como uma pessoa inquieta. No bom sentido. Já foi jornalista e assessor de imprensa, mas foi no empreendedorismo que encontrou o seu talento. Lançou duas empresas de comunicação e relações públicas e aos 40 – toca a todos – decidiu dar mais uma grande reviravolta e aceitou o desafio de liderar a comunicação de uma das mais promissoras ONGs internacionais. São 40 os países que estão a seu cargo, e Londres é agora a sua base. Desde que se mudou, há quase dois anos, já viajou pelos quatro cantos do planeta – literalmente – mas o que mais lhe lava a alma é voltar para casa e aproveitar os poucos raios de sol para conhecer o país para onde se mudou com a mulher e os três filhos – os seus verdadeiros companheiros de viagem.